| Coluna Mente Feminina - Dicas para a saúde mental da mulher |
'Bicho
de Sete Cabeças' traz visão errônea da psiquiatria
Filmes como esse, sem reflexões e críticas construtivas, acabam
levando pacientes e familiares ao pânico, quando se torna necessária
a internação que pode significar segurança, saúde
e qualidade de vida
Por Dr. Joel Rennó Jr.
A Globo exibiu neste 5 de janeiro, em horário nobre, o premiado filme "Bicho de Sete Cabeças". A película deve ser avaliada com senso crítico.
Infelizmente na história das instituições psiquiátricas, houve casos de "manicômios" que adotaram um modelo médico-assistencial inadequado, desumano e antiético. Poucos profissionais inescrupulosos e despreparados também prestavam assistência negligente e incorreta aos portadores de transtornos mentais.
As indicações corretas das internações, muitas vezes motivadas por conflitos familiares, também eram questionáveis e merecedoras de contestação em determinadas situações.
A eletroconvulsoterapia (ECT), conhecida como eletrochoque, além de ser indicada de forma errônea, era aplicada com técnicas médicas incorretas, servindo até como instrumento de punição ou tortura, muito distante e distinta da realidade atual.
Entendo e sou sensível aos sofrimentos terríveis
pelos quais passou o protagonista do filme Austregésilo Carrano. O filme
tem sua validade ao trazer uma abordagem histórica, denunciando algumas
das más práticas assistenciais prestadas em alguns manicômios
ou instituições asilares. Isso foi há 30 anos. Inclusive
o Hospital Psiquiátrico Espírita de Bom Retiro (Curitiba-PR),
onde Austregésilo foi internado, está totalmente reformulado e
tenho através de colegas boas referencias da instituição.
Porém, a realidade atual é completamente diferente. Convido qualquer um a conhecer, por exemplo, o moderno Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e checar todos os pilares dos tratamentos praticados em nossa instituição tecnicamente corretos, éticos e humanos.
Reitero o meu respeito à dor do senhor Austregésilo. Porém, sua experiência pessoal e traumas vividos não devem disseminar generalizações falsas para os tratamentos psiquiátricos atuais.
A Associação Brasileira de Psiquiatria é uma entidade séria, organizada e bastante qualificada nas últimas décadas. Todos estão compromissados com a reciclagem do conhecimento médico dos seus associados, com o desenvolvimento científico e tecnológico das pesquisas da área de saúde mental, com o desenvolvimento de novas e múltiplas abordagens terapêuticas humanas, envolvendo os aspectos bio-psico-sociais dos transtornos mentais. A internação psiquiátrica para casos graves deve ser indicada por curto período de tempo.
Filmes como esse, infelizmente, sem reflexões e críticas construtivas, acabam levando pacientes e familiares ao pânico, quando se torna necessária a internação que pode significar segurança, saúde e qualidade de vida, quando bem indicada e com a concordância de pacientes e familiares.
As neurociências, incluindo a psiquiatria, serão
as estrelas do nosso presente século, levando a desenvolvimentos extraordinários
que beneficiarão milhões de pacientes com transtornos mentais,
incuráveis até então.
É comum recebermos nas clínicas e consultórios, inúmeros
pacientes que só procuram o psiquiatra após anos de evolução
de seus respectivos transtornos mentais, como depressão, transtornos
de ansiedade, dependências químicas e psicoses. É um grande
erro, tal conduta prejudica a evolução dos mesmos, podendo levar
à cronicidade e incapacitação, o que não ocorreria
dentro de um outro contexto.
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Dr. Joel Rennó Jr -
Doutor em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP. Coordenador do
Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher-Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP Mais informações clique aqui |