| Recomendações
para uma boa comunicação com o idoso - clique aqui
'Conversa de velho' e preconceito
"Se alguém lhe perguntasse o que entende pela expressão
“conversa de velhos”, certamente você faria observações
do tipo: é uma conversa comprida, sem fim, arrastada, pausada,
cheia de histórias, lembranças do passado e por aí
afora. Se por um lado isso conteria algumas verdades, por outro, revelaria
uma atitude preconceituosa e estigmatizadora. Comprovação
clara de que a linguagem é mais do que simples instrumento
de comunicação; é também um componente
decisivo na formação de preconceitos sociais" |
Ao nascer, já somos mergulhados num mundo social, numa linguagem.
Ganhamos um nome, um registro, uma língua que nos constitui. Com
a linguagem temos a noção de pertencimento, é ela
que nos possibilita participar ativamente da sociedade. Através
da linguagem aprendemos comportamentos, regras de convívio, expectativas,
adequações de comportamentos, competências, opiniões
e valores.
O homem controla o mundo com a linguagem, o fato de lidar com signos linguísticos,
o que nos diferencia de outras espécies, porque somos seres simbólicos.
É com a linguagem que construímos a nossa identidade, o
conhecimento a cerca de si mesmo e dos outros, ela permite não
só estabelecer os contatos sociais, mas também selecionar
aqueles que são significativos e garantir as experiências
emocionais positivas.
A possibilidade de se estabelecer relacionamentos produtivos, manter e
negociar a identidade social e, em última instância, determinar
rumos da própria vida está intimamente relacionada à
habilidade de se comunicar.
Essa capacidade tem merecido crescente atenção de pesquisadores
e estudiosos de qualidade de vida das pessoas idosas. De fato, competências
individual e social estão intimamente relacionadas às competências
cognitiva (capacidade de adquirir conhecimento) e comunicativa. Quando
duas pessoas se encontram e começam a conversar, entra em jogo
muito mais do que o simples conhecimento da língua que utilizam
para se comunicar: uma série de informações sobre
o interlocutor e seu mundo é acionada.
Além disso, a percepção a respeito da situação
em que se dá o encontro e as regras culturais que regem essa interação,
interferem determinando a distância a ser mantida, o tratamento
a ser dispensado, o conteúdo e a forma conveniente de transmiti-lo.
Ao se separarem, essas pessoas já não são as mesmas:
novas informações foram obtidas e podem desencadear mudanças
nas informações prévias: a respeito do mundo, a respeito
de si próprias e de seu parceiro e da própria linguagem.
Idade interfere na comunicação
Um dos fatores que dimensionam o encontro descrito é a idade. Porém,
independente de sua idade, o ser humano é um ser social, por isso
a comunicação e o relacionamento são aspectos primordiais
na vida das pessoas. Não existe ser humano sem comunicação.
Alguns aspectos também determinam a maneira como se dá a
interação: características de personalidade, classe
social, etnia, valores, identificação, etc... Entre eles,
a idade é um dos que mais interferem na maneira como os interlocutores
se posicionam porque o comportamento social é regulado por normas,
muitas delas atreladas aos diversos papéis sociais desempenhados
ao longo da vida.
O processo de comunicação garante a ligação
de mundos dos dois interlocutores na medida em que surgem as motivações
e possibilidades de intercâmbio e informações para
serem compartilhadas. A interação comunicativa pode ter
como foco a troca de informações, de conhecimentos, de compartilharem
experiências com a finalidade de se informar, para determinação
de tomada de posição em relação a um determinado
aspecto, uma opinião ou conselho que a pessoa transmite ao outro
e o simples prazer interativo, tal como o bate-papo informal numa atividade
de lazer.
Com o processo de envelhecimento ocorrem mudanças significativas
que refletem em vantagem e também desvantagem para o indivíduo
idoso em relação às solicitações do
mundo, o que vale também para as solicitações comunicativas.
Mas que alterações a idade provoca
na interação verbal?
Quais as mudanças relativas ao envelhecimento
que interferem na comunicação?
O que, do ponto de vista da interação, faz
com que admitamos estar interagindo com um indivíduo idoso? É
com essas mudanças, que caracterizam os idosos, do ponto de vista
da linguagem e seus pré-requisitos. Do ponto de vista de fonoaudiólogos,
sociólogos, psicólogos, antropólogos e estudiosos
da *etnografia da comunicação reconhecem-se no processo
de envelhecimento mudanças nos diversos níveis de organização
do ato comunicativo: no nível referente à estruturação
conceitual do ato de fala pretendido, no de produção e no
de compreensão da linguagem.
Nas itenções comunicativas, no conteúdo semântico,
nas narrativas pessoais. Portanto, dada a multiplicidade de fatores envolvidos
nesse domínio, o olhar do estudioso da comunicação
está voltado para os seguintes aspectos:
Heterogeneidade dos sinais de envelhecimento da comunicação
As mudanças manifestam-se de forma bastante heterogênea na
população de indivíduos idosos. Alguns indivíduos
apresentam maiores modificações na fonação
outros na audição, enquanto outros evidenciam dificuldades
no uso social da linguagem, na fluência, no vocabulário,
na **prosódia, marcas de várias naturezas. Por isso, as
mudanças que ocorrem no processo de comunicação com
o envelhecimento não são uniformes para todas as pessoas
que envelhecem.
Existem algumas tendências características na comunicação
de pessoas idosas que não foge à sensibilidade, às
sutilezas e variações das pessoas de outras faixas etárias.
