| “um naufrágo,
num mar proceloso, se aferrará à sua tábua de salvação
na proporção direta do tamanho das ondas que o ameaçam”
(Pelegrino 1989)
Vendo as notícias sobre a catástrofe em Santa Catarina,
imaginamos o quanto as pessoas ficam vulneráveis com o desamparo
causado pelo evento estressante. Ao longo da vida, cada vez que o ser
humano se depara com uma situação de perigo, lhe sobrevém
o desamparo, demandando um pedido de ajuda.
| Resiliência - "Capacidade
de recuperação e manutenção de comportamentos
adaptativos que podem seguidamente retirar o evento estressante" |
Desde o nascimento sofremos o desamparo traduzido
na expressão das perdas sucessivas que acompanham a existência
de cada sujeito. A experiência do desamparo surge desde o nascimento
com a incapacidade psicomotora do recém-nascido e a necessidade
do outro para se alimentar. |
Segundo Freud (1980), em seu texto Inibições, sintomas
e ansiedade, ele fala que o ser humano chega ao mundo com a necessidade
radical de ser cuidado.
A condição biológica do ser humano é uma
das condições de vulnerabilidade que primeiro se vivencia.
Evidencia a dependência extrema do outro para a própria sobrevivência,
perante não só os perigos reais da vida, como também
perante à própria vida psíquica. Desta forma, esse
estado de desamparo torna-se fundamental na estruturação
do psiquismo. Ou seja, o ser humano só sobrevive porque o outro
o deseja, cuida, ama e ajuda.
A humanidade assegura a preservação da espécie e
da vida do grupo pela ação do cuidado. Nesse sentido, ainda
citando Freud (1980), a civilização é resultado da
reunião dos seres humanos não só no sentido de irem
adiante com aquisições novas, mas, basicamente, para se
defenderem dos perigos das forças da natureza. Aí se revela
o desamparo da humanidade, revivido por todos os seres humanos desde o
nascimento. A experiência do desamparo se faz presente na vida cotidiana,
tanto nas situações de perigo que o ser humano enfrenta
diante das forças da natureza e de qualquer outra ordem.
O envelhecimento ao se traduzir no contexto social como negatividade,
agrava o que é sentido como perda e assim fragiliza os recursos
internos do indivíduo idoso, construídos ao longo de toda
a vida. No caso de vivências de eventos estressantes espaço-temporalmente
situados, tais como perdas, marcos histórico vivenciados por revoluções,
catástrofes, atentados, etc... o caso é mais comprometedor
ainda, podendo desenhar-se um cenário de estado extremo de desamparo.
No caso específico das pessoas que vivenciaram as perdas de seus
lares, pertences, parentes e amigos são perdas que acarretam sofrimento
e a exigência de um trabalho de luto. Esse sentimento das perdas
pode chegar a transformar-se em fantasias jamais decifráveis, elevando
a tensão das pessoas, principalmente das pessoas mais velhas, idosoas
diante dos limites ameaçadores que se impõem. Desse modo,
o idoso doente pode chegar a um lugar subjetivo onde não mais consiga
dominar as tensões e, então, nelas se encontrar submerso.
Resiliência
Carregamos a marca da busca, na ilusão de que somos capazes de
dominar-se e dominar os perigos, construindo tentativas de proteção.
Frustrando-se, porém, surpreende-se, a cada vez, em que se encontra
em estado de desamparo, que nessas circunstâncias, prescreve uma
ação do sujeito, no sentido de redirecionar-se para a invenção
de novas formas de existir, novos destinos que lhe possibilitam viver.
Para isso precisamos de resiliência psicológica, a capacidade
de recuperação e manutenção de comportamentos
adaptativos que podem seguidamente retirar o evento estressante.
A resiliência é uma espécie de recurso protetor que
o ser humano possui para manter e recuperar o nível de adaptação
normal, isto é, uma plasticidade comportamental que nos permite
responder aos diferentes eventos da vida. É a nossa capacidade
de resiliência que garante o equilíbrio entre ganhos e perdas
ao longo da vida.
Resiliência é o papel positivo de diferenças individuais
das pessoas a responder ao estresse e adversidades. O conceito de resiliência
psicológica reside em dois tipos de fenômenos:
1º) A manutenção normal do desenvolvimento
apesar dos riscos e prejuízos
2º) A recuperação do funcionamento
normal depois de uma experiência traumática. Um modo de expressar
a resiliência é a capacidade que o indivíduo possui
de utilizar estratégias de “coping”, isto é,
estratégias de enfrentamento. Diferentes estratégias estão
relacionadas às diferenças de idade.
Pessoas idosas e com vasta experiência de vida tentam distanciar
de si mesmo e avaliar novamente a situação positivamente,
além de procurar por suporte social. A capacidade de resiliência
tem a função de ajudar o ser humano a reformar seus comportamentos,
a renovar as atitudes diante das adversidades, a compreender os recursos
disponíveis, a buscar suporte, buscando vencer cada desafio e aprender
com cada lição. Refere-se às respostas que damos
aos embates da vida, à adversidade, a algum trauma, na presença
de ameaças ou riscos. Digamos que é o que chamamos de nossa
força interna, nossa capacidade de resistir aos entraves do curso
de vida. É ela que dá força para o indivíduo
manter e preservar a estrutura básica de sua vida e dar continuidade.
O sentido de continuidade mesmo diante da vulnerabilidade, é importante
para prever um sentido de competência, domínio, integridade,
de sensação que a vida é significativa, de sensação
de auto-estima. Sentidos que proporcionam suporte social, a compensação
dos declínios e o enfrentamento das dificuldades de mudança.
A resiliência psicológica diante das adversidades, das situações
de desamparo e eventos estressantes é muito importante para que
o indivíduo invista emocionalmente em si mesmo, nas suas recuperações,
adaptações e reconstruções.
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