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Doutor, minha tia iniciou uso de morfina devido a um trauma que sofreu
na perna há 5 anos. No entanto, após a cirurgia e fisioterapia,
ela não consegue ficar sem a droga e me parece que ela pede a medicação
mais para se tranquilizar do que para diminuir a dor. Como lidar com a
situação ? Os médicos estão desconfiados de
que ela esteja manipulando para obter mais a droga e a situação
dentro de casa está ficando insustentável.
| "A síndrome de dependência
de opioides aparece em apenas cerca de 3 a 16% dos pacientes com dor
crônica em tratamento com agentes opioides. Percentagens exatas
são difíceis de determinar, já que muitos estudos
que avaliam a prevalência da síndrome de dependência
entre esses pacientes costumam apresentar problemas metodológicos,
como heterogeneidade na definição de "dependência",
amostras heterogêneas e pequenas" |
Resposta: Certamente,
situações como esta são absolutamente preocupantes.
Para responder a esta importante pergunta, terei que discorrer um
pouco sobre o processo diagnóstico dos quadros dolorosos crônicos
e a interface com o uso de medicações do tipo opioides,
como a morfina. |
O uso de opioides
Nos casos de dor moderada ou severa, o uso de medicações
opioides, como a morfina, frequentemente é aventado, como monoterapia
ou combinado com outros medicamentos ou formas de tratamento. Contudo,
pacientes encontram barreiras nessa forma de abordagem, especialmente
quando os opioides são indicados.
Essas barreiras incluem:
a) Inadequada formação médica em relação
ao uso e problemas relacionados aos opioides;
b) Dificuldades dos profissionais de saúde em estabelecer
a diferença entre dependência fisiológica, síndrome
de dependência e pseudodependência;
c) Medo de que os pacientes se tornem dependentes ou "viciados";
d) Preconceito em relação às medicações
opioides.
Dependência ou não?
Existe a possibilidade de pacientes com quadros dolorosos crônicos
desenvolverem quadros de síndrome de dependência às
medicações opioides. Entretanto, é necessária
uma criteriosa avaliação por especialistas sobre essa possibilidade.
Conhecer as definições de pseudodependência, síndrome
de dependência e dependência fisiológica é importante
ferramenta cognitiva para o médico evitar erros diagnósticos
e preconceitos diante dos pacientes em uso dessas medicações.
Dependência fisiológica: consiste em um estado de
adaptação cerebral manifestado por evidência de tolerância
(necessidade de doses cada vez maiores para obter os mesmos efeitos anteriores,
ou perda progressiva dos efeitos desejados em paciente recebendo a mesma
dose durante o tempo) e/ou estado ou síndrome de abstinência
(sintomas físicos e/ou psicológicos advindos da parada ou
redução abrupta da medicação, manifestados
por aumento da frequência cardíaca, aumento da pressão
arterial, sudorese, inquietação, bocejos, midríase
(dilatação da pupila), recrudescimento da dor, cãibras,
piloereção).
Dependência fisiológica é um fenômeno neurofarmacológico,
como resultado da neuroadaptação. É esperado que
a maioria dos pacientes usuários crônicos destes agentes
apresente essa forma de dependência.
Pseudodependência: consiste no tratamento da dor com doses
inadequadamente baixas de opioides, o que leva o paciente a queixar-se
de dor frequentemente, apesar do uso das medicações. Aqui,
o médico deve reavaliar criteriosamente a doença e estabelecer
uma correlação entre o processo fisiopatológico e
o sintoma da dor.
Síndrome de dependência: é caracterizado por
sinais e sintomas associados a um uso patológico de opioides. É
uma doença crônica, com raízes neurobiológicas,
comportamentais e psicossociais, com o envolvimento de fatores ambientais.
É caracterizada por um comportamento que pode incluir: perda de
controle sobre o consumo da droga, uso compulsivo, uso continuado apesar
das consequências nocivas e fissura ou "craving".
