| Como venho narrando aqui neste espaço,
minha experiência profissional progrediu na medida em que aos poucos,
fui desenvolvendo e trabalhando uma visão crítica de todo
o arcabouço teórico que me havia sido ensinado. Aprendi
muito com meus próprios analistas, que me diziam: “Seja você.
Procure o seu jeito de ser, sua forma de trabalhar, procure por onde você
é mais produtivo, criativo, procure seu lado bom.” E me dei
essa liberdade de investigar em vez de ficar preso a simplesmente repetir
o que eu havia até então absorvido. E também me poupei
de imitar o meu psicanalista o que era uma moda na época que fiz
formação. Bastava conversar meia hora, às vezes dez
minutos, com uma pessoa e já se sabia quem era o analista dela.
Quase todos eram uma imitação – ridícula, às
vezes – do seu próprio analista. Alguns analistas fumavam
cachimbo, e diversos analisandos fumavam cachimbo do mesmo jeito que seu
analista. E por aí afora...
| " 'Em todo consultório deve
haver duas pessoas bastante assustadas; o paciente e seu psicanalista.
Se eles não estiverem, ficamos a nos perguntar porque eles
estão se importando em descobrir o que todo mundo sabe?' Devem
estar com medo, porque lidam com coisas que não sabem. E coisas
assustadoras mesmo: o fundo da alma humana" |
Ao longo do tempo, percebi que eu estava ficando
muito diferente daquilo que tinha aprendido na Sociedade de Psicanálise.
Lembro-me de dois incidentes. Um deles, foi o dia que um cliente meu
saiu do meu consultório e eu fiquei olhando ele saindo e pensando:
“Pôxa! Esta sessão foi legal. A gente viu coisas
interessantes, a gente aprendeu coisas sobre ele, mas não tinha
nada a ver com a psicanálise que me ensinaram. Eu estou fazendo
uma outra coisa aqui.” |
E outra vez, foi quando uma cliente minha, que tinha vindo de outro analista,
ao final de uma sessão se levantou risonha e disse: “Ah!
Eu gosto tanto de vir aqui porque o meu outro analista só ficava
falando dos meus defeitos, e eu saia de lá deprimida. E você
fala das minhas qualidades, eu saio daqui contente.” Fiquei me perguntando:
“Será que isso é bom? Ela está contente, mas
será que isso está fazendo bem a ela?” Estava sempre
a me interrogar essas coisas e observava para ver se estava fazendo mesmo
bem a ela, ou não. E pensava: “Por que eu estou fazendo isso?
Por que eu estou seguindo esse caminho? O que quer dizer isso?”
Foi uma época de muita indagação sobre o meu processo,
eu fui fazer análise de novo por conta disso, balancei, tive muitas
dúvidas.
Psicanálise e medo
Mas sempre me lembrava do que eu tinha ouvido de *Bion, em sua primeira
palestra em São Paulo, na primeira vez que ele veio ao Brasil (a
reprodução está no livro “Conferências
brasileiras - número um”, editado pela Imago). Em determinado
momento, ele disse: “Em todo consultório deve haver duas
pessoas bastante assustadas; o paciente e seu psicanalista. Se eles não
estiverem, ficamos a nos perguntar porque eles estão se importando
em descobrir o que todo mundo sabe?” Ele propunha fazer uma sessão
de análise pra saber o que a gente ainda não sabe, e não
para repetir o que já sabe.” Esta era minha referência;
procurar o que eu e o meu cliente ainda não sabíamos.
A meu ver, nós, psicanalistas, estávamos nessa época
– e acho que até hoje – investigando um terreno extremamente
vasto, obscuro, confuso, e angustiante. Assustador (frightening), como
dizia Bion. Você tem duas pessoas com medo dentro do consultório:
o analista e o cliente. Devem estar com medo, porque lidam com coisas
que não sabem. E coisas assustadoras mesmo: o fundo da alma humana.
E o que vem lá de dentro? Nós sabemos que o homem é
um animal feroz. Então, o que dois seres ferozes estão fazendo
trancados dentro de uma sala? Há um elemento assustador nisso que
não se pode ignorar. Só podemos desconsiderar essa questão
quando estamos trabalhando muito superficialmente: “Ah, você
sonhou com isso? Isso quer dizer aquilo, você está querendo
matar o seu pai, matar a sua mãe, ou transar com outro, ou vice-versa.”
Não estou desmerecendo Freud, afinal ele inventou minha profissão...
E, falando sério, reconheço sua genialidade, a questão
edipiana é uma percepção maravilhosa e muito verdadeira.
Porém é apenas um pequeno pedaço em relação
a todo o conteúdo da alma humana.
Com mais um texto, onde vou falar da outra mudança crucial em minha
forma de trabalhar terminarei esta série de artigos que já
se alonga por meses. Depois voltarei a insistir no tema que a meu ver
é o mais fundamental para o processo psicoterapêutico –
a auto-estima.
*Bion: psicanalista britânico
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