| No Brasil constato um fato muito
intrigante no esporte: Atletas e treinadores consideram os aspectos psicológicos
intervenientes no esporte fundamentais para o sucesso no esporte: concentração,
motivação, controle do estresse e outros, formam um conjunto
de aspectos ou habilidades psicológicas essenciais.
| "...é importante
refletir sobre a seguinte situação: toda vez que uma
derrota acontece, os motivos sempre estão relacionados à
parte psicológica. Mas sabemos que nem sempre a derrota advém
das questões psicológicas, muitas vezes o motivo é
de origem física e/ou técnica e tática" |
Não obstante, atletas e treinadores ao se
depararem com possibilidades de treinamentos e intervenções
para a melhoria de suas habilidades psicológicas, tendem a
rejeitar, desconsiderar e desvalorizar esse tipo de treinamento. |
Sem entrar em maiores detalhes polêmicos e tampouco discorrer sobre
o porquê desses “preconceitos”, proponho 10 passos para
mudarmos essa situação, que entre outras, compromete o rendimento
dos atletas e outros benefícios que a prática esportiva
bem orientada poderia oportunizar.
1º) A psicologia do esporte tem sua matriz de conhecimento
próprio
A psicologia do esporte é um campo de conhecimento independente,
que possui suas teorias, tecnologias, metodologias e características
próprias e devem estar associadas ao esporte em questão.
Em outras palavras, a formação do profissional deve ser
orientada especialmente para a atuação no esporte. Isso
parece muito óbvio, mas na prática não acontece.
Normalmente o que há é a intervenção do profissional
habilitado (psicólogo), mas sem conhecimento em psicologia do esporte
e nesse caso ocorre uma incompatibilidade que gera preconceitos, tensões
e fracasso no trabalho. Ou então, o trabalho é realizado
por alguém sem formação alguma, o que gera uma conseqüência
ainda pior.
2º) O especialista em psicologia do esporte deve saber
sobre o esporte que ele atua
Além do conhecimento especializado é exigência saber
sobre as particularidades do esporte em questão. A experiência
geral sobre a percepção de técnicos e atletas é
rechaçar qualquer atuação de alguém que não
entende sobre sua modalidade e, portanto, não sabe sobre as tarefas
e desafios próprios e concretos que atletas e treinadores têm
de enfrentar. Saber sobre as regras do esporte, técnicas e táticas
utilizadas, entre outros é essencial para uma boa repercussão
do trabalho psicológico.
3º) O especialista em psicologia do esporte deve saber sobre
treinamento esportivo
Treinamento esportivo é um campo de conhecimento muito importante
no esporte. Preparação física, técnica e tática
estão interligadas nesse campo e constituem o foco do desenvolvimento
de teorias e metodologia do treinamento esportivo. Entender sobre planificação
(periodização do treinamento esportivo), didática
de sessões de treinamento, sustenta a projeção do
trabalho psicológico.
4º) A atuação do treinamento psicológico
deve focar a resolução de problemas no local de desempenho
do atleta
O atleta necessita aprender e treinar: sua atuação depende
tanto de seu corpo, como de sua parte psíquica (mental e emocional).
Para isso, treinamentos especializados no próprio local de atuação
são desenvolvidos e aperfeiçoados. Assim sendo, poderíamos
baseado no exemplo do goleiro de futebol, resumir essa atuação.
O goleiro deve treinar psicologicamente associado a suas tarefas em campo,
tais como: controlar as tensões na hora de uma disputa de pênaltis,
como agir para acalmar a equipe no momento de pressão, regular
a excitação nervosa no início de uma disputa importante,
mobilizar a mente para se redimir de uma falha no jogo, regular a ativação
psicofísica (ansiedade) nas intervenções durante
o jogo, etc.
5º) O treinamento psicológico deve ser associado,
multidisciplinar e interdisciplinar
Em um sistema de treinamento a parte psicológica está integrada
em um todo complexo e sofisticado. Em outras palavras, treinamento psicológico
só tem repercussão positiva se há integração
com a preparação física, técnica e tática,
além de relações com as questões biológicas
(saúde do atleta), sociais (comportamento e vivências) e
médicas (clínicas, ex. lesões/ recuperação).