Síndrome de dependência e grupos de pacientes
Desta forma, quando estamos diante de um paciente com dor crônica,
sendo tratado com opioides prescritos, podemos verificar três grupos
de pacientes, classificados de acordo com a presença ou ausência
da síndrome de dependência:
a) Paciente com dor crônica, em tratamento com opioides
prescritos, SEM uso patológico;
b) Paciente com dor crônica, em tratamento com opioides
prescritos, mas COM uso patológico;
c) Paciente com dor crônica, sem tratamento médico,
mas utilizando opioides por conta própria.
O primeiro grupo de pacientes constitui a grande maioria daqueles encontrados
em clínicas de dor. Os grupos "b" e "c" causam
preocupação, devido ao uso inadequado das medicações
prescritas.
A partir destes conceitos, é necessário que o profissional
da saúde diferencie o paciente com dor crônica em tratamento
com opióides que está apresentando síndrome de dependência
daquele paciente com dor crônica em tratamento com opioides sem
síndrome de dependência.
Para isso, o quadro abaixo pode
| Sem síndrome de dependência |
Com síndrome de dependência |
| 1. Paciente tem controle sobre o uso
da medicação. |
1. Paciente perde o controle diante do consumo da
medicação. |
| 2. O consumo das medicações
melhora a qualidade de vida do paciente. |
2. O consumo da medicação piora a qualidade
de vida do paciente. Ele começa a apresentar prejuízos
sociais, familiares e laborais. |
| 3. Paciente relata efeitos colaterais
ao médico. Fala ao médico que o opioide lhe causa tontura,
visão borrada, etc. |
3. Nega efeitos colaterais. Pelo contrário,
diz ao médico que necessita de mais dose de opioides para aliviar
sintomas de ansiedade, depressão, tristeza e irritação. |
| 4. Paciente preocupado com seus problemas
médicos e com a possibilidade de tornar-se dependente. |
4. Paciente não se preocupa com os problemas
médicos. |
| 5. Paciente seguirá adequadamente
o planejamento terapêutico. |
5. Paciente não seguirá o plano terapêutico,
utilizando-se de mais opioides do que os prescritos ou de outras medicações. |
| 6. Frequentemente sobram medicações
opióides na casa do paciente. |
6. O paciente costuma "perder" receitas
ou "forjar" receitas para angariar mais comprimidos. |
Existem algumas outras "dicas" que podem ajudar no correto
diagnóstico da síndrome de dependência de opióides
em pacientes submetidos a tratamento crônico com essas medicações:
a) Comportamento de busca de droga (visitas frequentes a serviços
de emergência médica, para obter medicação,
sem o conhecimento do seu médico; obtenção de medicamentos
através de outros recursos, como amigos, familiares, traficantes;
atitudes de "forjar" receitas; mentiras frequentes sobre "perdas"
de receitas);
b) Comportamentos de automedicação (aumento da dose,
sem orientação médica; uso do opioide para aliviar
outros sintomas, como ansiedade, tristeza, angústia);
c) História pessoal e familiar de síndrome de dependência
de substâncias (este item se refere ao aspecto genético das
síndromes de dependência. Apesar de muitos dependentes químicos
em remissão com quadros dolorosos manifestarem preocupação
com a possibilidade de se tornarem dependentes das novas medicações
administradas, outros dependentes químicos podem apresentar consumo
patológico dessas novas medicações prescritas);
d) Evidência de prejuízos sociais, familiares e no
trabalho, associados ao consumo progressivo dos opioides;
e) Administração concomitante de outras drogas, como
álcool, benzodiazepínicos, maconha, etc;
f) Abuso de opióides injetáveis.
Apesar disso, a síndrome de dependência de opioides aparece
em apenas cerca de 3 a 16% dos pacientes com dor crônica em tratamento
com agentes opioides. Percentagens exatas são difíceis de
determinar, já que muitos estudos que avaliam a prevalência
da síndrome de dependência entre esses pacientes costumam
apresentar problemas metodológicos, como heterogeneidade na definição
de "dependência", amostras heterogêneas e pequenas.
É sempre desejável que exista um psiquiatra especializado
em dependências químicas na equipe multiprofissional a qual
presta atendimentos a pacientes com quadros de dor. Nos casos onde há
dúvida sobre uma dependência fisiológica, pseudodependência
ou mesmo de síndrome de dependência, o psiquiatra especialista
deverá propor adequadas formas de manejo para auxiliar o paciente
na resolução do problema.
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