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Estudos divulgados recentemente revelaram que a terapia de reposição hormonal sintética traz mais riscos que benefícios para a saúde das mulheres. Foi um balde de água fria numa crença que vínhamos cultivando há 40 anos. A notícia só não surpreendeu pesquisadores que, como nós, estamos estudando alternativas naturais para a reposição hormonal há cerca de 20 anos.
Se a pesquisa sobre os perigos
da reposição hormonal deixa a classe médica
dividida e nós mulheres angustiadas, ela nos permite
lançar um olhar natural e menos sintético
sobre a menopausa.
Hormônios naturais
extraídos de plantas podem cumprir ou complementar
o papel dos hormônios sintéticos agora questionados.
Nossas pesquisas indicam que alimentos à base de
proteínas de soja, ricos em isoflavonas, hormônios
naturais da soja, podem trazer grande benefício
para as mulheres, com resultados surpreendentes e animadores.
A notícia apareceu
em todos os grandes jornais e revistas e recebeu destaque
nos noticiários das rádios e TVs. Caía
por terra, de uma só vez, toda a esperança
quase mágica depositada no uso de hormônios
sintéticos. A capacidade atribuída à
reposição hormonal, de nos manter jovens,
sem os incômodos da menopausa e os riscos aumentados
de doenças, estava agora sendo questionada.
Passados alguns dias da divulgação
dessas notícias, e passado o susto que provocou
em todos nós, podemos conversar mais tranquilamente
sobre o significado dessas pesquisas.
Dois estudos divulgados nas últimas semanas pelo JAMA, a revista da Associação Médica Americana, alertaram para os perigos da terapia de reposição hormonal, a TRH, uma fórmula empregada por milhões de mulheres no mundo todo.
O primeiro estudo
O primeiro estudo mostrou que a combinação de estrogênio mais progesterona aumentava os riscos de doenças. Durante quase 40 anos, acreditou-se exatamente no contrário, que essa reposição hormonal reduziria nossos riscos de enfermidade e nos livraria dos efeitos desagradáveis da menopausa.
O estudo vinha testando a
droga Prempro, nome comercial que corresponde no Brasil
ao Premelle. A pesquisa tinha sido iniciada em 1997 e
envolvia cerca de 16 mil mulheres com idades entre 50
e 79 anos, todas saudáveis. A proposta era avaliar
se as terapias de reposição hormonal combinando
estrogênio com progesterona de fato conseguiam reduzir
os casos de câncer de mama, de osteoporose e de
doenças ligadas ao coração.
A pesquisa deveria terminar em 2005, mas foi interrompida
em 2002 por determinação do Instituto Nacional
de Saúde dos Estados Unidos. O motivo: com base
nos dados já recolhidos, os especialistas constataram
que as mulheres que estavam fazendo reposição
hormonal estavam correndo maior risco que aquelas que
não estavam.
O estudo constatou que o emprego da TRH aumentava em 26% o risco de câncer de mama, em 29% as possibilidades de um infarto do miocárdio, em 41% as chances de um derrrame, e dobrava o perigo de uma trombose. Disparado o alarme, as autoridades americanas determinaram a interrupção da pesquisa e pediram que o alerta fosse transmitido a todas as mulheres.
O segundo estudo
O segundo estudo, divulgado
na semana passda levantou polêmica da TRH realizada
somente com estrogênio. O estudo avaliou mais de
44.000 mulheres menopausadas com média de idade
de 56,6 anos, por um longo período. Ao final do
estudo os pesquisadores concluíram que mulheres
que usaram TRH com estrogênio, particularmente por
10 ou mais anos, apresentaram risco significativo de câncer
de ovário.
Reposição Hormonal
A terapia de reposição
hormonal se espalhou no mundo todo especialmente depois
que o médico Robert Wilson lançou o livro
"Feminina Para Sempre", atribuindo à
TRH a capacidade de nos manter jovens, saudáveis
e bem dispostas durante toda nossa vida, mesmo com a chegada
da menopausa.
Isso foi na metade dos anos 60, e durante esses 40 anos nunca houve uma concordância total sobre os benefícios dessa terapia. A maioria dos médicos nos EUA, Europa e no Brasil defende o emprego da reposição hormonal para a maioria das mulheres.
No entanto, um número significativo de mulheres vem recusando o emprego dessa terapia, preocupadas com os riscos do câncer de mama. Mesmo com o sucesso do livro "Feminina Para Sempre", e com as grandes campanhas dos laboratórios junto aos médicos, o número de mulheres que adotam a TRH não chega a 30%.
