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Um exército de fantasmas a perseguia; todos absolutamente
iguais, mesma estatura, ocultos por um manto azul-marinho da cabeça
aos pés. A noite ia descendo no espaço por onde passassem.
À frente de Helena o sol dourava a fina camada de areia que se
estendia pela estrada a perder de vista. Nada mais se via. Ela, a linha
divisória entre o dia e a noite.
| "Não
há fórmulas, receitas, para vencermos fantasmas. Eles
nos parecem aterradores, mas são desprovidos de matéria;
se tocados, desmontam. Não necessariamente precisam ser vencidos
antes que se dê o primeiro passo; o segredo é mover-se
com medo e com insegurança, no desequilíbrio, no mal-estar,
na fragilidade, mas mover-se" |
Não saberia dizer por quanto tempo
correu, se horas, se dias, se anos. Apenas a exaustão a faz
parar, virar-se para trás e perceber que não adiantaria
mais correr, ali estavam eles, todos eles. Pressentindo um desmaio,
agarra-se ao braço mais próximo, que se desfaz ao débil
toque. Estranhou que o fantasma não fosse tão forte,
nem tão alto como imaginara. |
Não media mais que ela. Arrisca-se, então,
a tirar-lhe o capuz e se depara com um rosto anêmico de criança.
Parecia tão real, que Helena levou dias remoendo o sonho.
O primeiro movimento rumo a qualquer mudança seja
talvez um dos mais difíceis porque sinaliza a tomada de decisão
de um sujeito. Ele vai pisar em terreno desconhecido e é inevitável,
nesse momento, a aparição de pelo menos dois grandes fantasmas,
o medo e a insegurança, que desencadeiam na sua imaginação
um rol de questionamentos responsáveis pela maior parte daquilo
que deixará de realizar.
Insegurança e medo todos nós experimentamos, em alguma medida,
em diversas ocasiões. Precisamos identificar se essas sensações
estão presentes o tempo todo, interferindo em qualquer de nossos
pensamentos e ações, caso em que se torna necessária
uma investigação mais profunda, até com o auxílio
sistemático de um profissional; ou se elas ocorrem em situações
pontuais, quando estamos prestes a assumir atitudes cujas consequências
afetarão substancialmente a nossa e a vida de quem se relaciona
conosco. Seja como for, temos que encarar os fantasmas.
Fatores internos e externos atuam de forma conjunta, determinando a maneira
como lidamos com situações novas. Cada sujeito reage de
acordo com sua constituição psíquica, sua história
singular, sua inscrição na história, sua percepção
de si, do outro, do mundo.
Admitir que todos nós temos insegurança
e medo não significa usá-los como desculpa para não
sairmos do lugar. Ao mesmo tempo em que é necessário considerar
a força desses inimigos, devemos reconhecer nossa capacidade para
encontrar estratégias próprias e impedir que o desconforto
causado por eles nos imobilize.
É possível suportar os enjôos, as cólicas,
a enxaqueca, os pesadelos noturnos, os suores frios, a falta de ar, o
coração acelerado, a sensação de desmaio,
desmaiar e voltar. Muitas vezes, o simples pensamento em se aventurar
no desconhecido provoca um acesso de tosse, de espirro, um sono fora de
hora. Estamos falando de gente e gente sente tudo isso e suporta, atravessa.
Não devemos superestimar esses sintomas, deixando que tomem proporções
que na realidade não têm. São apenas desdobramentos
dos fantasmas maiores, que se juntam para nos desviar da meta. Por saberem
que no fundo ainda não estamos acreditando que somos capazes de
fazer a travessia, eles aparecem para nos testar.
Quantas vezes invejamos aquele para quem
tudo parece fácil, como se ele fosse o mais destemido do mundo.
Aparência. É que ele realiza as coisas com medo e insegurança,
mas realiza.
Não há fórmulas, receitas,
para vencermos fantasmas. Eles nos parecem aterradores, mas são
desprovidos de matéria; se tocados, desmontam. Não necessariamente
precisam ser vencidos antes que se dê o primeiro passo; o segredo
é mover-se com medo e com insegurança, no desequilíbrio,
no mal-estar, na fragilidade, mas mover-se.
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