| Durante nosso desenvolvimento estamos
sempre experimentando um equilíbrio entre aumento (ganhos), diminuição
(perdas) e manutenção (estabilidade) da nossa capacidade de se adaptar
aos diferentes eventos ao longo da vida. Essa capacidade cheia de alcances de
limites chama-se plasticidade.
Todos nossos comportamentos são
ao mesmo tempo fixos e variáveis e refletem-se nas diferenças interindividuais,
nas diferenças transculturais e no tempo histórico. Nesse sentido
a plasticidade é conceituada como o potencial para mudança adaptativa.
Os avanços das Neurociências, especialmente nas últimas
três décadas, têm confirmado que as funções mentais
têm estrutura psicológica organizada em diferentes níveis
de complexidade. As funções mentais e as regiões cerebrais
que as processam constituem um todo interconexo, ou seja, constitui um "sistema
funcional dinâmico da atividade mental". E como as nossas funções
mentais (cognitivas) nascem da prática sóciocultural e sócio-histórica,
elas são passíveis de reabilitação, correção,
recuperação, reorganização, manutenção,
compensação e rearranjos, levando-se em conta sua natureza social
e estrutura sistêmica (cerebral) conforme a tarefa em pauta, indicando também
a flexibilidade e resistência para lidarmos com desafios e exigências
do ambiente.
| "Quanto
mais alimentarmos a atividade mental, mais cérebro e mente teremos para
enfrentar os eventos do curso de vida e apresentar melhores desempenhos em memória,
atenção, percepção, linguagem, funções
visuo-espaciais, entre outras funções cognitivas" | O
potencial de plasticidade de cada pessoa está relacionado ao acúmulo
de conhecimentos ao longo da vida, a preservação da mente ativa
e a capacidade cognitiva. O grau de plasticidade depende dessas reservas ao longo
da vida juntamente com a rede social (recursos externos) que o indivíduo
têm disponíveis. Isto é, quanto mais alimentarmos a atividade
mental, mais cérebro e mente teremos para enfrentar os eventos do curso
de vida e apresentar melhores desempenhos em memória, atenção,
percepção, linguagem, funções visuo-espaciais, entre
outras funções cognitivas. |
Por exemplo,
uma pessoa que exercita a memória terá melhores desempenhos em tarefas
do dia-a-dia que exige o processamento da memória. No caso de uma pessoa
idosa que procura estabelecer sempre novos laços sociais que mais tarde
servirão de fontes de apoio, significa que este idoso possui plasticidade
no domínio das relações sociais. Um outro exemplo, é
o de compreensão de textos, compreender um texto depende sempre de uma
grande parcela de conhecimentos partilhados. Ao ler um texto ou livro, ativamos
modelos de situações, expectativas sobre estados de coisas, experiências,
conhecimento enciclopédico (vocabulário), conhecimento de mundo
que nos guiam no processo de compreensão.
Entretanto, pode ocorrer
também casos em que a pessoa tenha recursos insuficientes dado o acúmulo
de necessidades. As experiências evolutivas manifestam tanto como facilitadores
propiciando ganhos ou limitadores propiciando perdas.
Em casos de reabilitação
das funções cognitivas como nos casos de distúrbios de memória
ou de linguagem (amnésia ou afasia) o trabalho consiste em ativar o potencial
atual da pessoa para o máximo desempenho com base em conhecimentos existentes,
aprendidos ao longo da vida, experiências (recursos internos) e suporte
social e familiar (recursos externos). Com o uso de estratégias dirigidas
sob condições sócioculturais específicas às
funções mentais ou domínios gerais e específicos,
ocorre o aumento da plasticidade do funcionamento cognitivo e o alcance de níveis
ótimos de funcionamento. E isso acontece em todos os períodos do
curso de vida.
Quanto à especialização de conhecimentos,
se a disponibilidade de ricos conhecimentos para atividades artísticas,
culturais, literários, a fatos e eventos pode ser considerado um fator
protetor contra declínios ao longo da vida, é uma questão
ainda bastante recente que tem chamado a atenção de pesquisadores
no campo das Ciências Cognitivas e Gerontologia.
O importante é
que na medida em que cresce nossa capacidade de reservar conhecimentos e experiências,
cresce também o potencial para a plasticidade. Assim, a velhice não
pode ser considerada um sinônimo de perda e declínio puro e simples.
O que aprendemos ao longo da vida não se perde e não declina. O
equilíbrio entre ganhos e perdas nos vários domínios do desenvolvimento
é que se torna um pouco menos positivo. Nosso funcionamento cognitivo opera
com grande liberdade e algumas funções irão atuar com mais
força dependendo da importância que dermos a elas. Umas estarão
sempre muito bem iluminadas na mente, outras menos, um pouco mais apagadas. É
assim que opera, por exemplo, nossa memória.
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