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Todos já ouvimos o velho ditado popular: "Aonde
vai a corda, vai a caçamba", quando alguém quer se
referir a pessoas ou objetos que vivem juntos, quase de forma inseparável.
Expressões semelhantes foram surgindo, mas sempre com a mesma intenção
de destacar a íntima relação existente entre ideias,
conceitos ou sentimentos: "futebol sem bola", "Piu-Piu
sem Frajola" e muitas outras. Nesse aspecto, o medo e a ansiedade
formam uma parceria tão íntima que não há
possibilidade de imaginarmos ou sentirmos um sem o outro.
Sempre que o medo está presente, a ansiedade se revela
em plenitude, sejam em evidentes sinais físicos ou invisíveis,
presentes em sintomas psíquicos. Cabe até a pergunta; "O
que veio primeiro, o medo ou a ansiedade?", nos mesmos moldes da
semelhante indagação sobre o ovo e a galinha. No caso específico
da dupla medo-ansiedade, arrisco na primazia original do medo, pois sendo
uma emoção primária do ser humano (inato) foi a percepção
dele que gerou e perpetuou a ansiedade, nos mais diversos níveis,
em cada um de nós.
De acordo com o CID-10 (Classificação Estatística
Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde),
os principais transtornos ansiosos são as fobias, o transtorno
do pânico, o transtorno de ansiedade generalizada, o transtorno
obsessivo-compulsivo, as reações ao estresse, os transtornos
dissociativos e os transtornos somatoformes. Todos com nomes pomposos
e ligeiramente complicados, mas que na realidade são as "faces
ocultas" que o medo pode assumir ao se manifestar de forma excessiva
no cotidiano de todos nós. Os transtornos de ansiedade são
na realidade um funcionamento incorreto do sistema do medo.
A principal característica das fobias é a evocação
de excessiva ansiedade preponderantemente por certas situações
e determinados objetos. É importante destacar que esses não
representam em si a ameaça que determinadas pessoas vivenciam e
tanto temem. Comumente a eclosão ansiosa desencadeada por objetos
ou circunstâncias específicas leva essas pessoas a um processo
de evitação, o que faz com que a exposição
aos fatores desencadeantes seja evitada a qualquer custo. A simples possibilidade
de enfrentarem estas circunstâncias produz ansiedade antecipatória.
Fobias
As fobias mais comuns são: a agorafobia, a fobia social e a fobia
simples.
Na agorafobia o indivíduo vivencia grande temor em se encontrar
em lugares abertos e amplos, bem como em multidões e outras circunstâncias
onde a possibilidade de saída ou fuga não se apresenta como
uma alternativa fácil e imediata (trem, avião, metrô,
etc.).
Na fobia social a condição fortemente temida e evitada
é a exposição em público, incluindo a realização
de uma palestra, a realização de uma pergunta em sala de
aula, assinatura de um cheque ou a tomada de um cafezinho sob o olhar
de outras pessoas.
Nas fobias simples, a eclosão de ansiedade é restrita
a determinadas situações e objetos específicos, bem
como o encontro com certos animais, idas ao dentista, visão de
sangue, etc.
O transtorno do pânico pode ser caracterizado pela ocorrência
de repetidas crises agudas, automáticas e imprevisíveis
de ansiedade que não se encontram relacionadas com circunstâncias
ou objetos específicos.
O transtorno de ansiedade generalizada (TAG), ao contrário dos
quadros até aqui citados, caracteriza-se por um estado permanente
de ansiedade sem nenhuma associação a situações
ou objetos. A pessoa com TAG, sofre por diversos incômodos subjetivos
(nervosismo, sudorese, diarréia, palpitação, tonturas,
tensão muscular, etc.) a cada instante de sua existência.
O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é, sem qualquer dúvida,
o mais complexo quadro entre os transtornos ansiosos. Caracteriza-se pela
presença de obsessões e/ou compulsões. As obsessões
seriam ideias recorrentes de caráter intrusivo e desagradável
que causam muita ansiedade e tomam uma parcela significativa do tempo
dos indivíduos que sofrem desse transtorno. As compulsões,
conhecidas popularmente como "manias", são comportamentos
ou atitudes de aspecto repetitivo que a pessoa com TOC é levada
a adotar em resposta a uma obsessão, com intuito de reduzir a ansiedade
provocada por estes pensamentos ruins.
