| "É triste constatar
que a psicanálise se dividiu em escolas, correntes, igrejinhas,
cada uma delas se proclamando a única, a verdadeira, a melhor
e desvalorizando os que não a segue" |
"Quem sabe faz, quem não sabe ensina."
Este dito cruel era freqüente entre os alunos da Faculdade Nacional
de Medicina da Universidade do Brasil (atual UFRJ), localizada na
Praia Vermelha, na época em que lá estudei. Na irreverência
da juventude nos apegávamos a fórmulas que nos protegessem
de idealizar excessivamente nossos mestres. |
A vida me mostrou a correção desta idéia na medicina.
Penso que também na maioria das atividades e profissões
provavelmente existe uma dicotomia entre os teóricos, que se abrigam
em suas torres de marfim cercados de milhares de livros, e os práticos,
que metem a mão na massa e enfrentam o desafio diário de
tentar corresponder às necessidades dos que os procuram. Como diz
Chico Buarque há os que nasceram para enfrentar o mar e os que
se sentem mais confortáveis confinados em seus faróis correndo
menos riscos. Ambos são úteis e importantes. Triste é
quando uns e outros, geralmente por insegurança, passam a se desmerecerem
reciprocamente.
Freud envelhecido
Na área do conhecimento onde atuo – a psicanálise
– por vezes surgem polêmicas em torno da maior ou menor relevância
de tais e quais idéias, escolas, correntes, etc. A figura de Sigmund
Freud, o criador da psicanálise costuma surgir como eixo destes
debates. Como todo psicanalista, devo a Freud a invenção
de minha profissão. Todavia, isto não me obriga a aceitar
todas as suas formulações e a ficar submisso às afirmações
oriundas dele. Afinal, ele morreu antes de eu nascer, e já passei
há muito tempo dos 60 anos de vida. O otimismo nos obriga a imaginar
que nos últimos sessenta anos centenas de pensadores geniais acrescentaram
à psicanálise tantas inovações que o estudo
das formulações freudianas ficou envelhecido.
Certa vez, durante uma palestra, me vi contestado por um jovem colega
que afirmava que as reflexões que eu expunha estavam em desacordo
com as idéias de Freud. Ocorreu-me dizer a ele que, da mesma maneira
em que nas fábricas de aviões os engenheiros certamente
pouco se importavam em concordar ou não com Santos Dumont ou com
os irmãos Wright, eu, depois de cem anos do começo da psicanálise,
não estava muito preocupado se os pensamentos de Freud se alinhavam
com minhas observações clínicas.
Acrescentei que era muito possível que em alguma sala da Boing
existissem fotografias dos irmãos Wright, já que os mesmos
são considerados os pioneiros da aviação pelos americanos.
Da mesma forma, em uma parede de meu consultório existe um belo
desenho do rosto de Freud, o que não significa que minha reverência
à sua genialidade me impeça de discordar de algumas de suas
afirmações. Lembrei-me também de que em uma discussão
com seu discípulo W. Stekel, Freud irritado chamou-o de “pigmeu”.
Ao que ele retrucou que um anão sentado nos ombros de um gigante
pode enxergar mais longe do que o mestre.
Quando estava estudando para ser psicanalista me afligia a quantidade
de tempo que era dedicada a rever idéias que em nada me ajudavam
na hora em que me encontrava com meus clientes no consultório.
Foi acalentador ouvir falar de autores como Wilfred Bion e Emilio Rodrigué
que se dispuseram a estudar o funcionamento mental do analista, em vez
de se deter no lugar comum de esmiuçar apenas a mente do analisando.
Constatei na prática a imensa utilidade de aprender a fazer minha
cabeça trabalhar de forma a ser mais eficiente em minha tarefa,
em vez de ficar teorizando incessantemente sobre as vicissitudes emocionais
de meus clientes.
Depois, aos poucos, fui aprendendo que muito mais importante do que conhecer
as neuroses de meus clientes era ajudá-los a aprender como administrá-las,
neutralizá-las e com elas conviver. Em vez de me deter discutindo
minúcias do pensamento de um gênio falecido há tanto
tempo, prefiro tentar aplicar e desenvolver outras formas de ajudar as
pessoas que me procuram e que em mim confiam.
Estou sempre em busca de novos instrumentos para melhor exercer meu trabalho
e não tenho nenhum interesse em privilegiar uma teoria sobre outra,
quero usá-las todas para minha atividade diária. Esta forma
de encarar meu ofício tem me levado a investigar as mais diversas
formas de abordagem dos problemas mentais e emocionais das pessoas na
busca de ampliar as ferramentas de que disponho para melhor exercer minha
profissão.
Como conseqüência, freqüentemente tenho sido levado a
discordar de atitudes tradicionalistas de colegas apegados à maneira
de trabalhar que aprenderam e que continuam a praticar, sem se disporem
a ampliar seus conhecimentos. É triste constatar que a psicanálise
se dividiu em escolas, correntes, igrejinhas, cada uma delas se proclamando
a única, a verdadeira, a melhor e desvalorizando os que não
a segue.
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