| "A questão é que os
analistas desenvolveram a tese de que é importante estudarmos
e compreendermos nossas neuroses, fobias, mazelas psíquicas
para melhor combatê-las e curá-las. Minha experiência
me leva a duvidar desta afirmativa" |
No texto anterior (clique
aqui), disse: a psicanálise – entre outras
coisas – está a serviço do analisando e não,
como usualmente a vemos, a serviço da própria teoria
psicanalítica. |
Através de uma história vivida com um paciente, apenas
em uma única entrevista, expliquei como podemos usar nossa experiência
e sensibilidade de psicanalistas para ajudar as pessoas sem ter que submetê-las
a um penoso processo de longas sessões, várias vezes por
semana durante anos a fio.
Contei esta história num curso para estudantes de psicanálise.
Neste momento uma aplicada aluna me questionou. Afirmou que eu o havia
privado de compreender a sua fobia. E aqui chega o ponto importante, um
dos acontecimentos que me levaram a escrever esta série de artigos.
Fiquei muito impressionado com o furor curandis – a fúria
curativa - de minha aluna, e a identifiquei com uma ideologia psicanalítica
que reza que psicanálise é sempre, ou quase sempre, o melhor
remédio.
A meu ver a maioria dos analistas aceita, sem perceber com muita clareza,
a crença na psicanálise como panacéia universal para
as dificuldades emocionais. E mais, esta psicanálise deveria dedicar-se
quase que exclusivamente à detalhada observação das
piores características do analisando. Combater estas crenças
psicanalíticas é um dos objetivos de meus escritos.
Em minha opinião, meu cliente não estava interessado em
compreender sua fobia, mas em se livrar dela ou, pelo menos, fazê-la
retornar aos níveis suportáveis com os quais havia com ela
convivido durante anos. A meu ver, o que aconteceu após a entrevista
prova que eu tinha razão. Embora alguns psicanalistas possam argumentar
que eu o influenciei a se conformar com sua fobia e se desinteressar por
estudá-la, devo dizer em minha defesa que, durante anos, enquanto
sua fobia não o incomodou, ele nunca se interessou por estudá-la.
E se ele se interessasse por este estudo poderíamos levá-lo
adiante.
Grave, porém, é o fato de que um analista, nessa situação,
poderia usar da sua ascendência sobre o cliente para convencê-lo
da importância de fazer análise e investigar minuciosamente
sua fobia. Meu prognóstico é de que nesse caso a análise
se arrastaria por alguns custosos anos (custosos para o cliente, é
claro) e, enquanto ela durasse, seria importante que a fobia não
desaparecesse para justificar a razão de ser desse processo psicanalítico.
Ou seja, desconfio que o sintoma que desencadeia uma psicanálise
tende a se perpetuar, para garantir a sobrevivência dessa mesma
análise em função do desejo do cliente de agradar
seu psicanalista e preservar a análise.
Uma transferência mal trabalhada, mas sedutora para o analista desavisado.
A questão é que os analistas desenvolveram a tese de que
é importante estudarmos e compreendermos nossas neuroses, fobias,
mazelas psíquicas para melhor combatê-las e curá-las.
Minha experiência me leva a duvidar desta afirmativa. Para início
de conversa, acho que quando alguém procura um psicanalista quer
ajuda para seu sofrimento, quer se curar. Só vai aceitar se engajar
num longo processo investigativo se for convencido de que este é
o melhor caminho para se livrar de seus males. E este é o peixe
que muitos psicanalistas vêm vendendo desde que a psicanálise
foi inventada: - É preciso tornar consciente o inconsciente para
poder haver a cura.
No início da psicanálise havia um enorme interesse de parte
dos analistas na investigação das vicissitudes das neuroses,
complexos, fobias, etc. Isto provavelmente os levou a acreditar no que
queriam, ou seja, que era necessário todo este processo investigativo
das doenças emocionais para livrar os analisandos de seus padecimentos,
e ajudá-los a atingir a saúde mental. Para nós, analistas
de terceira ou quarta geração, esta atitude foi proveitosa,
nos rendeu muitos conhecimentos. Hoje, penso que já sabemos bastante
para podermos ajudar os que nos procuram sem termos que nos submeter juntos
a um exaustivo trabalho de atenção aos processos emocionais
patológicos.
Voltando ao cliente que me procurou, gostaria de relembrar que ele disse
que queria evitar tomar remédios, pois os considerava tóxicos
e perigosos para a saúde. Sabemos que remédios devem ser
usados com cautela e parcimônia por causa de seus efeitos colaterais
negativos. Todos nós já ouvimos falar das doenças
*iatrogênicas. Gostaria de assinalar aqui que a psicanálise,
como qualquer remédio, tem seus efeitos tóxicos e pode causar
iatrogenia, devendo ser, portanto, usada também com cautela e parcimônia.
*Iatrogenia: geração de atos ou pensamentos a partir da
prática médica Fonte Dicionário Houaiss
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