| "Aceitar qualquer traste,
ou recusar todos na vã espera de que um clone daquele ator
da novela das oito venha lhe oferecer flores na porta de sua casa,
é um passaporte carimbado para o sofrimento" |
Não vou ficar aqui, relembrando a vocês
as tragédias envolvendo maridos ou ex-maridos que matam suas
mulheres com requintes de crueldade. As câmeras de segurança,
e os testemunhos pungentes que a mídia nos joga na cara são
já suficientes. Tudo que vemos e ouvimos no entanto é
apenas a ponta do iceberg. |
Ocultado dos nossos olhos, há uma população de
mulheres que sofrem cotidianamente nas mãos de seus companheiros.
Os dados aproximados já foram mostrados no meu livro Dormindo
com o Inimigo e são assustadores. Para essa massa humana de
mulheres e homens a promessa do amor se transformou numa armadilha mortal.
Para essas mulheres seus ex-amados se transformaram em Fred Krugers,
saindo de seus piores pesadelos para tornar suas vidas reais na mais abjeta
antítese do amor. O grito de dor desses seres, vitimados pela ilusão
de um amor, ecoa pelas esquinas de cada cidade e vai nos assombrar pelo
resto de nossas vidas.
Mas existe outro sofrimento, mudo, contrito, que nunca ocupa as manchetes,
porque é de sua natureza ser vivido no palco escuro do quarto de
dormir, sem testemunhas, sem câmeras de vigilância, apenas
em silêncio, vez por outra cortado pelo choro contido pela vergonha.
É a dor da solidão, do abandono. São as mulheres
que se prepararam para o amor e ele não veio. Não aconteceu,
não brotou. Algumas porque criaram, até sem perceber, mecanismos
de seleção mais rigorosos que mantiveram apartados os talvez
predadores, outras porque exageraram no rigor desses mecanismos, e os
calibraram acima de suas necessidades. Mas a maioria dessas mulheres veio
mesmo sem os programas de conexão afetiva. Pensando sobre isso,
me veio à cabeça a imagem do nosso cérebro, e isso
não é nenhum trocadilho.
Todos sabemos que temos mais ou menos cem bilhões de células
nervosas, os neurônios, e sabemos também que eles só
nos são realmente úteis quando se “casam” com
outro, criando uma sinapse. Mas muitos neurônios permanecem sozinhos
apenas fazendo número até que um dia morram, ou finalmente
consigam sinapsar. Não conheço pessoalmente nenhum
neurônio, mas acredito que a sua vocação genética
seja criar sinapses e que, quando isso não acontece, não
deve ficar muito feliz Também acho que se o neurônio começa
a ficar velho e não consegue se juntar com outro, deve entrar em
parafuso, ficando neurótico, amargo, melancólico. Acredito
até que muitas dessas roubadas amorosas que as mulheres vítimas
se meteram, deve ter sido motivada por esse medo visceral. Assim, enquanto
uma aceita na sua vida qualquer porcaria travestido de príncipe
encantado, outra não aceita ninguém, sem perceber que a
fila anda e a idade chega.
Porém não somos neurônios, temos neurônios,
nem sempre os usamos de forma correta, mas não somos neurônios,
devíamos ser muito mais. Em ambos os casos o problema está
na superestimação do amor, ou da ideia que fazemos do amor,
quase sempre ilusória, ficcional. Se soubéssemos desde cedo
que o amor pode dar certo, mas também pode não dar, teríamos
uma posição mais sóbria nesse departamento. Se desde
cedo nos direcionássemos de coração e mente à
causa da felicidade, e não especificamente para o amor romântico,
seríamos muito mais felizes e as probabilidades de sangrar por
fora ou por dentro muito menores.
A chave do segredo é simples: Qual é a sua causa? Por quem
ou por que você luta? Onde investe sua energia criativa? Qual o
sentimento que mais força tem em seu coração: carência
ou compaixão? Se você responde de forma egocêntrica
a essas questões está condenada a pertencer a uma das categorias
listadas acima. Se você faz do casamento na igreja, com pompa e
circunstância, a meta maior da sua vida e nele investe todas as
suas fichas, seu futuro amoroso/ emocional pode ser sombrio. Olhar só
para dentro, só para seu ponto G do coração, é
uma péssima estratégia de vida amorosa.
Aceitar qualquer traste, ou recusar todos na vã espera de que
um clone daquele ator da novela das oito venha lhe oferecer flores na
porta de sua casa, é um passaporte carimbado para o sofrimento.
Olhar para fora, perguntar ao mundo: “em que posso ajudar?”,
ao invés de mendigar a ele nacos de um grande amor, é a
melhor solução.
Artigos relacionados -
clique no título
|