| "Uma abordagem mais
moderna do processo psicanalítico o vê como um aprimoramento
em vez de tratamento, entende que as pessoas têm dificuldades e
não doenças, aceita que o processo tem um momento de interrupção
decidido pela conveniência do cliente em vez de pensar em uma alta
resolvida autoritária e unilateralmente pelo analista"
Existe uma expectativa disseminada em nossa cultura de que a psicanálise
seria um método de entender porque um indivíduo apresenta
problemas emocionais e quais os fatos de seu passado que contribuíram
para isto. E que esta compreensão geraria uma cura dos problemas
emocionais chamados de neuroses. Penso que esta era a crença inicial
dos psicanalistas e que ela se instaurou porque havia um grande desejo
por parte deles de investigar a origem dos distúrbios emocionais.
Tal desejo os levou a acreditar que esta averiguação seria
terapêutica. Daí se seguiu o entendimento de que existe a
necessidade de pesquisar o que se passou na vida emocional de uma pessoa
para poder curá-la de seus problemas.
| "É desejável
que a psicanálise, nos dias de hoje, se oriente pela ênfase
nas características emocionais e mentais positivas dos clientes.
Para assim se propor a reforçá-las e, com o auxílio
delas, neutralizar os elementos negativos que geram sofrimentos e
dificuldades existenciais" |
Por vezes, um novo cliente chega ao meu consultório
falando de seu interesse em aprender de onde, em sua vida, se originaram
seus problemas, querendo saber o quando o como e o porquê de
suas dificuldades. Costumo responder que ele precisa escolher se quer
saber sobre a origem dessas dificuldades ou se prefere resolvê-las.
É claro que todos optam pela solução e não
pela investigação. |
Então proponho que focalizemos nossa atenção e nossos
esforços nesta segunda proposta, deixando a compreensão
em segundo plano.
A tendência moderna da psicanálise é praticar uma
forma de terapia que privilegia o analisando e não os interesses
subconscientes do analista. O foco está em melhorar, da forma mais
imediata possível, a situação do cliente. Usam-se,
para tanto, os conhecimentos dos processos humanos de funcionamento mental
a partir das observações de Freud e de todos os analistas
que se seguiram e fizeram contribuições à sua obra.
Origem médica
Freud, o criador da psicanálise era médico, da mesma forma
que a maioria de seus primeiros discípulos. E eram médicos
do fim do século 19 e do princípio do século 20,
o que particulariza a forma como eles viam a presença da medicina
na vida das pessoas. Esta origem médica da psicanálise fez
com que a terminologia inicialmente utilizada para falar do assunto estivesse
carregada de expressões e conceitos médicos. Esta é
a razão pela qual os psicanalistas costumavam – e alguns
ainda costumam – usar palavras e principalmente conceitos tais como
cura, tratamento, doença, alta quando se referem ao processo psicanalítico,
ainda por cima chamando seus clientes de “pacientes” como
costumam fazer os médicos. Isto mostra que a ideologia em ação
para lidar com a investigação dos processos de funcionamento
da vida emocional humana era a mesma maneira como os médicos encaravam
o procedimento frente a seus pacientes.
Uma abordagem mais moderna do processo psicanalítico o vê
como um aprimoramento em vez de tratamento, entende que as pessoas têm
dificuldades e não doenças, aceita que o processo tem um
momento de interrupção decidido pela conveniência
do cliente em vez de pensar em uma alta resolvida autoritária e
unilateralmente pelo analista. E acredita que o cliente sempre pode continuar
a melhorar como pessoa e que, portanto, neste sentido não se pode
falar em cura, já que não há doença nem tratamento.
Esta maneira de ver o processo psicanalítico o afasta da conceituação
médica em voga há cem anos, na época de Freud, e
o aproxima da visão atual da medicina. Isto porque hoje em dia
a medicina já vê de outra forma o processo de intervenção
na saúde de seus pacientes. Enquanto antigamente, na medicina ocidental,
o foco era quase que exclusivamente o tratamento das doenças, hoje
em dia existe um grande investimento na tendência a aprimorar a
saúde das pessoas para evitar que elas adoeçam ou para fazer
com que estejam em melhores condições para enfrentar as
doenças e suportar, com o máximo de vigor, o peso da idade.
Esta ênfase na medicina preventiva, tradicional na medicina oriental,
vem se desenvolvendo ao longo das últimas décadas. Testemunhos
disto são as recomendações médicas acerca
da importância de se evitar o excesso de peso e de se praticar regularmente
exercícios físicos juntamente com a preocupação
com o vício de fumar e o abuso das drogas, principalmente o álcool
que embora entre nós seja uma droga lícita – ou talvez
por isso mesmo – é a droga que causa mais problemas à
saúde pública.
A meu ver, é desejável que a psicanálise, nos dias
de hoje, se oriente pela ênfase nas características emocionais
e mentais positivas dos clientes. Para assim se propor a reforçá-las
e, com o auxílio delas, neutralizar os elementos negativos que
geram sofrimentos e dificuldades existenciais. Uma pessoa que desenvolve
auto-estima e autoconfiança constrói uma personalidade mais
robusta e por isto mais capaz de enfrentar e dissolver suas hesitações,
ansiedades, depressões e demais dificuldades emocionais.
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