Nas reações de estresse evidenciamos a ocorrência
de um ou mais acontecimentos na vida, de caráter excepcionalmente
perturbador, e que são considerados, por si só, a causa
suficiente do mal-estar. Tais acontecimentos frequentemente estão
relacionados a mudanças inesperadas no cotidiano da pessoa (morte
de entes queridos, desemprego, sequestros, assaltos violentos, etc.),
o que gera dificuldades de adaptação à nova condição.
Entre as reações ao estresse temos que destacar o transtorno
do estresse pós-traumático que se caracteriza por uma resposta,
não imediata ao evento ocorrido, porém este é revivenciado
repetidas vezes em sonhos, imagens tipo flashback ou lembranças.
O transtorno do estresse pós-traumático é acompanhado
ainda por sensação de estranheza, tendência ao isolamento,
falta de prazer e evitação de circunstâncias evocativas
da situação traumática.
Os transtornos dissociativos, quando em uma fase de sua existência,
a pessoa vivencia perda parcial ou total de significado de sua identidade
pessoal. Desta forma sua memória se encontra alterada e constituída
de falsos acontecimentos, culminando com a perda da noção
de si mesma ou, ainda, em perdas de movimentos corpóreos (braços
e pernas, principalmente). Os estados dissociativos frequentemente
são de início súbito e tendem a remissão pelo
contato interpessoal. No entanto, é possível observar quadros
dissociativos duradouros ou crônicos.
Nos transtornos somatoformes existe a presença de insistentes queixas
que o indivíduo produz a partir de seus supostos problemas de saúde
física. É interessante observar a oposição
do paciente à abordagem psíquica aos sintomas suscitados.
Dentre os transtornos somatoformes devemos destacar a hipocondria e o
transtorno de somatização.
Como pudemos observar a ansiedade pode se apresentar de diversas formas,
no entanto todas elas encobrem a emoção primária
e geradora deste sintoma: o medo. Baseados na premissa de que o medo produz
as múltiplas formas com as quais a ansiedade se "veste",
precisamos entender que diante de um estado de ansiedade que gere desconforto,
torna-se oportuno procurar um especialista para estabelecer um diagnóstico
e possibilidades terapêuticas adequadas e favoráveis à
pessoa que sofre com seu estado de ansiedade. Somente o diagnóstico
preciso do transtorno (ou patologia) pode assegurar a terapia eficaz.
Até porque a ausência de resultados satisfatórios
afasta o paciente, uma vez que como 'bom' ansioso, ele tem 'pressa', necessidades
exacerbadas e muita ansiedade para utilizar 'pílulas' mágicas.
É necessário muito empenho e determinação
por parte de nós médicos e psicoterapeutas, pois em alguns
casos de transtorno de ansiedade ocorre uma grande dificuldade em estabelecermos
o tratamento mais adequado para cada forma específica de ansiedade
e para cada caso individual.
Felizmente os últimos anos nos trouxeram boas e animadoras notícias
em relação ao tratamento dos transtornos de ansiedade. Além
disso, o progresso ocorrido no campo das terapias psicológicas
de apoio foi significativo. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) provou
ser capaz de mudar os esquemas de pensamento que aprisionam essas pessoas
aos seus próprios medos, além de alterar o seu comportamento
(reações) frente os fatores desencadeantes de ansiedade.
Em relação às novas medicações, algo
curioso aconteceu: a constatação da frequente associação
entre ansiedade e depressão fez com que os pesquisadores estudassem
o uso de substâncias originalmente utilizadas como antidepressivos
também para os casos de transtornos de ansiedade. A boa surpresa
foi que algumas dessas substâncias mostraram-se realmente eficazes
em determinadas formas de ansiedade patológica.
Atualmente podemos afirmar que em 80% dos casos de transtornos de ansiedade
é possível melhorar em muito a qualidade de vida dessas
pessoas, e isto pode ser testado pela satisfação que os
próprios pacientes referem. Após a conquista desse bem-estar,
sempre recomendamos que o paciente prossiga em sua terapia de manutenção,
pois essa prática se mostrou eficaz na prevenção
de recaídas. Como time que está ganhando não se mexe
e canja de galinha não faz mal a ninguém, é "melhor
prevenir do que remediar"!
Fonte: Ana Beatriz B. Silva é psiquiatra
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