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“Aquele que
é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre
o seu trabalho e o seu tempo livre, entre a sua mente e o seu corpo, entre
a sua educação e a sua recreação, entre o
seu amor e a sua religião. Distingue uma coisa da outra com dificuldade.
Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça,
deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou
se divertindo. Ele acredita que está sempre fazendo as duas coisas
ao mesmo tempo” (Domenico de Masi, O Ócio Criativo).
“Ócio: 1. Descanso do trabalho, folga, repouso; 2. Tempo
que se passa desocupado; vagar, quietação, lazer, ociosidade;
3. Falta de trabalho; desocupação, inação,
ociosidade; 4. Preguiça, indolência, moleza, mandriice, ociosidade;
5. Trabalho mental ou ocupação suave, agradável”
(Verbete do Dicionário Aurélio).
O que você faz com seu tempo livre? Você tem tempo livre?
Com o que você se ocupa? O que você faz nas 24 horas de um
dia? Você tem uma rotina diária? Como lida com ela?
| "Ócio criativo:
É preciso incluir, no cotidiano, atividades que reúnam
o descanso, o lazer, o trabalho e a aprendizagem"
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Diante do convite para escrever sobre o ócio,
o paradoxo: trabalho quase que 24 horas por dia, desejo dias mais
longos, para trabalhar mais. Dizem que sou viciada em trabalho, como
posso escrever sobre o ócio? A perplexidade inicial provocou
uma busca sobre possíveis significados para o ócio em
nossa sociedade.
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É corrente a ideia que defende o ócio
como fundamental à filosofa: “pensar requer ócio”;
qual seria o conceito de ócio presente nessa ideia?
Desde os primórdios da formação das sociedades complexas,
trabalho braçal e trabalho intelectual são divididos, sendo
predominante a atribuição do trabalho pesado às classes
menos privilegiadas, consideradas, em algumas sociedades, como inferiores.
Aos privilegiados, o trabalho intelectual, o ocupar-se com as artes, as
ciências, o governo, o lazer.
Na Grécia Antiga, a sociedade era dividida entre cidadãos,
não-cidadãos e escravos. Os não-cidadãos e
escravos eram considerados inferiores, cabendo-lhes tarefas braçais,
tidas como indignas para os cidadãos. Com herança na tradição
grega, os romanos denominaram ócio (otium) as ocupações
com o trabalho intelectual, em oposição ao negócio
(nec-otium, negação do otium), destinado a atender às
necessidades de subsistência da sociedade. A dedicação
ao ócio era, nessas sociedades, a atividade própria do ser
humano, embora poucos tivessem acesso a ela.
Relógio moral
O advento da sociedade capitalista exige a ampliação dos
negócios. Vindos de uma classe habituada a trabalhar, os burgueses
valorizam o trabalho braçal, a técnica. O trabalhador vende
sua força de trabalho, e institui-se a moral do trabalho produtivo
e do tempo útil, incutindo no ser humano uma espécie de
“relógio moral”. É preciso dedicar-se a um trabalho
que se transforme em mercadoria e traga lucros. O trabalho intelectual,
anteriormente valorizado, passa a ser indigno; o ócio, antes necessário,
passa a ser motivo de exclusão social.
Atualmente, o trabalho intelectual também é medido por produção:
números, quantidade de artigos publicados, quantidade de obras
de arte compostas, quantidade de pesquisas desenvolvidas. Ainda há
instituições que contratam por horas de trabalho, exigindo
e controlando a presença e a atividade de seus “colaboradores”.
É possível imaginar um músico que componha com hora
marcada? E um artista plástico que precise entregar cinco quadros
em 12 horas? Sente-se ai e só levante quando o livro estiver pronto.
É possível trabalhar dessa maneira?
O seu dia só termina quando você conseguir preencher todos
os relatórios e planilhas, quando atender vinte pacientes, quando
visitar trinta clientes ou conseguir fechar dez contratos, quando tiver
limpado toda a ala B.
Será que ainda conseguimos significar ócio como as atividades
próprias do humano: intelectuais, científicas, artísticas,
sociais? Ou o ócio tornou-se, em oposição a todo
e qualquer forma de trabalho, a desocupação, a inação?
