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O amor e a sexualidade não estão condicionados apenas
ao corpo físico, nem atrelados exclusivamente à idade biológica,
estão também inscritos nos universos que tratam da cultura,
da história e de nossa subjetividade. Não é porque
a pessoa alcançou determinada idade que ela não poderá
se apaixonar novamente e vivenciar um grande amor, uma relação
duradoura e significativa. Não necessariamente precisa deixar de
lado os sentimentos em função de uma convenção
social. Aos velhos é permitido amar da mesma forma que os jovens,
porque o amor e a sexualidade fazem parte de toda uma vida. As categorias
etárias não são suficientes para aprisionar o desejo
e a paixão.
Infelizmente na sociedade ocidental moderna prevalece a ideia de que os
jovens são os responsáveis pela reprodução
da espécie e aos velhos é atribuída a espera da morte.
No caso das mulheres a situação é mais chocante,
o corpo feminino é visto como o receptáculo para a concepção
de uma nova vida e depois da menopausa, muitas mulheres acreditam que
a função sexual e a sexualidade devem ser aposentadas e
que não vão conseguir um bom desempenho sexual. Sabemos
que com o avançar da idade nosso corpo sofre modificações,
e desde que não haja a incidência de doenças crônicas
degenerativas, entre outras, nada impede que as pessoas com mais idade
tenham uma vida sexual prazerosa. Amor, sexo e prazer deve estar presente
em todos os relacionamentos, até mesmo nas pessoas de mais idade.
Com relação aos relacionamentos, na velhice a diminuição
do número de parceiros sociais e a redução do contato
social refletem a relativa perda de significado de algumas metas e do
significado das emoções na vida dos idosos. A redução
do contato com os amigos é maior para os homens do que para as
mulheres. Isso porque os interesses são diferentes, as mulheres
estão mais voltadas para o outro, buscam mais contatos sociais
e aumentam suas redes de relações.
O vínculo com irmãos parece fornecer uma proteção
contra a depressão. O contato com filhos e netos é importante
para o bem-estar subjetivo. A interação social é
cada vez mais motivada pela regulação da emoção
e menos motivada pela obtenção de informação.
Relações sociais são fontes de felicidade
e saúde
| RYFF e SINGER (2001) pesquisadores em psicologia
do envelhecimento, afirmam que os relacionamentos sociais são
a maior fonte de felicidade, ajudando no controle do desprazer e na
manutenção da boa saúde. Em estudo sobre emoções
e relações sociais no envelhecimento, procuraram entender
os mecanismos pelos quais as relações contribuem para
o bem-estar emocional e que tipos de interações são
mais satisfatórias. Concluíram que as relações
em que as pessoas estabeleciam uma ligação mais segura
e duradoura e experimentavam afetos positivos estavam mais associadas
com o alto bem-estar afetivo. Já pessoas que tinham ligações
inseguras ou que evitavam contatos demonstraram baixos níveis
de bem-estar emocional. |
Em pesquisa realizada em 2003 na Unicamp, com idosas na qual investiguei
o conteúdo dos discursos de mulheres idosas, foi possível
identificar emissões referentes às experiências afetivas,
consideradas como emissões subjetivas, e emissões relativas
a experiências de vida prática, consideradas emissões
objetivas. As experiências afetivas foram relatadas quando falavam
do tema: “O namoro no tempo de juventude”. Sobre esse tema
as idosas fizeram uma reflexão sobre suas experiências afetivas
vivenciadas não só no tempo de juventude, mas em todo o
curso de vida.
As mulheres idosas valorizavam as experiências do passado, mostrando-se
motivadas para relembrar essas experiências. No segundo tema, sobre
a sua vida prática atual, as idosas relataram experiências
afetivas atuais e falaram sobre o sentido que as atividades práticas
têm em suas vidas. Reproduzir experiências afetivas e ações
vivenciadas no passado e no presente, provavelmente faziam com que elas
se sentissem como fonte de informação, uma forma de se sentirem
valorizadas e de manterem sua imagem social.
As emissões (relatos) positivas subjetivas foram principalmente
relativas aos valores que as idosas davam aos relacionamentos, às
amizades e à vida familiar. Elas demonstraram satisfação
em lembrar-se de suas experiências afetivas do tempo de juventude.
As que não tiveram namorado falaram de experiências de outras
pessoas, explicaram as razões do não-namoro e do não
casamento e, igualmente, avaliaram essas condições. Seus
discursos foram mais curtos.
Para as mulheres que foram casadas ou que tiveram relacionamentos estáveis,
as emissões negativas objetivas ao primeiro tema foram associadas
a experiências negativas vivenciados com o companheiro. As solteiras
relataram experiências ruins que alguém da família
havia vivenciado, demonstrando revolta pelo sofrimento e medo de se envolver
afetivamente com alguém.
Quanto às emissões negativas subjetivas foram principalmente
relativas a lembranças tristes e desagradáveis com relação
à família, e que impediram as idosas de dar continuidade
aos seus relacionamentos afetivos. As idosas solteiras foram as que mais
revelaram sofrimentos relacionados com desilusão amorosa e problemas
que experenciaram com os pais e com o namorado. As viúvas revelaram
tristeza sobre a vida afetiva atual, relatando saudades do companheiro
e falta de um outro relacionamento estável e com significado.
Ao tratar das relações na velhice, sabemos que ainda existem
estudos exaustivos a respeito, porquanto, o sujeito é novo e vasto
e os conhecimentos a respeito estão em constante aprofundamento.
O envelhecimento pode ser visto hoje como uma trajetória de conquistas,
uma vez que muitos esforços têm-se despendido para se alcançar
a longevidade e velhice bem-sucedida. As mulheres compõem a parcela
maior dessa população envelhecida, apesar de estarem mais
vulneráveis às doenças, à violência,
à depressão, à perda de papéis sociais, à
discriminação, situações que as expõem
a fatores de risco e estresse.
A mulher no processo de envelhecimento, além de vivenciar mudanças
na área da sexualidade, menopausa, climatério, entre outras
mudanças orgânicas, vive simultaneamente mudanças
psicossocioculturais, que irão exigir maior adaptação
por parte da mulher. Assim nem todo envolvimento estará ligado
ao funcionamento do corpo e sim aos aspectos subjetivos, afetivos e significativos.
Uma senhora me disse certa vez em forma de poesia, que o amor que sentia
pelo novo namorado que conhecera após a viuvez, era um amor
silencioso e transparente, é grito sem voz, é amor entorpecente,
é amor irresponsável e sem virtude é emoção
de juventude.
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