Os médicos também estão divididos com relação a essa questão. Em um debate realizado pela "Folha de S.Paulo" no final do ano passado, do qual fui convidada a participar, alguns médicos debatedores defendiam a reposição hormonal, outros alertavam para os seus riscos e destacavam a importância das terapias alternativas.
É nesse ponto justamente que desejo
chegar. Se as notícias sobre as pesquisas com a
TRH sintética são preocupantes, o momento
é de olhar com mais atenção para
as alternativas naturais.
Não se trata de negar os benefícios
da reposição sintética, pois os medicamentos
vêm se mostrando uma arma fundamental na luta do
homem contra a doença. A TRH, no entanto, é
uma tentativa de repor aquilo que nosso organismo naturalmente
deixa de produzir com a menopausa, que são os hormônios.
Mais natural, então, seria buscar na natureza algo
que pudesse reduzir os sintomas dessa queda de produção
hormonal.
Hoje já se sabe que os fitohormônios
encontrados em diferentes plantas podem desempenhar, em
escala mais amena, mas sem nenhum efeito colateral, o
mesmo papel da TRH sintética. Os fitohormônios
são encontrados em plantas como a Cimicifuga Racemosa,
o Yam Mexicano, o Alcaçuz, a Linhaça, o
Trevo Vermelho, mas sua fonte mais conhecida é
a soja.
Os benefícios desse grão já foram constatados em dezenas de pesquisas que compararam as populações orientais, que comem soja diariamente, com as ocidentais, que pouco comem desse grão. A constatação principal é que a mulher oriental sofre menos os efeitos da menopausa, como as ondas de calor, tem menor incidência de câncer de mama, de osteoporose e doenças do coração.
Para todas as mulheres
Com base nessas pesquisas internacionais, eu e minha equipe na ESALQ-USP, passamos a pesquisar a soja e seus benefícios no Brasil. Foram cerca de 20 anos de estudos que nos autorizam a falar com segurança e tranquilidade sobre os benefícios desse grão.
Sabíamos de suas vantagens, e quais
eram as substâncias que agiam na nossa saúde,
mas o problema era de ordem prática: para obter
os benefícios da soja, seria necessário
consumir cerca de 150 gramas do grão por dia, uma
quantidade que as ocidentais não estão habituadas
a ingerir.
Foi então que, há três anos atrás, pesquisadores da FUGESP, Fundação para o Estudo da Vida Saudável e Gastroenterologia de São Paulo, convidaram a mim e minha equipe para fazer parte de um grupo de estudo com o intuito de de desenvolver uma pesquisa cujo objetivo era identificar a melhor forma de concentrar os nutrientes e componentes ativos da soja, na forma de um alimento e não cápsula.
A solução: um alimento em pó chamado Previna
O estudo culminou com a elaboração de um alimento em pó, batizado com o nome de Previna, que pode ser dissolvido em água ou sucos, e que tem a capacidade de fazer uma reposição hormonal natural. Por ser um hormônio muito menos potente que o sintético, as isoflavonas da soja presentes nesse alimento, beneficiam mulheres antes e depois da menopausa.
Ao combinar cálcio e proteínas da soja com essas isoflavonas, conseguimos um alimento que pode beneficiar a grande maioria das mulheres, uma vez que as proteínas da soja trazem benefícios para a saúde cardiovascular e o cálcio é um mineral importante para a saúde óssea.
Antes, imaginávamos que ele seria
especialmente indicado para mulheres com contra indicação
para TRH sintética, como aquelas com antecedentes
de câncer na família. Agora, com a pesquisa
norte-americana, podemos afirmar que ele é indicado
a todas as mulheres.
Embora acreditemos que os resultados dessa nossa pesquisa tenha sido uma grande contribuição para a saúde da mulher, não significa que o desafio da menopausa esteja totalmente resolvido. Muitos estudos ainda estão sendo desenvolvidos, tanto do ponto de vista sintético, quanto do ponto de vista dos alimentos. Como cientistas, nossa função é ir mais além, buscar novas fórmulas para a saúde.
Como pesquisadores na
área da Vida Saudável, nossa missão
é buscar nos alimentos substâncias que possam
melhorar nossa qualidade de vida.
| Para entrar em contato com a prfª Jocelem envie seu e-mail para jmsalgad@esalq.usp.br |
Profª.
Titular de Vida Saudável da ESALQ/USP/Campus
Piracicaba. Autora dos livros: "Previna Doenças.
Faça do Alimento o seu Medicamento" e "Pharmácia
de Alimentos. Recomendações para Prevenir
e Controlar Doenças", editora Madras.