| MIGUEL:
— Você está me achando chato?
LC: — Posso?
MIGUEL: — Não. Claro que não?
LC: — Por quê?
MIGUEL: — Ué, porque não! Eu não
me sinto bem com a idéia de que você está me achando
chato!
LC: — E você acha que essa análise
irá sobreviver se você quiser optar por só ter, durante
as sessões, idéias cujo conteúdo faz você se
sentir bem?
MIGUEL: — Não vai dar certo, né?
LC: — Não, não vai.
MIGUEL: — Mas eu vim aqui para me sentir bem, não
para me sentir mal.
LC: — Você sabe o que acontece, quando você
processa verbalmente uma emoção desagradável?
MIGUEL: — Não.
LC: — Você sente alívio, paz. Esse
é o tipo de PRAZER que se pode legitimamente querer obter de uma
análise. Mas imagino que você também não saiba
qual o tipo de DESPRAZER provocado por você tentar evitar o contato
com uma emoção ou sentimento desagradável.
MIGUEL: — É, não sei.
LC: — Angústia, ansiedade e stress, que,
por vezes, se transmudam em depressão. É disso que você
pode se livrar tendo coragem de enunciar e processar verbalmente vivências
desagradáveis. Já está disposto a enfrentar o incômodo
de pensar que eu estou pensando que você é um chato?
MIGUEL: — Tá. Já. Me convenceu. Libero
você para me achar chato.
LC: — Obrigado.
MIGUEL: — De nada.
LC: — Antes de você continuar, quero acrecentar
alguns comentários ao que conversamos.
MIGUEL: — Tudo bem.
LC: — Quero assinalar dois pontos. O primeiro tem
a ver com o que você acabou de falar: Você me “liberou”
para lhe achar chato. É interessante saber que esse seu comentário
diz respeito a uma das formas em que pode ser descrita a cura, qual seja,
dizendo que o paciente idealmente curado, ou idealmente saudável,
é aquele que liberou o terapeuta para pensar o que ele quiser.
Isso porque, uma vez que o paciente libera o terapeuta, ele, paciente,
sai liberado e não mais precisa ficar na situação
de se impedir de expressar algo, pensando: “Não, se eu disser
isso, ele vai pensar aquilo e eu NÃO QUERO QUE ELE PENSE ASSIM”.
Na verdade, ao querer paralisar a mente do terapeuta, o tiro sai pela
culatra, e é o paciente que fica paralisado. Certamente você
adquiriu um pouco mais de liberdade para os seus pensamentos por me haver
liberado para achá-lo chato. O segundo ponto que quero assinalar
é que nossa cultura tem o pernicioso hábito de propor que
certas emoções e sentimentos NÃO DEVEM SER SENTIDOS,
que sentir raiva é “feio”, sentir ciúme é
“feio”, sentir inveja é “feio” etc., etc.
O que é importante não é sentir ou deixar de sentir
ciúme, inveja ou raiva, o importante é saber se, ao experimentar
esses sentimentos – ou quaisquer outros – é você
que tem ciúme, ou O CIÚME QUE TEM VOCÊ, se é
você que tem inveja, ou A INVEJA QUE TEM VOCÊ, se é
você que tem a raiva, ou A RAIVA QUE TEM VOCÊ.
Em suma: se, ao experimentar essas emoções, você é
avassalado por elas, que passam a comandar sua maneira de agir, ou se
você consegue agir da maneira mais adequada para o contexto em que
você está inserido, a despeito de as estar experimentando.
Aqui, por exemplo, em análise, a conduta adequada é você
falar o que lhe está vindo à cabeça. Se você
pensa, por exemplo, “O doutor deve estar me achando um chato, ENTÃO
VOU MUDAR DE ASSUNTO” é o medo de ser considerado um chato
que está mandando em você. Se você pensa que eu posso
estar achando você um chato, mas considera, por exemplo, “Bem,
isso não é agradável, mas quem mandou ele resolver
ser analista e mandar eu dizer o que vem à minha cabeça?
Vou dizer a ele que estou com medo que ele me ache um chato e, em seguida,
continuar a dizer o que estava dizendo”, então é você
que está mandando no medo, não ele que está mandando
em você.
MIGUEL: — Caramba, gostei de entender isso! Acho
que agora vai ser mais fácil fazer análise.
LC: — Legal.
Para finalizar, aproveitemos o diálogo acima para esclarecer um
princípio da técnica freudiana cuja compreensão é
freqüentemente distorcida. Refiro-me ao princípio de que o
analista deve ser NEUTRO.
Comecemos pelas distorções. A maior delas é confundir
“neutralidade” com “indiferença”, com “distância
emocional”. É um absurdo que um analista se proponha a meta
de NÃO SE IMPORTAR com o que acontece a seu paciente. E, como treinei
vários estudantes e profissionais na técnica freudiana,
sei que vários deles começam sua atividade clínica
fazendo se propondo tal absurdo. Aqui, a meta é aquela que apontamos
no fim de nosso diálogo com Miguel: o analista pode se dar ao direito
de experimentar toda e qualquer vivência que o paciente desperte
nele, mas cumpre ELE TENHA a vivência, não que ELA O TENHA.
Ou seja, se uma emoção MANDA EM MIM, se, por exemplo, me
estou condoendo com a dor de um paciente, posso ser levado a agir de forma
a parar seu sofrimento – para parar o meu! – em um momento
em que o tecnicamente indicado seria permitir que ele experimentasse sua
dor até o fim; se eu, não minhas emoções,
MANDO EM MIM, sou capaz de continuar agindo da maneira tecnicamente correta
a despeito de manter-me capaz de reconhecer que a dor do paciente está-me
atingindo também. A meta da neutralidade, portanto, nada tem a
ver com indiferença.
Posto isso, podemos chegar a uma definição adequada de neutralidade:
“é a capacidade de ouvir de receber de forma IGUALMENTE NATURAL
todo o tipo de comunicação do paciente, agrade ela, ou não,
ao analista”.
Neutralidade, portanto, significa não haver um tipo de TRATAMENTO
PREFERENCIAL, em que as comunicações do paciente que agradam
ao analista são bem acolhidas e as que não agradam são
objeto de rejeição. Talvez, de forma sintética, pudéssemos
definir a neutralidade psicanalítica como:
IMPARCIALIDADE DE ESCUTA.
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