| "No mundo espiritual as gavetas
são tantas e tão diversas quanto no mundo material.
Quem mata vai ser assombrado pelos seus crimes. Ninguém fica
melhor só porque passou desta para outra. Ao contrário
alguns até pioram. Pessoas que viveram uma vida encharcada
de materialismo, de sexo, drogas e rock’n roll, não vão
ficar tocando lira com asinhas brancas em cima de nuvens gordas e
bonachonas" |
Recebi uma mensagem de uma leitora revoltada com
a minha falta de sabedoria e de sensibilidade em relação
ao caso do assassino de Eloá (ainda se lembram?). No artigo
eu dizia que sabia de antemão do desfecho, por se tratar de
uma situação arquetípica. Disse que já
na véspera dos tiros fatais, torcia pelo menos, para ele ser
capturado vivo para poder viver o resto da vida assombrado pelo fantasma
do sorriso de Eloá. |
Ela me escreveu: “Quem sabe ele não estaria fazendo aquilo
que o pai dela, fez várias vezes... poderia estar influenciado
pelos espíritos, e... não podemos julgar ninguém
porque no mundo espiritual todos são iguais, isso foi o que aprendi
nos meus estudos kardecistas.” Resolvi escrever aqui uma resposta
a essa leitora ao mesmo tempo em que desenrolo esse intricado conceitual.
Em primeiro lugar o fato de ele estar ou não possesso de espíritos
não arreda um centímetro a sua culpa. Embora eu não
acredite nessa possibilidade, se foi fraco o bastante para permitir ser
acossado por “espíritos malignos” por tanto tempo e
ter-se permitido auxiliar por esses “espíritos” na
preparação, negociação e manutenção
do cativeiro, ele no mínimo é cúmplice, e como não
se pode prender e julgar um espírito...
Não, não foi uma possessão, nem encosto, nem obsessão,
foi apenas ele e a sua imensa miséria humana, o seu vazio de ser,
de amor, de pensar. Quanto ao fato do pai dela ter sido bandido e isso
explicaria tudo, numa versão moderna de o justo pagará pelo
pecador, isso não é doutrina kardecista, nem aqui nem no
baixo astral. Tentar explicar esse caso pela simplificação
pueril de que a filha poderia estar pagando pelo carma do pai é
contra todo o conhecimento espiritual e o bom senso material. Já
pensou, termos de ir procurar nos pecados dos pais, tios, avós
das vítimas, a explicação para suas tragédias
pessoais? Na verdade essa é uma cruel tentativa de vitimizar o
algoz.
Somos todos iguais?
Quanto a alegação de lá no plano espiritual sermos
todos iguais, essa é uma grande e antiga falácia. Trata-se
de uma crença primitiva desprovida de fundamento e lógica.
Os muçulmanos acreditam que quanto maior o crime que o fiel perpetrar
“em nome de Alá’, mais “virgens” celestiais
e palácios dourados terá a sua disposição
no “plano espiritual”. Os Hare Krishnas acreditam em algo
semelhante também, coisas do tipo: Se você arrancar uma pena
de pavão, voltará na próxima encarnação
cego! Uma pena de pavão pela privação da visão!
Católicos e evangélicos acreditam que padres ou pastores
têm o poder de absolver os pecadores dos seus pecados, ou que eles
possam ganhar um lugar melhor no céu dependendo dos zeros que põe
nos cheques dos dízimos. Tudo isso é uma afronta ao bom
senso e ao conhecimento oculto das leis do mundo espiritual.
Mas a bem da verdade devo dizer antes que me colem a etiqueta de arrogante
e dono da verdade, que em se tratando desse assunto imponderável,
todas as opiniões, chutes, e achismos são no mínimo
permitidas. Assim como há séculos a ideologia religiosa
vem usando e abusando da geopolítica espiritual para manipular
as pessoas aqui na Terra, me sinto autorizado a expressar a crença
que abraço, que obviamente não é criação
minha, mas da escola Teosófica com a qual me identifico, mesmo
assim com restrições.
No mundo espiritual as gavetas são tantas e tão diversas
quanto no mundo material. Quem mata vai ser assombrado pelos seus crimes.
Ninguém fica melhor só porque passou desta para outra. Ao
contrário alguns até pioram. Pessoas que viveram uma vida
encharcada de materialismo, de sexo, drogas e rock’n roll, não
vão ficar tocando lira com asinhas brancas em cima de nuvens gordas
e bonachonas. A luz astral para onde vai a imensa maioria de viventes,
é o mundo da ilusão (não será esse nosso plano
a mesma coisa?). Com a diferença de que lá a realidade não
é física é ideoplasmática, ou seja você
molda, cria, aquilo que pensa ou sente. O fumante vai sentir a mesmo desejo
visceral de fumar (a tal da fissura) e por isso vai plasmar um cigarro
astral, só que esse cigarro de nada, não vai lhe satisfazer,
por que tem teores de nicotina inexistente. Isso é seu inferno.
É o mundo das sombras “reais”, tão reais quanto
os sonhos assombrosos das crianças. Por isso talvez o “céu”
dos Hare Krishnas tenha mesmo o Lord Krishna recebendo a todos e dançando
alucinadamente com eles e cantando o Maha Mantra. Da mesma maneira que
o “céu” dos muçulmanos pode ter as tais mil
virgens servindo os homens-bomba todos despedaçados e ainda ouvindo
os gritos de desespero de suas vítimas. De que adiantaria, qual
a lógica, onde há justiça, se a morte zerasse o velocímetro
e apagasse a folha corrida dos homens e mulheres? Que tipo de justiça
seria essa? Como disse Hermes Trismegisto (se é que ele existiu
mesmo: “O que está em cima é igual ao que está
abaixo”. Nisso eu acredito, o mundo espiritual é um espelho
do mundo físico. Não há tribunal de condenação
ou de absolvição, não existem Senhores do Carma,
nem Jesus preside a uma eterna corte julgando as almas de acordo com alguma
lei construída e em cima de bases culturais. Cada um é julgado
e condenado a partir de sua própria consciência ou da falta
dela. Por essas razões me vejo impedido de embarcar nessas ilusões
super-sport muito convenientes e pueris. Que me desculpe a minha leitora,
mas no andar de cima o buraco é mais embaixo.
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