Portanto, o treinamento psicológico é parte de um sistema
único e não deve ser abordado de maneira desconectada. Em
resumo, técnicos, preparadores físicos e demais integrantes
de uma equipe, trabalham juntos com o especialista em psicologia do esporte.
6º) O treinamento psicológico deve ser estendido
aos técnicos e executado também pelos próprios atletas
O treinamento psicológico deve atingir os técnicos. Ou seja,
as exigências psíquicas (motivação, concentração,
controle do estresse, etc.) são peculiares ao trabalho do técnico.
Por exemplo, aprender a ampliar o foco de atenção para a
montagem de uma estratégia ou tática, controlar as emoções
durante uma competição, motivar a equipe e a si mesmo e
outros. Ademais, atletas devem aprender a executar técnicas próprias
(treinamento autógeno) a fim de saberem, por exemplo, relaxarem
para dormir melhor, controlar a excitação antes, durante
e depois da atuação esportiva, mobilizar a concentração
e outros.
7º) O treinamento psicológico deve começar
cedo
No momento em que jovens começam a treinar especialmente as técnicas,
táticas e as capacidades físicas devem também treinar
suas habilidades psíquicas (por ex, concentração).
A exigência psíquica acompanha o jovem atleta desde quando
o mesmo iniciou sua prática esportiva. Lembre-se, treinamento psicológico
não serve apenas para atleta de alto nível.
8º) Habilidades psicológicas melhoram com treinamento
físico, técnico e tático de qualidade
Muitos atletas (principalmente os campeões) afirmam que não
precisam e nunca precisaram de treinamento psicológico. Isso acontece
por que de fato, quando o atleta está bem física, técnica
e taticamente, conseqüentemente seu estado psíquico (mental
e emocional), repercute positivamente. Em outras palavras, ele fica motivado,
concentra-se facilmente, fica relativamente tranqüilo, pois sabe
que está em forma e tudo o mais.
Esse fenômeno ocorre porque os seres humanos são unos, a
idéia da dualidade corpo e mente está superada. Como escrevemos
em textos anteriores, tudo aquilo que acontece com meu corpo, tem conseqüências
psíquicas e tudo que acontece com meu psiquismo tem conseqüências
corporais. Mesmo assim, se esses atletas em plena forma somassem a essa
condição o treinamento psicológico, eles teriam um
desempenho ainda melhor.
9º) O treinamento psicológico deve fazer parte do
planejamento da preparação do atleta
Os atletas de qualquer modalidade iniciam a preparação esportiva
com antecedência planejada em relação ao início
da competição. O treinamento psicológico deve estar
contido nesse planejamento desde o início do processo de treinamento
e não apenas semanas ou momentos antes do início da disputa
esportiva. Chamar um especialista para dar uma ou outra palestra dias
antes da intervenção tem um impacto diminuto, para não
dizer, insignificante e com conseqüências irrelevantes. Para
se ter realmente um impacto altamente desejável, o treinamento
psicológico anterior deve estar em um ótimo padrão
de desenvolvimento.
10º) Treinamento psicológico não é
panacéia
O treinamento psicológico é mais um aspecto da formação
e treinamento do atleta. Ele (o treinamento) não é menos
ou mais importante que o treinamento físico, técnico e tático.
O treinamento psicológico é componente fundamental tal como
os demais, daquilo que se convencionou chamar de sistema de treinamento.
Além disso, em cada treinamento específico há influência
e/ou participação de habilidades adjacentes desenvolvidas
paralelamente. Ou seja, um treinamento técnico se relaciona com
a parte física, um treinamento tático insere componentes
psicológicos, um treinamento psicológico reverbera na parte
técnica e assim sucessivamente.
Por último, é importante refletir sobre a seguinte situação:
toda vez que uma derrota acontece, os motivos sempre estão relacionados
à parte psicológica. Mas sabemos que nem sempre a derrota
advém das questões psicológicas, muitas vezes o motivo
é de origem física e/ou técnica e tática.
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