| “O mundo é a minha
representação – Esta proposição é
uma verdade para todo o ser vivo e pensante, embora só no homem
chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. A partir
do momento em que é capaz de o levar a este estado, pode dizer-se
que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então
a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas
apenas olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra;
numa palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação,
na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio
homem” (Schopenhauer).
| "Você já
reparou como pessoas diferentes, diante de uma mesma situação,
podem enxergar ou destacar aspectos totalmente distintos? Já
ocorreu de você compreender um fato, uma ideia, uma afirmação
de maneira totalmente distinta de alguém que presenciou o mesmo
fato, ideia ou afirmação juntamente com você?" |
Assim Schopenhauer inicia o livro O mundo como
vontade e representação, um dos trabalhos que servem
como fundamento para os princípios da filosofia clínica.
De que maneira o conceito de representação, proposto
por Schopenhauer, pode ser utilizado para nos auxiliar a lidar com
as questões cotidianas? |
Em primeiro lugar é preciso discernir entre diferentes conceitos
de representação expressos na citada obra. No livro I ele
apresenta um primeiro ponto de vista: A representação
submetida ao princípio da razão suficiente: o objeto da
experiência e da ciência. Segundo esse conceito, tudo
o que existe, existe para o pensamento, existe em relação
a um sujeito que conhece. Desta forma, cada representação
é única, singular a cada sujeito que conhece, e não
há como dois sujeitos terem uma mesma representação.
Maya: véu da ilusão
“É Maya, é o véu da ilusão, que, ao
cobrir os olhos dos mortais, lhes faz ver um mundo que não se pode
dizer se existe ou não existe, um mundo que se assemelha ao sonho,
à radiação do sol sobre a areia, onde, de longe,
o viajante crê aperceber uma toalha de água, ou ainda a uma
corda atirada por terra, que ele toma por uma serpente.” (Schopenhauer
citando trechos dos *Vedas e dos Puranas).
Ao mesmo tempo em que se inspira na perspectiva kantiana que questiona
os limites da razão – mostrando que só nos é
possível conhecer a partir das formas a priori de nosso
entendimento –, ele modifica essa leitura, transformando o sujeito
kantiano – universal e necessário – num sujeito empírico,
que possui uma historicidade que o situa no mundo, e a partir da qual
compreende o mundo. É o sujeito que conhece todo o resto, sem ser
ele mesmo conhecido.
Você já reparou como pessoas diferentes, diante de uma mesma
situação, podem enxergar ou destacar aspectos totalmente
distintos? Já ocorreu de você compreender um fato, uma ideia,
uma afirmação de maneira totalmente distinta de alguém
que presenciou o mesmo fato, ideia ou afirmação juntamente
com você? Essas diferentes leituras, feitas por diferentes sujeitos,
exemplificam o conceito de representação submetida ao princípio
da razão suficiente de Schopenhauer.
Quando afirmamos que, em filosofia clínica, o que interessa é
conhecer a representação da pessoa, isso significa tentar
conhecer a forma como essa pessoa representa o mundo. Obviamente, se afirmássemos
que o filósofo clínico consegue atingir um conhecimento
pleno, total, dessa forma de representar o mundo, estaríamos entrando
em contradição, ou atribuindo a esse profissional um poder
superior ao de outros seres humanos. É claro que não se
trata disso. Trata-se, todavia, de construir uma representação
do filósofo clínico acerca da representação
do partilhante - paciente.
Uma vez que não é possível, a duas pessoas, possuírem
a mesma representação – pois esta somente existe para
o sujeito que conhece, em sua singularidade –, o conhecimento, em
clínica, da representação do partilhante, se dá
por aproximação. Assim sendo, não cabe ao filósofo
clínico julgar, adivinhar, atribuir significados ou interpretar.
Cabe-lhe ater-se ao que lhe é possível conhecer: o fenômeno,
o que se mostra, as descrições feitas pelo partilhante.
Com isso é possível ter acesso ao que realmente acontece
com a pessoa? Ao mundo no qual esta se encontra inserida? Não.
