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"a ideia
de ano novo nos dá a impressão de ter pela frente
um espaço de tempo suficiente para realizarmos, ou pelo
menos iniciarmos, todos os projetos até então protelados" |
Fernanda conversava
com a amiga sobre sua sensação de fracasso. Planejara
tanto e via outro ano chegar sem ter riscado um item sequer da lista,
já amarelada, ali na geladeira. |
| - Isso
não vai se repetir. Estou fazendo minha nova lista, embora
o ano já me pareça pequeno demais para tanta coisa.
- E se você escolhesse apenas uma? |
Esta era exatamente a dificuldade de Fernanda, escolher;
mesmo porque a ideia de ano novo nos dá a impressão de ter
pela frente um espaço de tempo suficiente para realizarmos, ou
pelo menos iniciarmos, todos os projetos até então protelados.
Diante da constatação de que fizemos pouco, ou quase nada
do que planejamos, é imprescindível refletirmos sobre a
maneira como nos organizamos em torno daquilo que não conseguimos
concretizar: o quanto os desejos eram viáveis; o quanto investimos
neles e, principalmente, o que nos afastou da nossa meta, se necessidades
reais, imprevisíveis, inadiáveis, ou se nos perdemos no
emaranhado de vontades e acabamos engolidos por elas.
Um dos perigos é dar a todas as necessidades a mesma urgência,
ou dar às mais simples urgência nenhuma. Ao escolhermos determinada
coisa para fazer temos uma tendência a acreditar que ela está
roubando o espaço de outras, e, assim, continuamos a arrastar todas
sob o peso da culpa.
Se a questão, por exemplo, for inserir algo novo na rotina, começar
pelo mais simples poderá nos ajudar, uma vez que requer, em outras
medidas, o que seria necessário aos grandes projetos; porém,
a ideia de curto prazo é mais favorável a um primeiro movimento.
Para abrir espaço ao novo devemos averiguar nossa disponibilidade
para sair da rotina. É necessário colocá-la a nosso
favor. Que sejam mudanças mínimas temos que fazê-las,
para, aos poucos, ganharmos segurança em direção
a passos maiores e mais firmes. Da mesma forma, precisamos ficar atentos
ao nosso nível de exigência e ao tempo que levamos na execução
de determinadas tarefas.
Algumas coisas poderemos fazer mais rapidamente e outras já deveríamos
ter eliminado, se a prática veio nos mostrando que não estão
nos levando a lugar algum. Isso ajuda a limpar a área para que
possamos enxergar o projeto maior, além de impedir a possibilidade
de ficarmos paralisados em detalhes pouco significativos, ou de usá-los
como desculpa para não avançar.
É importante nos colocarmos inteiros em cada etapa, mas sem chegarmos
à exaustão, pois este pode ser um outro motivo para desistirmos
no meio do caminho. Devagar nosso grande projeto vai tomando forma e por
si só passa a exigir mais espaço.
Agora é tratá-lo com carinho, como coisa única, e
alimentá-lo com ideias e ações, pequenas que sejam,
todos os dias. Além, claro, de protegê-lo de quem não
acredita nele. Um ano poderá ser pouco para vê-lo terminado,
mas suficiente para torná-lo visível.
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