| "O doente imaginário sofre a indizível
dor do membro fantasma, ou pior que a dor, a diabólica vontade
de coçar algo que já não existe mais. Pessoas
em sofrimento imaginário em geral estão em processo
regressivo, mesmo que essa doença lhes dê uma lufada
de prazer" |
Do ponto de vista de um monge zen, todas as doenças
são imaginárias. Mas para nós que pisamos no
chão duro do cotidiano sem incensos e mantras, uma osteoporose
ainda é bem concreta. Porém, nem só de sofrimento
real vive o paciente nosso de cada dia - sofre-se mais e sem curas,
de doenças imaginárias. |
Obviamente como alguns devem tem percebido, pedi emprestado esse título
da peça do Molliÿre O Doente Imaginário, um
homem a frente de seu tempo que sabia das coisas e as levava tão
a sério que fazia todos rirem com suas seriedades. No meu teatro
diário lido com tantos sofrimentos, tanta dor, que mesmo tendo
vontade de rir de meus doentes fico sério e compungido.
Muitos dos meus doentes choram e padecem de males que só
existem na virtualidade de suas emoções, ou seja, não
possuem existência real, no entanto existem. Uma mulher estava em
sofrimento profundo porque acreditava que seu marido não a amava,
só a desejava sexualmente, e não respeitava seus sentimentos.
Ela derramava suas lágrimas enquanto dizia que ele não compreendia
a sua dor, afinal acabava de enterrar seu irmão mais amado, falecido
há... sete meses! Como fazer sexo ainda enlutada? Além disso
seu marido se mostrava egoísta ao fazer questão de passar
num café para uns minutos de relax, depois de um dia exaustivo
de trabalho, ao invés de ir para casa.
Outra cliente sofria com as infidelidades reais do marido. Nada estava
escondido, mas mesmo assim ela ainda tentava farejar os perfumes da outra
nas roupas dele, e se tornou expert em pegar mensagens no telefone dele,
que eram como facadas em seu peito. Não me perguntem
porque ela não se separa, nem ela mesmo saberia responder essa
pergunta, muito menos eu.
As doenças imaginárias estão por toda parte fazendo
vítimas, e sua base é uma salada de caldo cultural e regressão
infantil. O caldo cultural é fácil de entender. Pessoas
sofrem imenso por terem sido proibidas de usar o véu islâmico
fora do mundo islâmico que escolheram viver. Sofrem porque não
possuem o dote para se casar, como manda o costume de seu país,
sofrem mais que a mãe do porco-espinho porque sua cultura lhes
impõem regras e obrigações que elas não conseguem
em algum momento cumprir. Isso é normal, bizarro, mas normal, existe
desde que o mundo é humano.
Já as regressões são, como o nome indica, uma volta
a um modo operacional infantil ou juvenil. Por exemplo: Quando uma criança
pequena acorda gritando que tem um tigre no quarto dela, tem mesmo
um tigre lá. Ainda não houve uma separação
mais nítida dos seus hemisférios cerebrais, a educação,
e a cultura não tiveram tempo de programar seus hemisfério
esquerdo com as concepções da realidade, ou seja, aquilo
que costumamos chamar de realidade.
As fronteiras entre seu universo onírico e o vígil, ainda
estão perigosamente abertas. Assim quando regredimos a esse modo
infantiloide acreditamos que tigres, ou homens peludos invadiram a nossa
vida ou pior ainda nos abandonaram para sempre. O sofrimento virtual é
terrível, porque não podemos tomar um remédio para
remediá-lo, não podemos extraí-lo cirurgicamente,
nem colocar o patch para silenciá-lo.
O doente imaginário sofre a indizível dor do membro fantasma,
ou pior que a dor, a diabólica vontade de coçar algo que
já não existe mais. Pessoas em sofrimento imaginário
em geral estão em processo regressivo, mesmo que essa doença
lhes dê uma lufada de prazer. Atendi a uma senhora que está
em conflito com a família devido à sua mania de arrumar
tudo e sofrer quando algo fica fora do lugar. A última briga homérica
foi porque alguém quebrou seu aspirador de pó preferido.
Perguntei-lhe porque tanto perengue, porque não mandava consertá-lo
e pronto. Ela não me ouviu e continuava repetir que tinham de ter
cuidado com as coisas, que era preciso preservar as coisas, etc. Tive
a inspiração de perguntar-lhe quanto anos tinha o fabuloso
aspirador. Ele parou por um momento, deu um sorriso de criança
pega no ato da traquinagem, e disse, não importa ele estava
NOVO!. Quantos anos tem o aspirador? Insisti como um
pequeno príncipe de 59 anos. Quase sussurrando ela confessou de
cabeça baixa: Quinze anos.
Dezesseis corrigiu a filha acusada do crime bárbaro.
Batalhas em torno de cães de palha, mas que rendem sofrimento e
doenças reais.
Sofremos porque ele ou ela, não liga, sofremos porque ele ou ela
liga. Sofremos por antecipação e por retardo. Há
pessoas que não enterram seus mortos anos depois de mortos de verdade
ou virtualmente. Num mundo ideal as doenças imaginárias
seriam banidas, ou estariam apenas nos grotões mais profundos do
planeta. Mas não vivemos no mundo ideal.
Pedi a minha cliente primeira a ser citada que pensasse em sua mãe
com setenta anos. Que se imaginasse com aquela idade, sem tempo para se
arrepender do tempo perdido com doenças imaginárias. Depois
pedi-lhe que abrisse os olhos e se visse com seus trinta e poucos anos,
cheia de vitalidade, em plena forma, com tudo à sua volta para
ser feliz. Por fim desci o machado: Seja feliz agora, ao sair daqui
deixe essas latas vazias no primeiro lixo. Volta para casa e chame o seu
marido para uma sessão de sexo selvagem. Depois se quiser fume
um cigarro, mas lembre de sorrir.
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