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princípio, existe um instrumento, uma entidade com o objetivo
de promover progresso e evolução. Essa, aos poucos,
passa imperceptivelmente a servir-se a si mesma e assume uma finalidade
de autopreservação egoística"
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O historiador americano Carroll Quigley,
no seu livro A Evolução das civilizações
- Uma Introdução à Analise Histórica,
desenvolve sua percepção da existência de um processo
histórico inevitável que ele chama "institucionalização
dos instrumentos". |
Segundo Quigley, este processo é encontrado em quase todos os fenômenos
sociais. Ele afirma que os instrumentos criados pelos seres humanos no
sentido de desenvolver progresso se institucionalizam, ou seja, se transformam
em instituições com uma sutil mudança na sua finalidade,
a qual passa a ser de autopreservação. A princípio,
existe um instrumento, uma entidade com o objetivo de promover progresso
e evolução. Essa, aos poucos, passa imperceptivelmente a
servir-se a si mesma e assume uma finalidade de autopreservação
egoística. Quigley assinala ainda que na arte nós testemunhamos
a passagem do poético ao prosaico, ou como dizia Charles Peguy
em Notre Jeunesse: tudo começa como "mystique"
e termina como "politique". Daí a importância da
distinção que os historiadores de religião fazem
frequentemente entre a religião e o clericalismo.
Quigley enfatiza que a institucionalização dos instrumentos
sociais é o mais difundido dos fenômenos históricos
e descreve esse suceder como um processo no qual a organização
que se vai institucionalizando, vai aos poucos realizando a sua função
ou finalidade com uma eficácia decrescente. Em consequência
disso, começa a surgir, principalmente entre os estranhos à
organização, uma manifestação de descontentamento
que clama por mudanças. Quando essas sugestões de mudanças
e reformas não são aceitas, surgem conflitos e controvérsias.
Enquanto todo o certo ou todo o errado não estiver inteiramente
de um lado desse conflito, é improvável que o descontentamento
e a controvérsia adquiram um nível suficientemente importante
para que surjam mudanças, a não ser que a organização
esteja tão institucionalizada, e portanto tão ineficaz,
que o grau de ineficácia dela promova o seu próprio desaparecimento.
Geralmente surge uma tensão entre os grupos empenhados nessa luta:
os mantenedores da instituição, aqueles que usufruem dos
direitos adquiridos por ela, e os reformadores, aqueles que pretendem
tornar essa organização um instrumento mais eficiente.
A tensão que se instaura entre esses dois grupos pode ser chamada
"tensão de desenvolvimento". Dessa, segundo Quigley,
emerge qualquer um, ou uma combinação de três resultados
possíveis: a reforma, o contorno e a reação. Ele
descreve a reforma como uma reorganização da instituição,
de modo que ela se torne mais instrumento e menos instituição,
passando a realizar sua finalidade de forma mais aceitável. No
segundo caso (o contorno), a instituição é deixada
com a maioria de seus privilégios e direitos adquiridos intactos,
mas os deveres lhe são tirados e atribuídos a um novo instrumento,
dentro da mesma sociedade. Quigley exemplifica com o rei da Inglaterra,
coberto de honras, mas cuja tarefa de governar foi assumida pelo Parlamento
e pelo Ministério. No terceiro resultado possível, a reação
(de onde vêm as expressões reacionarismo e reacionário),
os direitos adquiridos triunfam na luta e a instituição
se mantém indefinidamente, com o resultado de que o progresso se
torna praticamente inviável.
Vale observar que os processos aqui descritos são extremamente
dinâmicos, porque todos os novos instrumentos que vão sendo
criados, aos poucos vão se tornando instituições
que precisam ser reformadas ou contornadas.
No Brasil temos observado que as classes dominantes estão mantendo
seus privilégios por meio do sistemático saque do dinheiro
público através de um conluio entre empresas desonestas
e políticos corruptos. Tal saque vem se agigantando nos últimos
anos e apesar do fato de que o desenvolvimento tecnológico facilita
o desvendamento desses crimes, a impunidade endêmica – facilitada
por uma justiça cega, também corrupta e indigna de ser chamada
de justiça – tem crescido assustadoramente. Note-se o triste
fato de que os políticos que assumem o poder imediatamente se corrompem
e se deixam cooptar por esse repulsivo sistema de fraude e roubalheira.
Temos aqui um terceiro resultado quigleyano em que os reacionários
(o grupo dos direitos adquiridos) não precisam lutar, porque corrompem
aqueles que deveriam combater a corrupção, e os seduzem
a aderir ao sistema corrupto.
Acredito que a única forma de superar tal situação
será a indignação progressiva de toda a sociedade
forçando os tribunais – até agora cegos quando não
corrompidos – a atuar de forma eficaz punindo os criminosos não
apenas com a pena de prisão, mas mais eficientemente retomando
todo o dinheiro roubado à nação, a todos nós.
O movimento social precisa se organizar não em partidos todos corrompidos,
nem em entidades de classe também corrompidas e compradas pela
derrama de dinheiro público, mas em grupos de pressão permanentemente
alertas e atuantes. Precisamos nos organizar e agir com urgência,
antes que a riqueza do país seja totalmente devastada por este
mar de lama que nasce em Brasília e se derrama por todo o Brasil.
Proximamente examinarei o tema da reforma sob o ponto de vista social
e político de forma mais abrangente. E depois examinarei o mesmo
tema a partir do vértice psicanalítico inclusive através
da observação do funcionamento das instituições
ditas psicanalíticas.
ATENÇÃO:
Luiz Alberto Py será o entrevistado deste
domingo, 04 de setembro, no programa Conexão Roberto D' Avila,
às 20h00, na TV Brasil
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