| Há três ou quatro décadas
quando a estabilidade no emprego e a lealdade dos funcionários
eram a regra e quando as “reestruturações organizacionais”
não eram tão frequentes, os profissionais se preocupavam
com seu emprego e não ficavam “olhando para o mercado”.
Bem, a regra do jogo mudou, a estabilidade de emprego do berço
à sepultura é página virada, a lealdade inquestionável
dos empregados a seu empregador foi substituída pela necessidade
das novas gerações de serem estimuladas, engajadas, reconhecidas,
desenvolvidas e de terem o equilíbrio de suas vidas pessoal e profissionais
preservado. Sem essas condições de emprego, os talentos
desta geração Y, e mesmo da anterior, ativam sua rede de
relacionamentos no mercado e rapidamente estão fazendo entrevistas.
Desde o advento dos serviços de recolocação ou “outplacement”,
por volta da metade dos anos 90, se confirma repetidamente que a melhor
maneira de se conseguir um novo emprego é a ativação
da rede de relacionamentos formada ao longo da vida – familiares,
amigos pessoais, contemporâneos de escolas e universidades e colegas
de empregos anteriores.
Para a geração que só tinha olhos para seu empregador
e “não perdia seu tempo” com contatos encarados então
como improdutivos, quando necessitaram, a constatação da
desidratação de sua “teia de relacionamentos”
foi duramente sofrida. Hoje empresas e empregados valorizam possuir uma
vasta rede de relacionamentos que possa ser facilmente acessada para benefício
de ambas as partes. Isso foi aumentado exponencialmente com a chegada
das redes sociais que facilitaram ainda mais a manutenção
e expansão do networking. Com seu bom uso, essas redes baseadas
na tecnologia viabilizaram milhões de conexões em tempo
recorde.
No entanto, a tecnologia costuma acelerar os processos – no que
tem de bom e de ruim. Se, no passado, eu queria prejudicar alguém
com um memorando acusador (para informação do pessoal da
Geração Milênio, “memo” era o nome de
uma correspondência interna “pré-e-mail”) que
era copiado para várias pessoas em xerox (ou papel carbono para
os mais antigos), e levava alguns dias até chegar aos destinatários,
hoje, com o simples “enter” no computador eu envio minha bomba
que arremessa estilhaços para todos os lados. Especialmente para
aqueles que têm “incontinência digital”, a tecnologia
serve como seu anjo e demônio.
Assim, independentemente da tecnologia, faz-se necessário se pensar
sobre a Etiqueta nas Redes de Relacionamento e seu impacto sobre
as amizades e as carreiras. Como nos comportamos com o estabelecimento
de novos contatos e manutenção dos anteriores, é
um elemento essencial para a gestão de nossa carreira e de nossa
reputação pessoal e profissional. Não se consegue
mais sair impunemente de um pequeno escândalo na web pois os Twitters,
Orkuts e Facebooks ou as pessoas que os ativam são implacáveis.
Como Fã-nático dos Beatles, lembro da frase final
da música “The End” do álbum Abbey Road –
“and in the end the love you take is equal to the love you make”
(“e no final, o amor que você leva é igual ao amor
que você dá/faz”). Nosso networking é alicerçado
sobre a base da equidade das trocas sociais que fazemos com as pessoas,
ao longo da vida. Nossa rede de relações é baseada
no escambo de atenções que dedicamos uns aos outros.
Anos atrás, eu tive contato com um conceito simples que acho bastante
alinhado ao ponto anterior – “conta corrente emocional”
– que estabelecemos nas relações com as outras pessoas.
Dependendo de nosso histórico de depósitos numa conta daquele
tipo, podemos “sacar” mesmo quando estamos quase sem fundos.
No entanto, se só queremos fazer retiradas e não fazemos
nenhum crédito para nossas relações, logo vamos criar
a fama de dar cheques “borracha” e as pessoas de nossas relações
podem fechar a conta.
Os depósitos nesta metáfora, são os pequenos agrados,
como a ligação no dia do aniversário, a lembrança
de uma data importante, a visita quando o outro está doente, compartilhamento
de algum assunto de interesse da outra pessoa, o retorno rápido
quando se deixa um recado pedindo uma ajuda, como o fornecimento de uma
informação ou recurso importante para a pessoa solicitante.
Existem pessoas de meu relacionamento que já desgastaram sua conta
corrente comigo pois aparecem do éter, como que por mágica,
quando estão num momento de “transição de carreira”
para pedirem para avaliar o CV, encaminhar a meus contatos e depois, desaparecem
tão rapidamente quanto surgiram. Já “transicionados”
para um novo emprego, seu canal de networking sai do ar e, provavelmente,
será acionado novamente na próxima transição.
Mesmo antes de se recolocarem, alguns colegas comentam sobre contatos
corporativos que na “rua da amargura” ou a caminho dela, pedem
um encontro para conversarem e pedir um conselho ou dica. Mesmo recebendo
um aceite e com uma oferta de data e horário, somem do mapa, até
que a próxima crise apareça. Essas pessoas, aos poucos,
vão encontrar portas fechadas para suas redes -- falimentares que
estarão por inanição de trocas de atenção.
Na correria do dia a dia, na profusão de contatos profissionais
que o mundo atual proporciona, não se espera que as pessoas mantenham
contato com todos eles, todo o tempo, pois o enxugamento dos quadros fez
com que o trabalho se acumulasse extraordinariamente para quem sobrevive.
Entretanto, àqueles que nos são caros e são “galhos”
fundamentais à sustentação da árvore de nossos
relacionamentos, devemos cuidar para que sejam providos da seiva de nossa
educação e atenção, não apenas precisamos
que quebrem os nossos galhos.
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