| Comentários ao recém-publicado
artigo na revista Cancer: “Association of marijuana use and the
incidence of testicular germ cell tumors” (Daling et al., 2009)
Resposta: O grupo dos tumores de células germinativas
do testículo são um dos mais comuns entre adultos jovens.
Esses tumores malignos tradicionalmente são classificados em dois
grandes tipos: os chamados seminomas e não-seminomas.
| "O estudo revela importante achado
clínico que deve ser replicado em novas pesquisas. Para os
pesquisadores, sinaliza a necessidade de outros estudos para confirmar
esses achados; para os usuários dessa substância, sinaliza
a necessidade iminente de rever seus hábitos e procurar tratamento
médico especializado" |
Na última metade do século XX, a incidência
desses tumores aumentou entre 3 e 6% por ano nos Estados Unidos da
América, bem como na Europa, Austrália e Canadá.
Os principais fatores de risco já conhecidos para o desenvolvimento
desses tumores têm sido: história familiar desses tumores,
idade, raça, alterações genéticas do próprio
tecido gonadal (*disgenesia gonadal), criptorquidia (ou seja, não
descida do testículo para a bolsa escrotal). |
Como surgem esses tumores nos testículos?
Uma das teorias mais consistentes a respeito do surgimento desses tumores
malignos tem sido a existência de células germinativas primordiais
que não se diferenciam ainda no próprio feto e permanecem
suscetíveis à transformação maligna. Logo,
essas células não diferenciadas poderiam estar suscetíveis
à ação de agentes externos, como consumo de cigarros,
álcool, certos tipos de alimentos, maconha, etc. Também,
hormônios, como a testosterona e as gonadotrofinas, exercem influência
sobre o desenvolvimento desses tumores, quando já existem células
malignas desse tipo.
A crescente incidência desses tumores de testículo entre
adultos jovens fortemente sugere que homens jovens têm sido expostos
a fatores externos danosos. Uma exposição também
crescente entre esse grupo de pessoas tem sido o consumo de maconha. Sabe-se
que o consumo crônico de maconha exerce ações sobre
o sistema endocrinológico, como diminuição da secreção
de gonadotrofinas, testosterona, redução da produção
de espermatozóides e disfunção erétil.
Em estudos experimentais com ratos, substâncias estruturalmente
semelhantes à maconha, exercem ação sobre receptores
específicos (chamados de receptores canabinóides) que existem
nas próprias células testiculares (conhecidas como células
de Leydig e células de Sertoli), influenciando a produção
de testosterona e a sobrevivência das próprias células
de Sertoli. A infertilidade e a pobre qualidade do sêmen têm
também sido associadas ao surgimento desses tumores.
Os autores testaram a hipótese que o consumo de maconha é
um fator de risco para esses tumores. Tratou-se de um estudo do tipo caso-controle,
realizado em Seattle, Washington.
Os casos (homens portadoras desses tumores) foram pessoas entre 18 e
44 anos de idade, diagnosticados com um tumor invasivo de células
germinativas testiculares. Os casos foram aleatoriamente selecionados
a partir de um banco de dados de pessoas portadoras desses tipos de tumores.
Foram entrevistados 369 homens que concordaram na participação
do estudo.
Os controles (homens sem esses tumores) foram selecionados aleatoriamente
utilizando-se de dados censitários. Os homens que concordaram na
participação do estudo foram pareados por idade com os casos
e habitavam nas mesmas áreas que os mesmos. Foram entrevistados
979 homens. Os controles foram primeiramente acessados por telefone ou
por carta.
Todos os casos e controles foram entrevistados através de um protocolo
estruturado de perguntas sobre o seu consumo de maconha, álcool,
cigarros e outras substâncias, bem como sobre outros fatores de
risco para câncer de testículo (história familiar,
criptorquidia, raça).
Dentre os resultados, apontamos para o fato de que, após análise
controlada para consumo de álcool, cigarros, história de
criptorquidia e idade, o mais precoce início do consumo de maconha,
a maior cronicidade desse consumo e a maior quantidade de maconha fumada
constituem importantes fatores de risco para o câncer de testículo,
especialmente do tipo não-seminoma. Por exemplo, o consumo diário
de maconha atual aumenta o risco de câncer de testículo em
cerca de 3 vezes.
Certamente, existem limitações nesta pesquisa, já
que foi baseada em entrevistas, e muitos dos sujeitos podem ter escolhido
não contar a verdade. A maconha é uma droga ilícita
e isso pode ter intimidado os sujeitos ao revelar a verdade. Além
disso, muitos dos controles (pessoas sem o câncer) que recusaram
participar na pesquisa poderiam estar usando mais maconha do que aqueles
que aceitaram a participação. No entanto, são limitações
inerentes a qualquer tipo de pesquisa com metodologia semelhante.
De fato, ainda outras pesquisas deverão ser realizadas para confirmar
esses achados. Parece haver uma associação entre consumo
crônico e frequente de maconha com câncer de testículo,
embora outros fatores de risco devam ser rigorosamente analisados.
Os principais receptores de canabinóides (CB1 e CB2) existem no
tecido testicular, bem como no cérebro, coração,
útero, baço e células do sistema imunológico.
Como a metabolização da maconha e dos seus derivados demora
cerca de 4 dias, entre consumidores crônicos, a ação
contínua e intensa sobre esses receptores testiculares poderia
modificar o equilíbrio esperado entre o sistema canabinóide
orgânico e a atividade das células testiculares. Associado
com outros fatores de risco, como idade, raça e fatores genéticos,
o consumo frequente e crônico de maconha contribuiria para um desfecho
indesejável.
O estudo revela importante achado clínico que deve ser replicado
em novas pesquisas. Para os pesquisadores, sinaliza a necessidade de outros
estudos para confirmar esses achados; para os usuários dessa substância,
sinaliza a necessidade iminente de rever seus hábitos e procurar
tratamento médico especializado.
Abaixo, forneço a referência deste estudo:
Daling JR, Doody DR, Sun X, Trabert BL, Weiss NS, Chen C, et al. Association
of marijuana use and the incidence of testicular germ cell tumors. Cancer
2009.
*Disgenesia gonadal significa alterações genéticas
de cromossomos ligados ao sexo
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