| Durante os meses de setembro e outubro,
o médico oncologista Dráuzio Varella, que costuma apresentar
temas médicos no programa dominical Fantástico (Rede
Globo), deu entrevistas à revista Época e apresentou um
documentário abordando o tema fitoterapia de forma distorcida,
equivocada e preconceituosa.
Não podemos assistir a uma calúnia desse nível,
nem a um desserviço ao potencial que nosso país tem nesse
campo, sem protestar e questionar os absurdos que foram ditos como se
fossem verdades, pelo Dr. Varella.
Essa indignação não é só minha. Ela
vem também de milhares de pesquisadores que estão em dezenas
de universidades no Brasil, e que foram expressadas numa carta encaminhada
à Rede Globo pela Febraplame, federação que representa
10 sociedades científicas que atuam nessa área, em 6 de
outubro de 2010. Essas sociedades congregam cerca de cinco mil pesquisadores,
que apoiaram por unanimidade esse manifesto. Nessa carta estão
pontuados os principais absurdos vaticinados pelo oncologista Dráusio
Varella, que nada entende de plantas, e que vou comentar também
nesse artigo.
Ele afirma estar se criando uma medicina para pobres sem base cientifica,
criticando a PNPIC (Política Nacional de Práticas Integrativas
e Complementares) do Ministério da Saúde, que inclui
o uso de alguns fitoterápicos nas unidades de saúde. Essa
afirmação mostra um enorme grau de desconhecimento pelo
colega, seja de dados médicos internacionais, seja de hábitos
de consumo e conceituação das classes favorecidas no mundo.
Hoje em dia, quem mais consome fitoterápicos, seja na Europa, Estados
Unidos, Canadá, Austrália ou Japão, são pessoas
com alto grau de instrução (em geral nível superior
ou pós-graduado) e pertencentes às classes A e B. Portanto,
fitoterapia não se encaixa absolutamente na descrição
de “medicina para pobres”.
Sabemos, além disso, que a introdução de fitoterápicos
nos sistemas de saúde, monitorada em alguns países, gerou
uma boa aceitação dos pacientes, devido a bons resultados
clínicos, redução dos efeitos adversos, e melhora
na qualidade de vida das pessoas. Os dados gerados em países, como
China, Alemanha, França e Canadá, formaram a base de uma
recomendação expressa da Organização Mundial
da Saúde para a introdução de fitoterápicos
nos sistemas públicos de saúde nos seus países membros.
Ainda segundo o Dr. Varella, os fitoterápicos seriam produtos que
não teriam passado por suficiente crivo cientifico, e suas indicações
seriam baseadas em dados de uso popular ou ainda não completamente
provados, apenas baseados em testes “in vitro”. Novamente
o oncologista comete profundos equívocos de avaliação,
devido à sua desinformação e preconceito. O uso popular
desprezado pelo colega é justamente o que torna os fitoterápicos
mais seguros.
Toxicologistas atualmente tem uma opinião consensual que as moléculas
que estão em contato com a espécie humana há centenas
ou milhares de anos, como a dos produtos naturais, são muito mais
seguras que as que acabaram de ser inventadas pela síntese química.
Por outro lado a maior parte dos fitoterápicos de uso clínico,
compreendendo plantas escolhidas pelo Ministério da Saúde
para uso no SUS ou aquelas que estão aprovadas pela Anvisa como
medicamento, possuem tanto estudos farmacológicos quanto clínicos
validando suas indicações populares.
O médico do Fantástico ainda saiu catando um caso
de planta com potencial de toxicidade ao fígado, como forma de
exaltar um risco que ele alega ser temerário, do uso popular de
plantas medicinais. É o caso dos indivíduos com telhado
de vidro que jogam pedra no telhado de seus vizinhos.
Ora, a quimioterapia para o câncer, tratamento que nosso repórter-médico
emprega em seus pacientes, está entre os tratamentos mais tóxicos
da medicina. Já cansei de assistir pacientes terem complicações
gravíssimas como aplasia de medula, neuropatias e encefalopatias,
imunodepressão com infecções sistêmicas, hepatotoxicidade,
insuficiência renal, sem contar com diversos outros problemas como
náuseas e vômitos, diarreia, insônia, queda de cabelos,
que causam enorme mal-estar aos pacientes. Nem todos esses riscos desqualificam
a importância da quimioterapia, desde que feita com uma avaliação
correta de risco e beneficio.
Fico pensando, o que, um médico acostumado com esse nível
de reações colaterais em seus pacientes, pode falar de risco
de um chá de um planta medicinal de vasto emprego popular? Mesmo
uma criança vai desconfiar da qualificação do Dr.
Varella para fazer críticas aos fitoterápicos. Minha sensação
é que essa reportagem custou uma boa parte da credibilidade que
ele conquistou nos últimos anos fazendo reportagens na Rede Globo.
Ainda por curiosidade, vale comentar que existem, sim, vários
trabalhos científicos sugerindo que várias plantas medicinais
podem beneficiar os pacientes da câncer como é o caso da
Curcuma longa (aqui conhecida como açafrão), do cogumelo
Maitake, ou da pectina extraída de laranja, que atuam reduzindo
os efeitos colaterais da quimio e aumentando a eficiência do tratamento.
Talvez por seu grande preconceito o oncologista Dráuzio Varella
parece ignorar esses trabalhos, assim como demonstrou completa falta de
informação sobre as pesquisas com as outras plantas que
ataca em seu documentário.
Juntando-se ao coro de inúmeros pesquisadores e cientistas indignados
com a falta de ética jornalista do colega Dráusio Varella,
o portal da Fapesp, a agência de fomento a pesquisa de São
Paulo, uma das mais importantes do Brasil, publicou um artigo contundente
revelando o grau de revolta que se espalhou pelo meio científico
após a desastrada série de reportagens exibidas no Fantástico
nos últimos domingos. (http://www.bv.fapesp.br/namidia/noticia/40002/plantas-medicinais-equivoco-fa).
Eu também sei que a Globo foi bombardeada por milhares de e-mails
e cartas de protesto ainda que a empresa jornalística tente ocultar
esse fato. Estimulo a todos que usam e se beneficiam de plantas medicinais
a continuar escrevendo para a emissora e protestando, até que uma
“mea culpa” formal seja feita, e uma nova matéria com
fatos verdadeiros seja produzida para exibição no mesmo
Fantástico.
PS: Opiniões expressas e publicadas nos artigos
do site Vya Estelar são de inteira e exclusiva responsabilidade
de seus autores.
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