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No texto anterior, falei sobre o Exercício da psicanálise
a serviço do paciente e não da psicanálise (clique
aqui)
Neste, falarei sobre como encontrei um caminho menos insatisfatório
para tratar meus pacientes.
| "... o único lugar e o único
tempo onde o analista pode oferecer qualquer espécie de colaboração
ao seu analisando é o momento do encontro e a única
coisa a se considerar era o que ocorria neste momento..." |
Meu pai era psiquiatra e psicanalista.
Aos 17 anos fiz, sem saber bem por que, vestibular para a Faculdade
de Medicina. Perambulei pela Cardiologia e pela Clínica Geral,
e no 5º ano de Medicina me encontrei estagiando na Psiquiatria
ainda sem saber por quê.
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O único dado que trazia comigo com clareza era que minha experiência
no ambulatório de Cardiologia me mostrava que mais da metade dos
clientes que lá aportava não sofria de qualquer transtorno
cardíaco, mas sim de perturbações emocionais. Isto
me levou a buscar a Psiquiatria para entender o que se passava com essas
pessoas.
Fiz três anos de residência em psiquiatria e, estimulado
por meu pai, me envolvi em um projeto de me tornar psicanalista. Entrei
para uma das Sociedades filiadas à IPA (International Psycho-analytic
Association, fundada por Sigmund Freud) e depois de sete anos de análise,
e mais cursos, supervisões e trabalhos escritos, me vi graduado
como Psicanalista.
Durante este período, iniciei o meu trabalho como psicoterapeuta.
Datam daí minhas primeiras ansiedades com o desempenho profissional,
preocupado em acolher bem os clientes que a cada dia encontrava no consultório,
pessoas que depositavam confiança em mim. E a cada noite de aulas,
me perguntava como aquilo que eu estava ali aprendendo poderia me ajudar
a atender de forma satisfatória as pessoas que no dia seguinte
lá estariam esperando por mim.
Eu estudava textos teóricos e clínicos, principalmente Freud
e Melanie Klein, em busca de ajuda, mas quando estava com os pacientes
me via tenso, aflito, sentia que o que lia nos livros – e lia muito
– não era suficiente. Conversava com meus supervisores, ouvia
deles palavras de estímulo, muitas até; eles me ofereciam
interpretações mais corretas do que as minhas, me davam
conselhos, descreviam meus clientes melhor do que eu poderia fazê-lo,
acalmavam meus temores de não estar ajudando aqueles que em mim
confiavam, e me tratavam com carinho. Mas isto ainda não era suficiente.
Minha atitude no trabalho era formal e prudente. Tratava meus clientes
com um distanciamento quase britânico, chamava-os de senhor e senhora,
e apresentava-me vestido de paletó e gravata. Considerava que eles
tinham a função de me fornecer material e eu tinha função
de lhes fornecer, em troca, interpretações. Nossas posições
e tarefas estavam muito claramente definidas. Havia em mim insegurança,
mas não questionamento. Acreditava que me tornar melhor analista
era questão de absorver os ensinamentos dos mais experientes, e
não me passava pela cabeça questioná-los, duvidar
deles.
"El Contexto del processo psicoanalítico"
Nesta época caiu-me nas mãos o livro de um genial psicanalista
argentino, Emilio Rodrigué: "El Contexto del processo psicoanalítico".
Foi precioso. Nele, Rodrigué falava da "cozinha da interpretação",
ou seja, dirigir sua atenção e a do leitor para o processo
que ocorria dentro do analista que iria redundar na produção
de uma interpretação. Fiquei fascinado. Nesta mesma época
ocorreu uma experiência transformadora no meu trabalho. Creio que
fruto das minhas supervisões, das minhas reflexões, das
minhas leituras, sucedeu algo que simbolizo numa ocorrência.
Certo dia, tentando formular uma interpretação, disse para
uma cliente: "Isto sugere que..." E ela me interrompeu dizendo:
"Eu sugiro? É, eu sou capaz de dar sugestões!"
Ficou muito empolgada com o que ela tinha ouvido. Anotei na ocasião
o fato de que o meu "isto sugere" tinha sido ouvido por ela
como "você sugere" e registrei também a satisfação
com que ela tinha reagido àquilo que ela havia entendido: eu estar
incluindo a pessoa dela no processo de produção da psicanálise.
