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| "Na medida em que pratico
a disciplina de não ter memória, nem desejo, principalmente
o desejo de entender o que está se passando, percebo que cada
momento do meu trabalho se processa num mergulho na escuridão
e na confusão. Quando consigo suportar o desconfortável
estado de dúvida e de ignorância a que me permito ser
atirado pelas manifestações dos meus clientes durante
a sessão; quando deixo que este estado se apodere de mim e
me concedo a possibilidade de conviver com ele o tempo suficiente,
em algum momento emerge alguma espécie de luz, de percepção.
Esta acaba por tomar a forma de uma interpretação, da
qual primeiro me dou conta, e a qual depois consigo, de alguma maneira,
formular para meus clientes do jeito mais claro que me é possível.
E isto é, para mim, fazer psicanálise" |
Como prometi no artigo anterior (clique
aqui), pretendo agora apresentar um fragmento de uma
sessão de psicanálise, neste caso uma sessão
de terapia de grupo. Durante ela, assinalo para meus clientes que
estou percebendo uma ênfase muito grande posta naquilo que cada
um considera como doentio ou, pelo menos, como defeito seu. |
Comento que estão valorizando mais seus defeitos do que suas
qualidades; sua doença do que sua saúde. Acrescento que
me parece que uma das causas desse fenômeno é o fato de que
eles vêm procurar a psicanálise com queixas das quais pretendem
se livrar (curar), em vez de se ocuparem com qualidades a serem desenvolvidas.
Um deles refere-se a uma crise de angústia que teve após
a sessão anterior, similar a muitas que havia tido durante muito
tempo, mas que há mais de 6 meses não tinha nenhuma. A peculiaridade
dessa crise é que ela surgia sob a forma de um medo de enlouquecer
e diminuía quando ele sentia que estava acompanhado de alguém.
E sublinhava o fato de que a solidão o assustava sobremaneira.
Sugeri que suas palavras deixavam entrever a ideia de que ele se via como
portador de uma loucura que contaminava a sua sanidade mental. E me parecia
que a importância de uma pessoa próxima é que essa
poderia tomar conta de sua sanidade mental, ou contê-la, enquanto
ele ficasse envolvido com a doença, assim protegendo a saúde
de ser contaminada ou destruída pela loucura.
Ele confirmou que a ideia fazia muito sentido e perguntou: "Mas o
que posso fazer para me livrar disso?"
Disse-lhe ter a impressão de que uma boa parcela da sua dificuldade
era gerada pelo medo de enlouquecer o qual associei com o medo de andar
de avião, e o sentimento de que ele deveria fazer alguma coisa
para o avião não cair.
Nesse momento me ocorreu dizer-lhe que ele só poderia se livrar
do medo da loucura, se aceitasse a loucura como um possível destino.
Assinalei a semelhança entre esse medo da loucura e o medo da morte.
Acrescentei ainda que tal medo deveria ter se instaurado primitivamente
dentro dele e que me parecia haver nele uma forte crença de que
o seu destino era enlouquecer. Ele concordou e perguntou: "Mas como
eu posso fazer para não ter medo da loucura?" Essa pergunta
era um progresso em relação à atitude anterior de
ficar curioso sobre a origem da crença em vez de combatê-la.
Enquanto isso os outros ouviam atentamente e faziam comentários
que mostrava a identificação deles com esse membro do grupo,
o qual se apresentava naquele momento como porta-voz de uma angústia
partilhada por muitos. Resolvi contar-lhes então uma historieta
Zen.
Conto zen
"Um professor de luta de espada foi contratado por um chefe militar
para ensinar seus soldados. Quando um desses soldados procurou-o para
ter aulas o mestre lhe disse: ‘Vejo que o senhor já é
mestre. Gostaria de saber qual a sua escola antes de começarmos
a nossa relação mestre/discípulo.’ O soldado
afirmou que não era mestre e nunca havia aprendido nada sobre luta
de espada. O professor então lhe disse: ‘Aceito sua palavra
como verdadeira, mas se o senhor não é mestre de espada,
de alguma coisa o senhor é mestre; meus olhos jamais me enganam
quanto a isso.’ O guarda após pensar um pouco lhe revelou:
‘Creio que há uma coisa na qual me considero um mestre. Quando
eu era criança e desejava me tornar um soldado, me ocorreu que
para ser um bom soldado eu não poderia temer a morte em nenhuma
circunstância. Durante muito tempo lutei com o medo de morrer e
a ideia da morte, e creio que cheguei e me tornar um mestre na arte de
não ter medo de morrer. Talvez seja isso a que o senhor se refere.’
E o velho mestre ouvindo essa revelação exclamou: ‘Exatamente,
o segredo último da arte da espada é se libertar da ideia
da morte!’”
Contei esta história para assinalar um possível caminho
para meus clientes, mas percebi que naquele momento ela brotava de mim
em função do fato de que eu estava ali procurando viver
a arte de não ter medo de ser psicanalista, de não ter desejo
de ser psicanalista e assim poder sê-lo (de acordo com uma reflexão
mencionado no artigo anterior), sem o objetivo de atingir metas ou alvos,
mas com a proposta de me encontrar comigo mesmo através de uma
tarefa. De uma forma mais ampla creio que estou me propondo com isto a
me tornar mais e mais capaz de exercer a arte de viver e também
de transmitir àqueles que me procuram, como psicanalista, alguma
coisa sobre esta arte em que tento todo dia me aperfeiçoar.
Na medida em que pratico a disciplina de não ter memória,
nem desejo, principalmente o desejo de entender o que está se passando,
percebo que cada momento do meu trabalho se processa num mergulho na escuridão
e na confusão. Quando consigo suportar o desconfortável
estado de dúvida e de ignorância a que me permito ser atirado
pelas manifestações dos meus clientes durante a sessão;
quando deixo que este estado se apodere de mim e me concedo a possibilidade
de conviver com ele o tempo suficiente, em algum momento emerge alguma
espécie de luz, de percepção. Esta acaba por tomar
a forma de uma interpretação, da qual primeiro me dou conta,
e a qual depois consigo, de alguma maneira, formular para meus clientes
do jeito mais claro que me é possível. E isto é,
para mim, fazer psicanálise.
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