| Neste 1º de outubro comemora-se
o Dia Internacional do Idoso, presto aqui, através deste
texto, minha homenagem a eles. Vamos lá...
No que diz respeito à diversidade do processo de envelhecimento,
a questão de gênero é um conceito importante que transita
na literatura gerontológica, uma vez que a feminização
da velhice que significa o aumento do número de mulheres na população
idosa é um fenômeno que merece atenção dos
estudiosos.
A maioria da população de idosos é constituída
por mulheres com 65 anos ou mais. De acordo com os dados do IBGE (2000),
55% dos idosos brasileiros são mulheres, sendo que os grupos mais
idosos, com 80 anos ou mais, esse perecentual aumenta para 65%, sendo
maior nos países desenvolvidos, o que dificulta estudos comparativos.
| Feminização da velhice - A
feminização da vellhice é vista como um problema
médico-social, porque estudos epidemiológicos mostram
que a maior longevidade das mulheres idosas significa mais risco do
que vantagem, uma vez que ela é física e socialmente
mais frágil do que os homens. As mulheres idosas em particular
são objeto de um discurso ambíguo das instituições
sociais. |
Os idosos brasileiros, principalmente as mulheres, são um segmento
populacional cada vez mais visível da sociedade, não só
porque são mais numerosas, mas porque têm se envolvido na
conquista de espaço na sociedade e porque estão criando
novas demandas para as instituições e os agentes sociais.
Homens e mulheres não envelhecem da mesma maneira, em vários
sentidos. E a acentuação das diferenças em papéis
de gênero dá origem a estereótipos de masculinidade
e feminilidade.
Envelhecimento feminino é multifacetado
O processo de envelhecimento feminino é uma experiência multifacetada.
Não só por que fatores demográficos e de saúde
e funcionalidade física fazem a diferença no processo de
envelhecimento de homens e mulheres, mas também o modo sobre como
mulheres enfrentam o processo de envelhecimento e a velhice. Fatores tais
como os de personalidade, os papéis desempenhados pelas mulheres
no trabalho, no lar, a identidade sexual, a maturidade feminina, as histórias
de vida que configuram um momento sócio-histórico, a caracterização
das mulheres como cuidadoras, a ascensão no mercado de trabalho,
as representações do corpo e as pressões da propaganda
no que diz respeito à estética do envelhecer e a busca da
juventude.
Enfim, são diversos fatores que contribuem para o envelhecer
na condição de mulher. Assim como merecem atenção
todos aqueles que estão envelhecendo, o processo de feminização
da velhice também merece compreensão das necessidades das
mulheres idosas para uma melhor contextualização desse processo.
Entre as mulheres idosas existe uma tendência ao empobrecimento
e à dependência da econômica, em decorrência
de valores tradicionais que condicionavam a mulher a ficar em casa, a
cuidar da família, obedecer a autoridade do pai, pelo fato de terem
sido discriminadas, e a falta de oportunidade de estudos no passado.
No âmbito da economia, a mulher vem ocupando um espaço significativo,
com firme ascensão no mercado de trabalho, mas ainda continua empreendendo
dupla jornada de trabalho, com menor remuneração, fato que
se refletirá no futuro, quando terá uma renda per capita
menor.
Por outro lado, as mulheres têm melhores condições
relativas de viver envolvidas e produtivas na vida social e familiar,
pelo fato de terem a possibilidade de estabelecer fortes laços
familiares, de amizade e uma produtividade doméstica, circunstâncias
geralmente inacessíveis aos homens idosos. As mulheres idosas mesmo
de classe baixa e média tendem a freqüentar espaços
específicos criados para atender essa demanda como, por exemplo,
Faculdades Abertas à Terceira Idade, oficinas de memória,
bailes, grêmios recreativos, sindicatos de aposentados. Elas tendem
a afirmar-se pela atividade, participação, independência
e autonomia para gerir suas vidas.
Pesquisa
Uma pesquisa realizada por Mattos (1990) em sua dissertação
de mestrado “Identidade Feminina na Velhice”, um pesquisador
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele descreve o entusiasmo
das mulheres que freqüentam grupos de convivência em Porto
Alegre e a maneira encontrada por elas para construir uma identidade feminina.
Um dos relatos da pesquisa de Mattos é de uma senhora que dizia:
“Isso aqui é que é vida”, caracterizando seus
sentimentos em relação à experiência no grupo
de convivência. A realidade é que quando idosos chegam aos
centros, clubes, grupos de convivência, suas queixas são
constantes em relação aos familiares e à sociedade
discriminativa.
