| No artigo anterior
(clique aqui), o primeiro de uma série
de três sobre as metas reais e irreais no esporte, expliquei por
que talento e potencial psicofísico não bastam para consagrar-se
no esporte. Neste mostrarei como avaliar a dimensão de destaque
(local, regional, nacional, internacional) que um garoto talentoso poderá
atingir.
| "É preciso então,
além das condições de infra-estrutura básica
para a prática do esporte, reconhecer a realidade, definir
uma trilha coerente com o objetivo a seguir e focar esforços
e objetivos preliminares (curto e médio prazos) para que deixemos
que as coisas aconteçam em um curso natural" |
Certa vez, estava em um ginásio
de uma cidade do interior ao lado de pais dos atletas locais de voleibol.
Durante a entrada na quadra todos eles (os atletas) por volta dos
16 anos, chamavam a atenção pela alta estatura, eram
considerados verdadeiros gigantes. No entanto, quando a equipe da
capital entrou em quadra, aqueles gigantes voltaram a ser considerados
pessoas “normais”. |
Quando um (a) garoto (a) começa a ter bons resultados esportivos,
não é aconselhável fazer previsões ou planos
concretos em longo prazo e ter expectativas exageradas. Basta uma lesão
grave em um treino, uma experiência marcante qualquer (frustrações
em seqüência, uma namorada (o) que não gosta de esporte,
um despertar para uma outra atividade e sem falar nos fenômenos
negativos do estresse no treinamento, como o overtraining e o
burnout, que podem ocorrer por um motivo ou outro), para mudar
todo o curso daquilo que foi pretensamente planejado, ou simplesmente
nada daquilo que foi esperado acontecer.
Não é só no esporte que os possíveis talentos
podem se destacar desde cedo; na música, artes plásticas,
literatura e outros. No entanto, é oportuno admitir a dimensão
do destaque desse talento (se é local, regional, nacional ou internacional)
e também levar em conta que este (a) jovem promissor (a) possivelmente
não está só, há de existirem muitos outros
jovens brilhantes espalhados por esse mundo afora.
Em uma ocasião, estava reunido com um pai de um tenista de 14 anos
de idade e muito promissor. Era minha primeira conversa com o pai do garoto
que naquele instante não estava presente por motivos óbvios.
As características psicofísicas e os resultados regionais
enchiam os olhos de muita gente, a ponto de, preverem que ele seria o
novo fenômeno do tênis nacional em um futuro não muito
distante. Dessa forma, o objetivo era alcançar o profissionalismo
em nível internacional.
Foi aí então que, sinceramente, despertei o pai do garoto
para a realidade. Perguntei a ele quantos garotos na idade do filho, disputavam
com ele o ranking nacional. Ele afirmou que ele era o décimo do
Brasil em sua faixa etária, mas era o mais novo de todos. A partir
daí, pedi que fizesse, embora em uma previsão grosseira,
quantos garotos poderiam existir em mesmas ou melhores condições
na Argentina, Chile, Estados Unidos, Espanha, França, Alemanha,
Europa Oriental, Rússia e Austrália, só para sintetizarmos
o número de países de destaque no tênis mundial. Quando
chegamos por volta de 700 atletas, paramos a contagem. Foi aí que
o pai “caiu” na real e percebeu o quão distantes estávamos
de tal meta.
É claro que podemos conhecer um (a) jovem com potencial atlético
internacional e acreditar que o sonho de se tornar uma referência
esportiva é possível, a questão é que quando
acreditamos por nós mesmos, sem fazermos as devidas avaliações
da realidade, comparar rendimentos esportivos com outros atletas e, portanto,
não sabemos ao certo qual caminho a trilhar e só enxergamos
o objetivo sonhado acabamos simplesmente sonhando acordados.
É preciso então, além das condições
de infra-estrutura básica para a prática do esporte, reconhecer
a realidade, definir uma trilha coerente com o objetivo a seguir e focar
esforços e objetivos preliminares (curto e médio prazos)
para que deixemos que as coisas aconteçam em um curso natural.
Chamo de curso natural as vivências da rotina de treinamentos, competições
e a formação de uma mente disciplinada e motivada para as
exigências do esporte conforme o passar dos anos. Assim, saberemos
se talento e índole atléticos pertencem concretamente à
vida do (a) adolescente.
Treinar com satisfação, intensamente, viver cada dia e superar
cada desafio com alegria e persistência, esses são alguns
dos fatores que levam os (as) atletas vislumbrarem alguma chance internacional.
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