Apenas à sua representação.
Desta forma, se o partilhante apresenta uma possibilidade para conduzir
sua vida que é totalmente desconhecida ao filósofo clínico,
não cabe a ele avaliá-la como impossível, impraticável,
mas sim pesquisar as formas de efetivação existentes no
contexto do partilhante, ou conhecidas, pensadas ou criadas por ele. Cabe
também questionar o partilhante sobre as possíveis consequências
das possibilidades apresentadas, considerando, principalmente, aquilo
que lhe é caro – e que foi pesquisado anteriormente, a partir
dos dados coletados durante o procedimento de colheita da historicidade
(clique aqui).
Sob um outro olhar
Se trouxéssemos isso para a vida cotidiana, fora do consultório,
talvez discutíssemos menos, brigássemos menos e compreendêssemos
mais. Se pudéssemos considerar que cada pessoa vê o mundo
de uma maneira própria e, ao invés de tentarmos afirmar
nossa forma de representá-lo, tentássemos compreender as
diferentes formas como legítimas, talvez conseguíssemos
ampliar nossos horizontes, aprendendo novas possibilidades de ver o mundo
e de lidar com os problemas.
Essa postura significaria dizer que não existe realidade? Que tudo
o que existe é ilusão? Ou ainda, poderia significar assumir
uma postura relativista diante da vida e com isso defender um “vale-tudo”
no campo da ética?
Apontar os limites da razão e da representação submetida
ao princípio da razão suficiente não significa defender
um relativismo, muito menos negar a realidade. Significa apenas apontar
para os limites do conhecer e, consequentemente, para a impossibilidade
de apreensão da totalidade na representação subordinada
ao princípio da razão.
Contudo, no terceiro livro, Schopenhauer nos apresenta um segundo ponto
de vista sobre a representação: A representação,
considerada independentemente do princípio de razão. A ideia
platônica: o objeto da arte.
Representação
“Depois de, no primeiro livro, ter estudado o mundo como simples
representação, de objeto para um sujeito, nós consideramo-lo,
no segundo livro, sob um outro aspecto: descobrimos que esse ponto de
vista é o da vontade; ora, a vontade manifesta-se unicamente como
aquilo que constitui o mundo, abstraindo da representação;
foi então que, segundo esta noção, demos ao mundo,
considerado como representação, o seguinte nome, que corresponde
tanto ao seu conjunto como às suas partes: a objetivação
da vontade, que significa, a vontade tornada objeto, isto é, representação”.
Na acepção de representação independentemente
do princípio de razão, Schopenhauer aponta para a totalidade,
para o uno, para a possibilidade de formas de conhecimento integrais,
que só podem ser atingidas quando nos libertamos do princípio
de razão. Ele cita a inspiração do artista, a criação
do gênio, as conexões do louco e a postura ascética
do santo. Isto é, formas de nos desprendermos daquilo que somos,
de nossas representações científico-racionais, e
nos permitirmos um contato com o absoluto, com o inefável, com
a totalidade.
Não está em questão o uso clínico de tal possibilidade,
pois exigiria do profissional tornar-se um asceta, um santo, ou depender
de uma inspiração que não se dá com hora marcada.
Assim sendo, o conceito de representação, de Schopenhauer,
utilizado na filosofia clínica refere-se ao descrito no livro I
de O mundo como vontade e representação.
Apenas como acréscimo, é importante ressaltar que o conceito
de representação independentemente do princípio de
razão permite conceber outras formas de conhecimento além
da razão, que serão exploradas pelo perspectivismo nietzschiano
como conhecimento estético (clique
aqui). Ainda que o filósofo clínico não faça
uso deste segundo conceito de representação, sua derivação
no conceito de conhecimento estético apresenta-se na clínica
filosófica em diferentes tópicos e **submodos que fazem
uso de um conhecer por sensações.
*Vedas: livros sagrados da Índia
**Submodos: Formas, modos que utilizamos para lidar com nossas situações
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