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Dicas para a saúde mental da mulher

Por Dr. Joel Rennó Jr. - Terapêutica sobre alcoolismo em Mulheres Apaixonadas tem equívocos


Dr. Joel Rennó Jr.

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A personagem Santana vivenciada pela excelente atriz Vera Holtz finalmente procurou ajuda psicoterapêutica, não por conta própria, mas por influência do seu colega de trabalho e namorado (Lobato).

O alcoolismo feminino possui causas afetivas envolvidas. Mulheres de meia-idade, sozinhas, com baixo suporte psicossocial e baixa auto-estima ou sintomas ansiosos, tornam-se mais vulneráveis ao alcoolismo.

Portanto, a abordagem psicoterapêutica inicial deve ser a de um acolhimento afetivo.

Quando um psicoterapeuta atende a uma paciente alcoolista e não alcoólatra (termo hoje em desuso), como infelizmente foi citado pela terapeuta da novela, deve haver uma anamnese completa, envolvendo todos os aspectos de vida da paciente. Nas primeiras sessões de psicoterapia, não deve haver a confrontação direta, com uma postura excessivamente profissional e arrogante, como a demonstrada na telenovela. Geralmente, essas pessoas dependentes químicas têm mecanismos de defesa psicológicos como o da negação. Raramente vão ao profissional motivadas e por conta própria.

O objetivo principal da psicoterapia é que o próprio paciente se veja na condição de doente. Não cabe a um profissional ético e sério, logo na primeira sessão colocar o "dedo na ferida", causando uma forte repulsa e aumentando mais ainda as resistências existentes.

No folhetim, a psicóloga já tinha recebido informações sobre a Santana, por intermédio de seu namorado. Baseando-se nessas informações, começou a fazer juízos de valores, chamando a personagem de "alcoólatra", dizendo a ela que precisava ser internada. Enfim, uma conduta despropositada e lamentável, altamente agressiva para um primeiro contato com uma paciente.

Por falar em conduta, a personagem Santana deveria ter sido encaminhada primeiramente a um médico psiquiatra e logo em seguida a um psicoterapêuta. O suporte afetivo dela é precário. Poucos durante a trama realmente a ajudaram de forma objetiva e producente.

O profissional deve ser empático, avaliando a rede de suporte da pessoa. Deve entender com sensibilidade todos os significados e representações da doença alcoolismo para aquela pessoa em questão. A função da bebida para o alcoolista deve ser o alvo principal da terapia. Condenações do comportamento e conclusões precipitadas, principalmente após informações externas antes da consulta inicial, devem ser evitadas porque o vínculo fica desde o nascedouro deteriorado.

A postura de mestre superior ou "expert" do assunto, esquecendo-se de avaliar todo o conjunto de vida da pessoa, afasta tais pacientes. Isso ficou evidente na fúria demonstrada pela personagem Santana, precipitando mais de uma das suas inúmeras recaídas. Há a fase de pré-contemplação, na qual o paciente não possui motivação e crítica suficientes para ter consciência da necessidade do tratamento.

Sequer admitem a doença. Confrontar aqui é jogar o ser humano para o abismo, como foi feito pela psicóloga da telenovela. Todos os outros potenciais de vida devem ser abordados antes de uma oposição direta de pensamentos e conceitos.

Os recursos técnicos e humanos para tratamento do alcoolismo feminino devem ser específicos, realizados por equipe multidisciplinar, sendo as mulheres separadas por grupos etários. Como nas mulheres sempre há questões afetivas envolvidas, os programas de psicoterapia devem ter suporte de equipe que favoreça a intimidade, o calor e a livre troca afetiva.

A psicoterapia de grupo exclusivamente feminino deve servir de espaço para reflexão, no qual a mulher busque o sentido para as suas vivências. Os focos da psicoterapia devem envolver reconstrução do relacionamento interpessoal, construção da identidade pessoal, questões da maternidade e estratégias para lidar com fontes de estresse.

Em conclusão, o tratamento jamais deve ser enfocado na dependência, mas sim nas questões envolvendo a complexidade de vida das mulheres. Só assim, haverá êxito em internações psiquiátricas quando necessárias e demais trabalhos executados.

Lamento que questões tão importantes e sérias, apesar das boas intenções do autor do folhetim Mulheres Apaixonadas, estejam sendo abordadas sem uma consultoria especializada adequada, havendo falhas lastimáveis. Fico temeroso ao final da telenovela, que as mensagens passadas de forma distorcida aumentem mais ainda os estereótipos existentes na área da saúde mental. A questão social dessa forma fica muito distante.

Clique aqui para falar com o Dr. Joel Rennó Jr.

Dr. Joel Rennó Jr - Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta. Especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Doutor em Medicina (Psiquiatria) pela Faculdade de Medicina da USP. Coordenador Geral do Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher-Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.