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Como o nome dessa coluna é
justamente Outro Lado, que espera-se que assim seja, assim como
o outro lado da Lua, o lado oculto ou pouco exposto das coisas, mesmo
com toda pretensão que possa aparentar, quero agora fazer jus a
esse titulo.
Nada como uma viagem para fora do nosso sistema solar provincial para
observarmos melhor outros lados, como por exemplo o outro lado do amor.
Quando amamos verdadeiramente desejamos estar perto, mesmo que seja de
uma proximidade virtual. Desejamos estar atentos ao outro, objeto do nosso
amor, aos seus desejos e necessidades. Quando então temos a graça
da reciprocidade, sabemos que o objeto do nosso amor, também nos
deseja por perto, também espera ouvir a nossa voz, sentir o nosso
cheiro, contar com o nosso sorriso acolhedor e com o nosso braço
forte e até mesmo com a nossa fragilidade.
Nosso amor cria ou deveria criar compromisso, pactos ostensivos ou selados
pelo silêncio do mútuo consentimento. Mas quando algo se
põe entre nós e o recipiente de nosso amor, uma noite sem
lua se cria de repente. O outro lado do amor é a ausência,
o vazio. Não apenas o vazio acostumado, aquele que sabe não
existir nada e por isso resigna-se. Mas um buraco negro faminto de presença.
Falta o som da voz, o cheiro, as coisinhas irritantes que tecem a normalidade
de um cotidiano de convivências. A rotina tao mal falada se quebra
e ai sim vem compor a lista do "faz falta".
O outro lado do amor é a a ausência de tudo que é
concreto no amor: o toque, a visão, a audição, a
certeza da presença real do outro a quem amamos. Vocês poderao
dizer: mas a distância é revigoradora das relaçoes
amorosas, e eu terei de concordar. Mas isso nao muda uma vírgula
nos sentimentos que a ausência do real nos concede. Talvez as minhas
filhas estejam sentindo falta não apenas de mim, mas das vitaminas
que preparo para elas todas as manhãs, da minha irritante insistência
para que comam mais "verde" nas refeiçoes. Meu cachorro
sente falta das pontuais caminhas pela manhã e a tarde? Certamente.
Meu filho acostumado a distância deve sentir a lacuna das nossas
intermináveis dicussões sobre os destinos da humanidade
e sobre qual é o melhor atacante do Flamengo na atualidade.
O outro lado do amor nao é o odio, ou a solidão, mas a fome
pela falta de alimento amoroso.
Uma viagem longa e para longe é como observar o próprio
corpo lá embaixo de uma perspectiva mais elevada. Somos agentes
e ao mesmo tempo testemunhas de nosso andamento. Do alto de nossa leveza
etérea sentimos a liberdade de movimentos, mas também sentimos
a falta de substancialidade, de corporalidade. Estar preso ao chão
é limitante e sacrificial, mas estar solto ao vento é assustadoramente
vaporoso. Afastar-se como agora estou afastado pode proporcionar boas
e velhas lições, como por exemplo, não perder tempo
com afastamentos presenciais, coisas da estupidez do Ego, perdas de oportunidades
para explicitar o amor, o cuidado, e demonstrar os sentimentos sem pudor,
como se estivessemos prestes a fazer uma longa viagem, mas sabenos que
não. Cercados pelo mar sem fim, sem terra à vista, pode-se
ver com clareza que o outro lado do amor é a distância, e
o som som é o da palavra que está ausente em todas as outras
línguas: saudade.
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