| Há uma pergunta
que se repete com freqüência em entrevistas iniciais. O diálogo
abaixo – fictício – ilustra como costumo trabalhar
essa pergunta com um candidato a tratamento psicanalítico, que
chamarei de Haroldo.
HAROLDO: — Mas, afinal, doutor, eu PRECISO ou não de análise?
LC: — Haroldo, análise não é para quem precisa,
é para quem está com vontade de fazer.
PACIENTE: — Como assim?
LC: — Não creio haver uma só pessoa neste planeta
que, tendo vontade de investir no processo de ampliação
da própria mente em que consiste a experiência psicanalítica,
não obtenha ganho com isso, mesmo que não esteja apresentando
nenhum distúrbio psicológico de maior gravidade; por outro
lado, pessoas com graves distúrbios psicológicos e que poderiam
tirar muito maior proveito dessa experiência, se não estão
dispostos a investir nela, nunca terão acesso a esse proveito.
PACIENTE: — E quando, como eu, a pessoa não acredita que
esse ganho seja possível.
LC: — O processo psicanalítico não requer crença,
requer apenas o “benefício da dúvida”.
PACIENTE: — O que é isso?
LC: — Lhe explico. Você precisa ACREDITAR em um antibiótico
para que ele funcione?
PACIENTE: — Claro que não!
LC: — Basta, não importa por qual via, INGERI-LO, certo?
PACIENTE: — Certo.
LC: — Então, se um indígena que “não
acredita em remédio de homem branco”, aceitar, ainda que
fazendo pouco, tomar um antibiótico contra uma determinada infecção,
vai fazer tanto efeito nele quanto faria em um “homem branco”
que acredita nesse tipo de medicamento, não é assim.
PACIENTE: — Sem dúvida.
LC: — O mesmo ocorre com a Psicanálise. Se você, mesmo
não acreditando nela, lhe dá o “benefício da
dúvida” e se dispõe a investir no processo, ela irá
funcionar tanto quanto funciona em alguém que a priori, tem confiança
nela. Lembro-me de um paciente hipocondríaco – o mais hipocondríaco
de todos que já atendi – que duvidou inicialmente de que
poderia ter alguma utilidade fazer o que eu lhe indiquei; entre outras
coisas, detalhar, dizendo nomes, as situações de doença
que ele temia. Mas deu-me o “benefício da dúvida”
e tentou. Livrou-se da hipocondria e, tendo “pago para ver”,
descobriu a eficácia da Psicanálise. Quando partimos para
tratar de outros sintomas, investiu na análise porque sua experiência
anterior já lhe demonstrara a eficiência da técnica
e não meramente por me estar dando o “benefício da
dúvida”.
PACIENTE: — Tudo bem, vou lhe dar o “beneficio da dúvida”.
Quero tentar.
LC: — Combinado. Poderíamos nos encontrar então blá,
blá, blá, blá, blá, blá...
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