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Favoritismo, vaidade, falta de emoção e individualismo tiram Brasil da Copa 2006
Por Dr. Joel Rennó Jr.
Na semana passada, antes do Jogo contra a Seleção de Gana, eu escrevi um artigo para o Vya Estelar (clique aqui e leia) sobre a minha profunda preocupação em relação ao futuro da Seleção Brasileira nesta Copa de 2006, na Alemanha. Não sou vidente, apenas analiso, com isenção, o comportamento do ser humano. Havia muitas evidências (pelas declarações de todos à imprensa) da fragilidade psicológica de tal grupo, muito diferente do ano de 2002.
Historicamente, quando o Brasil entra como favorito, geralmente há um desastre. Os brasileiros não conseguem lidar com esse tipo de pressão, isso se comprova, facilmente, pela história. Eles parecem se julgar intransponíveis, super-heróis nesses papéis que a mídia e os torcedores lhes deram. Ignoraram até as estatísticas: nossa última Copa, conquistada no Continente Europeu, foi em 1958, na Suécia, ou seja, há 48 anos. Ou seja, seria muito difícil conquista de tal título em terras da Europa.
Embora eu não seja um especialista em futebol, é fácil observarmos, com isenção, vários fatores que interferiram, sim, no resultado desastroso do último e derradeiro jogo contra a França, na cidade de Frankfurt. Não superestimo os méritos da França, o Brasil apenas assistiu à partida, com inércia.
O Brasil perdeu, novamente, para si mesmo, infelizmente. Falta de espírito coletivo, presença de vaidades individuais em detrimento da solidariedade coletiva, rigidez e demora para mudanças técnicas e táticas, ausência de comando e liderança do técnico Parreira - principalmente, para a coesão e união de todos - , além da onipotência e ilusão que parte da mídia global fez para mascarar as mazelas coletivas do time, geraram falsas esperanças a alguns brasileiros. O time vinha apresentando um futebol medíocre, essa é a triste realidade. Apenas contra o Japão, conseguimos ver um esboço do futebol brasileiro.
O técnico Parreira sequer contava com a possibilidade de derrota para a França – além da sua teimosia e conservadorismo excessivo. Ninguém pode ter esse espírito ao longo da vida – um início para o abismo. A equipe brasileira foi displicente, apática, letárgica e sem motivação. Houve, sim, uma falta de concentração e determinação coletivas dos atletas brasileiros para tal jogo. Ficamos indignados pela postura dos nossos craques, nada guerreiros neste último compromisso.
Derrotas e vitórias, é claro, fazem parte da vida de qualquer um. Temos que aceitá-las e conviver com elas. A humilhação e vergonha nunca decorrem da derrota, em si, mas da forma como o Brasil foi eliminado, sem doação, solidariedade e comprometimento em campo. O simbolismo do futebol para o brasileiro é diferente de qualquer outro país do mundo. Os jogadores deveriam ter respeitado e valorizado mais o nosso país. Alguns devem julgar que a Copa do Mundo é apenas mais um evento dentro das suas “vitoriosas e milionárias” carreiras. Talvez, se tivéssemos um grupo mais humilde, formado com jogadores mais vinculados ao país, tivéssemos mais sucesso. No Brasil, não faltam revelações novas de vários talentos, sem dúvida.
As vaidades individuais, a acomodação de determinados atletas renomados, a falta de maior emoção e envolvimento, por parte de alguns atletas que estavam representando 180 milhões de brasileiros, foram fatores decisivos. Com certeza, o Brasil não estava representado pelo melhor que possui no mundo do futebol. Não penso isso apenas agora, após essa vexatória derrota; vocês podem constatar que no meu texto anterior, sobre psicologia no esporte (antes do jogo contra Gana), eu deixei tais pensamentos bem claros.
Com todo respeito à seleção francesa e ao craque Zidane, eles tiveram muita moleza em campo. O Zidane tinha tempo para pensar e agir com comodidade e liberdade. Os jogadores brasileiros estavam foram de sintonia, conformados, não se deslocavam e não corriam em campo para criar os espaços e oportunidades. Alguns não tinham identificação com a nação brasileira naquele momento histórico. Poucos se salvaram, é claro.
Ouvi alguns atletas que se intitularam como líderes do grupo (pelo currículo e história que têm na seleção brasileira), impondo-se como titulares. Porém, em campo, não observei os mesmos atletas assumindo a responsabilidade de liderança durante o jogo, chamando para si a responsabilidade. O jovem time da Argentina, por exemplo, teve muito mais personalidade e garra, foi uma eliminação, ao contrário da brasileira, honrosa.
Um povo para crescer e evoluir precisa de raízes profundas com o seu país. Os europeus, talvez, pela história, cultura, guerras e revoluções sofridas que passaram, se uniram e constituem uma nação de verdade - nos respectivos países de origem. Alguns brasileiros de sucesso, por interesses individuais, sem a preocupação necessária com a miséria e desigualdade alheia, esquecem-se completamente de tais necessidades e interesses significativos. Não se trata apenas de fazer doações materiais e aparecer em eventos ‘sociais’. Falo de outro tipo de atuação e participação. O futebol reflete isso também na nossa vida prática. Grandes jogadores, lamentavelmente, formaram um time pequeno, egoísta e individualista, um antro de vaidades. O fracasso era inevitável e doloroso.
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Dr. Joel Rennó Jr -
Doutor em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP. Coordenador do
Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher-Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP Mais informações clique aqui |