| A memória é um sistema
complexo e muito importante para o aprendizado e a vida. É ela
que nos dá a identidade e nos permite: ter uma biografia, aprender
coisas novas, rememorar fatos e eventos vivenciados.
Além da memória para palavras, números, coisas, imagens,
eventos, existe também a memória dos afetos, das emoções,
a memória da alma, a memória dos poetas. As emoções
estão presentes em todo o sistema de memória.
A teoria de Aristóteles sobre a memória e a reminiscência
baseia-se na teoria do conhecimento que ele expõe na obra “De
anima”. As percepções que chegam dos cinco sentidos
são tratadas ou trabalhadas pela faculdade da imaginação,
e são as imagens assim formadas que se tornam o material da faculdade
intelectual. A imaginação é a intermediária
entre percepção e pensamento. Assim, apesar de todo o conhecimento
derivar, em última instância, de impressões sensoriais,
não é a partir delas em estado bruto que o pensamento funciona,
mas após tais impressões terem sido tratadas pela faculdade
da imaginação ou absorvidas por ela. É a parte da
alma que produz as imagens que torna possível o trabalho dos processos
mais elevados do pensamento. É por isso que a alma nunca pensa
sem uma imagem mental, a faculdade do pensamento pensa suas formas como
imagens mentais, e ninguém poderia aprender ou entender algo, se
não possuísse a faculdade da percepção; até
quando se pensa de modo especulativo é necessária alguma
imagem mental na qual pensar.
A emoção acompanha uma ideia e vice-versa, os afetos, o
estado de humor se acoplam às ideias dando um colorido à
representação mental. Isso se chama sentimento.
Do ponto de vista neurobiológico as áreas
importantes para as emoções se encontram no sistema límbico.
As estruturas e regiões importantes do circuito cerebral
das emoções são as mesmas responnsáveis pela
memória. Assim, os estímulos recebidos do ambiente, as vivências
e as representações mentais ganham importância junto
à experiências emocionais.
Segundo o médico *Paul MacLean (1952), o hipotálamo é
visto como um elemento importante na expressão psicofisiológica
das emoções e o córtex cerebral seria a área
que codifica, descodifica e recodifica constantemente as experiências
afetivas, atribuindo-lhes significações, um sentido, representações,
símbolos e valores humanos. Assim, o sistema límbico compreende
o sistema central na integração das emoções.
Dessa forma toda a construção de identidade pessoal, de
grupos sociais é cultivada e memorizada no córtex cerebral
por uma carga afetiva. Existe uma forte relação entre memória,
prática social e afetividade.
E o que é a memória dos sentimentos, das emoções,
dos ressentimentos?
É possível esquecer lembranças traumáticas,
afetos ressentidos. Muitas vezes esquecemos os fatos, mas não os
ressentimentos. A rememoração de sentimentos negativos,
de sentimentos mal resolvidos, de assuntos inacabados, de eventos traumáticos,
de frustrações é sempre dolorosa.
Somos capazes de ter o esforço de repensar
e transformar os assuntos e experiências vividas. Conforme cita
Nietzsche, as expressões, manifestações de sentimentos
(chamadas de explosões de sentimentos), podem ser os rancores e
recalques passivos que se manifestam, extrapolando as rivalidades
internas, exprimindo vontade de vingança. Assim as pessoas seguem
a vida cultivando hábitos que escondem suas frustrações.
Os afetos negativos, os ressentimentos são experiências de
medo, perversidade, maldade, humilhação que fere o amor-próprio,
a autoestima, o autoconceito, que suscita fusões afetivas, transtornos
de humor, descontrole emocional. O recalque da agressividade incapaz de
exteriorizar afetos negativos, pode trabalhar a memória de forma
a estimular a violência, a fúria, a defesa. Ao longo da vida
essa memória dos sentimentos, dos significados expressos em reminiscências,
em poesias, na arte e nas atitudes agressivas deve ser trabalhada no sentido
de se conseguir um esquecimento que seja apaziguador das dores.
*Paul MacLean: médico criador da teoria do sistema das emoções
(sistema límbico).
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