Necessitamos de ócio para avaliar nosso cotidiano ou por que nos
submetemos a um trabalho escravo em uma sociedade “democrática”?
Relógio interno
O relógio interno que controla o tempo cobra: o que fiz hoje? É
preciso uma grande lista para não ser classificado como inútil,
preguiçoso, indolente. O que você vai fazer no final de semana?
Dormir. Ou então meu final de semana será repleto de tantas
e tantas atividades de lazer que iniciarei a semana com alto grau de estresse.
Já atendi muitos aposentados que passaram a vida trabalhando, sofrendo
cotidianamente com um trabalho “torturante”, sonhando com
a aposentadoria. Logo após os primeiros dias de aposentadoria,
entraram em depressão, adoeceram. A sensação de inutilidade,
de peso social tomou conta de algumas dessas pessoas. Outros, apesar de
se sentirem bem com o fato de não necessitarem mais trabalhar diariamente,
sentiam-se envergonhados por sua “ociosidade”, ainda que estivessem
repletos de atividades de lazer. Outros trouxeram como causa de seu sofrimento
o fato de serem “obrigados” pela idade a uma aposentadoria
compulsória, apesar de amarem seu trabalho e não saberem
viver sem ele.
O assunto da clínica, em alguns desses casos, foi encontrar atividades
nas quais a pessoa pudesse encontrar o mesmo prazer que encontrava no
trabalho, ou formas de dar continuidade a seu trabalho fora da instituição
onde trabalhava.
Também atendi alguns empresários bem-sucedidos, que apesar
do sucesso nos negócios, não se sentem bem, porque não
“vivem”, não se dedicam às atividades que lhes
trazem prazer. Quantos não foram os casos de depressão nas
férias: o que fazer com meu tempo livre? Talvez fosse melhor continuar
trabalhando...
Ócio e existência
Alguns dizem que o ócio é necessário para pensar
na própria vida, a comum frase “parar para pensar”.
Será que paramos para pensar? Será necessário suspender
nossas atividades cotidianas para refletir acerca delas?
Atualmente a distinção entre ócio e negócio
é extremamente difícil, pois muito do que anteriormente
era considerado ócio, tornou-se negócio. Qual o significado
poderíamos atribuir ao ócio na atualidade?
Em seu texto Política, Aristóteles afirma que a
escravidão somente deixaria de existir quando as ferramentas trabalhassem
por si mesmas. O desenvolvimento tecnológico busca a construção
de máquinas que trabalhem por si mesmas para que não precisemos
nos dedicar ao trabalho braçal. Contudo, apesar de substituirmos
muito do trabalho braçal por atividades executadas por máquinas,
não nos preparamos para modificar nossa forma de pensar e de viver.
Deixamos de ser escravos a partir da tecnologia ou nos tornamos escravos
da tecnologia?
Retomando a epígrafe de Masi, por que nos submeter a um trabalho
torturante? Por que trabalho, conhecimento e diversão não
podem constituir uma única e mesma atividade? Quando Masi defende
o ócio criativo, sua tese supõe romper a dissociação
existente entre trabalho, lazer, conhecimento, realização.
Não é preciso trabalhar oito horas, dormir oito horas e
ter oito horas de ócio. É preciso incluir, no cotidiano,
atividades que reúnam o descanso, o lazer, o trabalho e a aprendizagem.
Muitos me perguntam: como você consegue trabalhar tanto e parecer
tão bem? Como é possível que você não
se canse de trabalhar? Minha resposta é o prazer proporcionado
pelo trabalho que desenvolvo. Trabalho, me divirto e aprendo no consultório,
na sala de aula; mas também trabalho, me divirto e aprendo quando
encontro os amigos, quando assisto uma peça de teatro, um filme,
um concerto, quando leio um livro, quando escrevo um texto.
Como você se sente em seu trabalho? Em sua casa? Com suas atividades?
Com você mesmo? Se a resposta não lhe agrada, quais são
as possibilidades de modificar isso?
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