| Minha outra mudança se manifestou
simbolicamente (mas não tanto) quando passei a chamar os pacientes
de clientes. Foi um sinal de meu afastamento da ideologia médica
infiltrada na psicanálise que se traduzia pelo uso constante dos
conceitos de “paciente”, “tratamento” “doença”,
“neurose”, “trauma” e “cura”.
Bion certa vez me disse; “Você não pode curar uma pessoa
de ser quem ela é”. Entendi que podemos ajudar cada pessoa
a ser uma ela mesma melhor. Podemos nos dedicar a maximizar suas qualidades,
neutralizar seus defeitos. Podemos ajudar muito, mas não se pode
transformar a pessoa em outra.
Com esses elementos em mente, ao longo de 20, 30 anos, fui construindo
a minha visão do processo psicoterápico. Prefiro chamar
meu trabalho de terapia, ao invés de psicanálise, porque
esta sempre foi muito rígida em suas definições.
Aliás, rígida de uma maneira assustadora. Certa vez recebi
um documento da Sociedade Internacional de Psicanálise
– a IPA – definindo o que seria psicanálise. Era mais
ou menos assim:
“É um processo que tem sessões de 45 a 50 minutos,
três a cinco vezes por semana”. O que quer dizer isso?
Basta você sentar com uma pessoa e ficar três vezes, cinco
vezes por semana e está fazendo psicanálise? É a
investigação do inconsciente? Definição pobre.
Nessa altura, eu já estava revendo de uma forma muito crítica
essas coisas todas que havia aprendido.
Percebi que havia algo de muito dogmático: nesse mar tormentoso
e confuso, muitos se agarram na tabuinha de salvação dos
conhecimentos aprendidos e nela ficam grudados. Essa postura levava, em
primeiro lugar, a uma dificuldade muito grande de expandir conhecimento,
de ser criativo. E depois, a uma tendência a ficar dogmático,
em relação ao já sabido. Nosso conhecimento é
tão pouco e é lamentável ficar agarrado a esse pouco
de uma forma rígida, um empecilho ao progresso.
Autoridade
Por força de elementos da minha formação, sempre
fui, como estudante, muito irreverente. Creio que por ter uma relação
muito boa com meu pai, eu não sentia medo da autoridade.
Fui trabalhar no Instituto de Psiquiatria, como acadêmico
residente, depois fui médico residente. O professor Leme Lopes,
era temido pelos residentes, mas eu o achava uma pessoa normal, como todo
mundo. Falava com ele de igual para igual. Certo dia, fui de camiseta
para a aula, todo mundo de jaleco, e só eu de camiseta. E os colegas
assustados: “Como é que você vai ficar de camiseta?”
Quando chegou, ele me perguntou: “Cadê o seu jaleco?”
Respondi: “Olha, professor, eu estava com pressa de vir assistir
a sua aula e não deu tempo.” Ele achou graça, não
ligou para aquilo. Não era aquela fera, aquele bicho-papão
monstruoso. E eu o sentia assim.
Eu tinha sempre essa relação com as autoridades. Sem receios
e questionando muito, era mesmo irreverente, na faculdade ou na sociedade
de psicanálise. Como meu pai era psicanalista, eu conhecia o psicanalista
em sua intimidade, ou seja, sabia que ele era uma pessoa imperfeita, tinha
seus defeitos, erros, dificuldades, enfim, eu sabia que ele era humano.
Isto me ajudou a evitar desenvolver uma atitude de reverência que
era muito freqüente entre os analisandos. Eu não tinha para
com os psicanalistas aquela postura que via em amigos, colegas de aceitação
irrestrita da palavra de seu analista como se qualquer coisa dita por
ele fosse vinda de Deus. Cada um deles era um Moisés,
com as tábuas da lei debaixo do braço, cantando aquelas
verdades reveladas.
Verdades
Aliás, este tema de “verdade revelada” é interessante,
pois há dois tipos de verdades: as reveladas e as conquistadas.
Verdade revelada é aquela que vem de Deus. Deus falou que é
assim, acabou o assunto. Da mesma forma, testemunhei nas Sociedades
de Psicanálise um clima de dogma religioso: o psicanalista
falou, é a verdade revelada, a gente obedece e está acabado.
Em contraposição, a verdade conquistada depende de um esforço
de pesquisa, de observação, de uso de método científico,
etc. Particularmente, prefiro confiar no que fui descobrindo aos poucos,
ao longo do tempo. O fato de se estar menos preso aos dogmas facilita
que se façam experiências, se pesquise e não se aceite
tudo já pronto. Erra-se muito, mas é errando que se aprende.
Eu sentia medo e pensava que devia estar fazendo alguma besteira, estava
tão distante do que havia aprendido, e do que os outros estão
fazendo.
O que me animava era o questionamento: “Por que não olhar
para o resto da alma humana, ao invés de ficar só preso
às queixas, às doenças?” Evidentemente, quando
um cliente procura um analista, ele o faz por que está sofrendo.
Mas, não basta ficar mexendo naquela ferida, entendendo por que
aquilo está incomodando, de onde veio isso. Como fazer para resolver
esta questão? Aprendi, quando trabalhei em Pronto-Socorro, que
na hora em que uma pessoa chegava toda machucada eu não ia perguntar
se era automóvel ou caminhão que a havia atropelado, ou
qual era a cor do caminhão. Minha tarefa era ver o que estava quebrado
e consertar. Procurar culpados era um problema do policial de plantão.
Eu sentia muita falta de encontrar na psicanálise esse tipo de
abordagem: buscar melhorar em vez ficar fuçando o passado, procurando
a origem, a história da doença, como era a preocupação
ancestral dos primeiros psicanalistas que queriam descrever os quadros
clínicos. Penso que eles estavam mais interessados em descrever
do que em ajudar a pessoa.
Psicanálise da saúde
Esse foco foi me levando a dar muito mais importância a fazer a
psicanálise da saúde, do que a psicanálise da doença.
Até hoje, muito freqüentemente novos clientes chegam ao meu
consultório e afirmam que vieram saber o porquê de seus problemas
emocionais. A eles respondo com uma pergunta: “Você prefere
saber o porquê ou resolver o problema”. Muitos respondem surpreendidos:
“Mas não precisa saber o porquê para resolver?”
Percebe-se o quanto está disseminada a idéia da importância
da investigação e sua quase predominância sobre a
proposta de resolver a dificuldade.
Pretendo, nos próximos artigos, voltar a tratar do tema auto-estima,
para mim a questão mais fundamental na psicoterapia.
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