Só meses depois, pude perceber que na verdade ela havia apontado
uma questão essencial: o fato de que quando terapeuta e cliente
trabalham juntos, se ajudando mutuamente, melhor este processo pode evoluir.
Nesta época em São Paulo chegou Frank Philips, como um arauto
de Wilfred Bion. Philips era um inglês que havia vivido no Brasil
anos antes e falava bem nossa língua. Ele voltara para a Inglaterra
onde se formou psicanalista tendo sido cliente de Melanie Klein e depois
de Bion. Wilfred Bion, por sua vez, havia feito sua formação
com Mrs. Klein e depois desenvolvera ideias próprias muito originais
sobre a prática da psicanálise.
Segundo nos mostrou Philips na época, Bion desenvolvera reflexões
fascinantes sobre a importância de rever o conceito de transferência
assinalando o dado essencial do "aqui e agora", e também
a questão fundamental da postura do terapeuta, uma primeira referência
a uma ideia hoje clássica de o psicanalista trabalhar "sem
desejo, sem memória". Quanto ao "aqui e agora transferencial",
Philips trazia a formulação bioniana de que o único
lugar e o único tempo onde o analista pode oferecer qualquer espécie
de colaboração ao seu analisando é o momento do encontro
e a única coisa a se considerar era o que ocorria neste momento.
Qualquer comunicação oriunda do analisando seria olhada
sob a luz de “o que quer isto dizer para nós, aqui e agora”.
Em outras palavras, a pergunta era sempre "por que esta pessoa vem
até aqui me comunicar neste momento o que acabou de fazer"
ou "fazer isto que ele acabou de fazer". A transferência,
segundo Bion, passava a ser um fio condutor para a percepção
do analista sobre o processo terapêutico. Quanto à questão
da postura do analista, ele enfatizava que a memória distorce os
fatos e é sensorial, sua presença a cada momento funciona
como uma superposição sensorial que nos atrapalha a percepção
do aqui e agora.
Assinalava ainda a importância de nos vermos livres de todo e qualquer
desejo, principalmente em relação ao cliente e ao processo
psicanalítico, porque qualquer desejo do analista torna-se um ponto
fraco através do qual pode atuar a resistência do analisando.
Experimentei a disciplina bioniana; os resultados me fascinaram. Vi evoluções
e progressos no meu trabalho que só pude qualificar de espantosos.
Minha visão da relação com os clientes se transformou
por completo, sentia que me tornara muito mais capaz de perceber os movimentos
emocionais que ocorriam. Ao tentar me isentar do desejo e da memória
– principalmente, como dizia Bion, do desejo de curar ou mesmo de
entender o meu analisando – ficava, quanto mais conseguia desenvolver
esta disciplina, mais livre para exercer a tarefa de psicanalista. Acho
importante reafirmar aqui que não tenho nenhuma pretensão
de estar mostrando o caminho da verdade; apenas conto como encontrei um
caminho que para mim foi menos insatisfatório.
Depois veio o contato pessoal. Em 1973, Bion chegou a São Paulo
para uma série de oito palestras. Já na primeira nos confundiu
ao afirmar que o medo que o analista sentia durante uma sessão
psicanalítica era sinal de que estava ocorrendo alguma coisa valiosa.
Para mim, a mensagem de Bion foi uma afirmação de que o
medo que podemos sentir durante uma sessão não é
um sinal vermelho; pelo contrário, é um sinal verde. E isto
foi transformador.
Ao longo do tempo, estes ensinamentos foram me levando a uma reflexão
sobre a prática psicanalítica que se me afigura muito similar
ao aprendizado do discípulo do mestre Zen. Por exemplo, a arte
do arqueiro Zen consiste em atingir o alvo sem fazer pontaria, ou seja,
esquecer completamente da meta e sua intenção de atingi-la;
a meta é apenas a perfeição da integração
consigo mesmo ao exercer uma tarefa. Creio que esta é outra formulação
para o que nos diz Bion acerca de evitar consciente e disciplinadamente
desejo e memória durante o trabalho. Como ilustração,
pretendo oferecer alguns momentos de meu trabalho no meu próximo
texto a ser publicado aqui.
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