Sexualidade e maturidade
Um outro aspecto enfrentado pelas mulheres idosas são as representações
acerca da sexualidade e da maturidade feminina. Nas sociedades contemporâneas
e ocidentais, o climatério, período de transição
entre a vida reprodutiva da mulher e a senescência, que se estende
dos 35 aos 65 anos de idade, vem sendo utilizado quase como parâmetro
para demarcar a maturidade feminina, indicando domínio que o discurso
médico-farmacêutico exerce sobre a vida cotidiana.
Um discurso que contribui para a afirmar que o climatério e a menopausa
têm papel importante enquanto indicadores de transição
entre a vida adulta e a velhice. Um discurso científico atrelado
às questões da anatomia e fisiologia, a ênfase no
corpo biológico, como se a história feminina fosse marcada
pela biologia. Essa transição tanto pode ser da maturidade
para a velhice, como também uma passagem silenciosa, ou um bom
motivo para dar início a um combate cultural.
É certo que com o passar dos anos o corpo sofre modificações
naturais. Na nossa cultura o corpo da mulher é tratado como receptáculo,
um lugar sagrado para a concepção de uma nova vida e como
depois da menopausa inviabiliza a concepção, muitas mulheres
podem se sentir a sexualidade como algo que deveria ser aposentado. Os
anos também modificam os desejos e a capacidade para ter relações
sexuais, mas nada impede que pessoas com mais idade possam vivenciar sua
sexualidade com prazer e qualidade de forma saudável.
Menopausa e pós-menopausa
Um assunto de relevância também sobre a menopausa são
os sintomas que logo se fazem presentes em muitas mulheres. Entre os sintomas
na pós-menopausa que preocupa as mulheres são as alterações
da pele e o até aumento de peso corporal que determinam um grande
impacto na auto-imagem e na auto-estima. Aí chegamos em outro assunto
polêmico, que é a preocupação com os valores
associados à velhice, à imagem da mulher que envelhece,
o culto ao belo e à supervalorização da juventude,
onde o padrão juvenil de beleza é altamente valorizado e
imposto pela mídia, como se as mulheres que estão envelhecendo
fossem obrigadas a salvar o corpo idoso da rejeição social.
Com relação à saúde e funcionalidade física
das mulheres um dado que é quase universal é que as mulheres
vivem mais do que os homens devido às doenças que acometem
uns e outros. A taxa de doenças letais é muito maior entre
os homens idosos do que entre as mulheres idosas, entre as quais predominam
as doenças não fatais, mas incapacitantes e crônicas,
como artrite e hipertensão.
As mulheres idosas têm taxas mais altas
de morbidade (capacidade produzir doenças), mas exibem taxas de
mortalidade mais baixa do que os homens para as mesmas doenças.
As mulheres idosas têm 2,5 vezes mais chances de fragilidade e disfuncionalidade
do que os homens. Elas consomem mais medicamentos, mostram níveis
mais elevados de incapacidade do que os homens, mas a percepção
da saúde física é igual para homens e mulheres, ou
seja como a pessoa avalia sua condição de saúde.
Mulher na terceira idade e família
Um outro fator que é impactante na condição da vida
da mulher que envelhece é a atividade de cuidado prestado à
família, aos filhos, netos, etc. Em virtude de normas sociais,
o papel de cuidar é especificamente feminino. Quando jovens, as
mulheres cuidam dos filhos. Na meia-idade e na velhice cabe-lhes cuidar
dos maridos quando adoentados, dos pais, sogros quando fragilizados e
dos filhos e netos. O fato das mulheres serem mais envolvidas e mais longevas,
de serem uma fonte de apoio, lhes cabe o papel de cuidadora causando ônus
e benefícios.
Resumindo a idade é um fator de risco para várias condições
na velhice, mas gênero é muito importante, uma vez que homens
e mulheres mostram diferentes domínios no funcionamento no curso
de vida. As mulheres continuam mais expressivas e envolvidas do que os
homens, por causa de fatores sociais e aprendizagem social.
Não podemos deixar de lembrar que o processo de envelhecimento
é heterogêneo, nem todas as pessoas, homens e mulheres envelhecem
da mesma forma. Para algumas mulheres envelhecer é como navegar
em rio plácido que desemboca em águas tranqüilas. Outras
mulheres, contudo enfrentam correntezas e maremotos que as levam em caminhos
às vezes desconhecidos que podem levar ao não reconhecimento
da própria imagem no espelho como ilustra no verso do poema de
Cecília Meireles. “Eu não dei por essa mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil: em que
espelho ficou perdida a minha face?”.
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