| É evidentemente
inadequado que um analista durma durante a sessão com seu paciente.
Mas, certa feita, acordei com um paciente em pé à minha
frente, bradando:
AMÍLCAR: — Pô, César, você DORMIU durante
a minha sessão!
LC (ainda sonolento): — Hein?
AMÍLCAR: — E RONCOU! Vou embora!
Levantei-me semicambalente e acompanhei-o até a porta, onde, a
despeito de minha patente falha, nos despedimos com um educado aperto
de mão. Lembro-me de haver achado engraçada a situação
e, embora passado, não haver ficado preocupado com ela.
Amílcar chegou pontualmente à sessão seguinte. Deitou-se
no divã e ficou em silêncio. De minha poltrona, eu me surpreendia
ao perceber que ele tinha um sorriso maroto em seus lábios. A situação
manteve-se assim durante uns dez a quinze minutos, quando o paciente saiu
de seu mutismo, inquirindo-me:
PACIENTE: — Sabe de uma coisa?
LC: — Diga.
PACIENTE: — Hoje vim para cá pensando em dar a maior bronca
em você. Pensei em dizer: “Seu f.d.p., que p. é essa
de dormir na minha sessão. Eu estou pagando esta m. e quero atenção
e não blá, blá, blá, blá, blá,
blá...” Mas aí, pensei: aquele f.d.m vai ficar me
ouvindo, se vir que eu estou conseguindo falar fluentemente tudo isso,
vai comentar “Você está conseguindo falar sem dificuldade
coisas que nem todo mundo consegue”, ou, se notar que gaguejo ou
algo assim, vai dizer “Parece que está difícil você
dizer esse tipo de coisa para mim. Tem idéia de por quê?”
Aí pensei: “Sabe de uma coisa? Não tenho o menor saco
para isso. Vou mesmo é falar o que eu estava querendo falar na
última sessão e vamos ver se, desta vez, aquele idiota não
dorme”. O que eu estava querendo que você ouvisse, na última
sessão, era que blá, blá, blá, blá,
blá, blá...
Para analisarmos adequadamente o que ocorreu entre mim e Amílcar,
vou introduzir duas expressões – “ambiente (ou dimensão)
de ocorrência” e “ambiente (ou dimensão) de processamento”
– que não fazem parte do vocabulário cotidiano, mas
que podem ser facilmente esclarecidas.
No episódio acima, “ambiente (ou dimensão) de ocorrência”
diz respeito a eu haver dormido e “ambiente (ou dimensão)
de processamento” diz respeito a minha relação com
Amílcar ser tão claramente capaz de permitir o arejamento
verbal do ocorrido, que ele preferiu considerar como se a bronca tivesse
sido dada e ouvida e dedicar-se a falar sobre o que, desde a sessão
“fatídica”, ele estava querendo falar. Empregando as
expressões que acabo de introduzir, podemos dizer que, no episódio
em pauta, temos um “ambiente de ocorrência RUIM” –
não é adequado que um analista durma durante as sessões
com seus pacientes! – e um ambiente de processamento BOM”
– é adequado que o paciente sinta que o impacto que os fatos
do “ambiente de ocorrência” têm sobre ele serão
bem acolhidos na dimensão verbal da relação.
Ocorre que é muito mais produtivo garantir um bom “ambiente
de processamento”, que permite a dissolução das tensões
geradas no “ambiente de ocorrência”, do que pretender
que este último seja perfeito, o que é simplesmente impossivel.
Esse é um corolário da teoria psicanalítica que a
Pedagogia pouco absorveu.
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