É muito comum ouvir falar que o idoso é egocêntrico,
só fala do passado, é confuso, tem dificuldade para entender
o que lhe é dito, é esquecido, é surdo, repete inúmeras
vezes o mesmo assunto. Se alguém lhe perguntasse o que entende
pela expressão “conversa de velhos”, certamente você
faria observações do tipo: é uma conversa comprida,
sem fim, arrastada, pausada, cheia de histórias, lembranças
do passado e por aí afora. Se por um lado isso conteria algumas
verdades, por outro, revelaria uma atitude preconceituosa e estigmatizadora.
Comprovação clara de que a linguagem é mais do que
simples instrumento de comunicação; é também
um componente decisivo na formação de preconceitos sociais.
Formas de interpretar a comunicação na velhice,
levando em conta a multiplicidade de fatores
Duas visões distintas interpretam o envelhecimento da comunicação.
Grosso modo, poderiam ser assim resumidas: a que admite os fatores orgânicos
do envelhecimento como determinantes das relações que a
sociedade estabelece com o interlocutor idoso e a que nega o envelhecimento,
admitindo que a sociedade é acima de tudo preconceituosa em relação
ao envelhecimento, em virtude da adoção de valores da cultura
do jovem.
A primeira delas considera que as alterações provocadas
no plano biológico, cognitivo e afetivo do indivíduo justificam
a maneira como a sociedade os avalia. Para eles, o idoso que se põe
a narrar um fato organizando os dados sem levar em conta o que o interlocutor
já sabe sobre ele, pode estar infringindo o princípio de
cooperação da quantidade de informação que
deve ser transmitida durante a interação. Esse princípio
da interação comunicativa preconiza que, quando dizemos
algo, devemos levar em conta sua relevância para o interlocutor
e para a sua situação. A desconsideração dessa
indicação pode significar decréscimo de habilidade
comunicativa.
Isso quando não somos flagrados trocando palavras de forma inesperada,
ou que a pessoa é lenta demais ou rápida demais, ou que
interpretamos de forma equivocada o que nos dizem, etc.. Todas as situações
de interações estão longe de serem desviantes ou
patológicas e fazem parte do funcionamento normal da linguagem
e das condutas humanas.
Comunicar-se é realmente uma aventura existencial. É importante
saber que não existe um falante ideal e que a comunicação
humana é mesmo cheia de percalços e surpresas. O que esperamos
que a pessoa seja capaz de compreender o que diz o outro, ao mesmo tempo
que se faz compreender pelo outro. Toda família possui uma forma
de comunicar-se através de gestos, olhares, atitudes, expressões
faciais que representam os mais variados sentimentos.
No caso da pessoa idosa, quanto maior o nível de dependência,
menor é a sua capacidade de dizer suas necessidades. Em determinados
momentos os sentidos da pessoa idosa tornam-se ainda mais deficientes
em consequência de aparelho auditivo funcionando mal, próteses
dentárias mal ajustadas, óculos inadequados, entre outros.
É evidente que nesses momentos a atenção deverá
ser muito maior para melhor compreender seus desejos. Essa compreensão
ajudará o cuidador a melhorar o seu relacionamento com o idoso.
A comunicação não é só verbal, ou seja,
a comunicação é feita não somente através
de palavras, sejam elas faladas ou escritas. Muitas vezes a comunicação
não verbal pode ser mais significativa e confiável para
conhecermos os desejos dos idosos como, por exemplo, o olhar e o toque.
Por outro lado, existem algumas situações que podem prejudicar
a comunicação e que devem ser evitadas ou para as quais
devem-se buscar soluções para diminuir o seu efeito. É
o que ocorre, por exemplo, quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo,
em um ambiente com muito ruído de qualquer origem ou ainda, o fato
de ser fazer exigências quando as pessoas estão muito cansadas
física ou mentalmente.
Recomendações para uma boa comunicação
com o idoso
- Utilizar sempre frases simples, claras e afirmativas;
- Conhecer o vocabulário utilizado pelo idoso;
- Evitar fazer discursos ou ficar falando sozinho durante muito tempo;
- Falar sem gritar, de maneira pausada e calma, sem ser muito lento;
- Ouvir o idoso com paciência, respeitando seu ritmo de resposta;
- Falar de frente de forma que o idoso possa ler seus lábios;
- Evitar comunicar-se em ambientes barulhentos;
- Respeitar o idoso com suas características pessoais;
- Valorizar a experiência do idoso;
- Ser amável, paciente e atencioso;
- Permitir que o idoso participe do diálogo e das decisões
tomadas em casa;
- Evitar expressões do tipo “deve”, “não
deve”, porque reflete um relacionamento autoritário;
- Evitar expressões “vô”, “ vó”,
“vozinha” etc...., que depersonalizam e inferiorizam o idoso,
procurando chamá-lo pelo nome;
- Não infantilizar o idoso;
- Ser criativo para fazer o necessário nas condições
possíveis. Ou seja, ter alternativas de comunicação
como utilizar figuras, gestos, palavras familiares para que ocorra a comunicação
mais efetiva.
- Ter clareza e sinceridade com atitudes essenciais no relacionamento
com o idoso e sua família.
*Etnografia: Estudo descritivo das diversas etnias, de suas características
antropológicas, sociais, etc.
**Prosódia: Parte da gramática tradicional que se dedica
às características da emissão dos sons da fala, como
o acento e a entoação [Ger. está relacionada com
os estudos de metrificação.
Artigos relacionados
- clique no título
>>> Forma
de viver influencia desempenho de memória ao longo da vida
>>> Por
que envelhecer para o homem e a mulher é tão diferente
>>> Entenda
a doença de Alzheimer
>>> Como
deve ser o ambiente favorável ao idoso
|