| Para bem entender
este diálogo, travado via Internet, é necessário
ter lido o anterior, “O Caminho do Meio” - clique
aqui e leia . Em seqüência ao e-mail ali transcrito,
recebi outro que igualmente *transcrevo. Passarei a chamar
a missivista de Fátima.
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Psicoterapia
deve permitir verdadeira reconstrução do psiquismo
perturbado |
Vejo que é fã de Freud. Quanto aos cérebros,
se eu falar sobre eles com uma pessoa que desconhece totalmente o assunto
'mente humana', taxam-me de louca, de doida, mas o certo é que trata-se
de dois cérebros trabalhando em conjunto, digamos que um é
'meu' e o outro um invasor que tenta se apoderar do meu. As imagens
passam muito rapidamente, de tal forma que não as consigo captar
bem. Antes, isso me dava muito medo, pavor mesmo. Hoje, quando
esse 'outro cérebro' vem, o que está espaçando cada
vez mais, já não sinto tanto medo. Pelo contrário,
tento mantê-lo, porque sinto que é algo da infância.
Só digo uma coisa, passei a viver realmente minha própria
vida de dois anos para cá. Foi ai que despertei e começou
outro pesadelo ainda maior. Numa outra oportunidade lhe escrevo e relato
minha infância, aí com toda certeza irá compreender.
Abraços mil. Fátima.”
Respondi assim:
“Fátima, o que lhe posso
relatar a partir de minha experiência como **loganalista é
que esse seu 'segundo cérebro' guarda memórias, emoções,
desejos, etc. que têm tido impedido seu acesso à palavra,
em virtude de uma oposição provinda do 'cérebro principal'.
Sua atual psicoterapia, como qualquer psicoterapia eficaz, deve estar
aumentando a tolerância desse seu 'primeiro cérebro' àquelas
memórias, emoções, etc, dando legitimidade ao gradual
acesso desses conteúdos ao reino da palavra, razão pela
qual as intrusões 'terroristas' do 'segundo cérebro' deverão,
como já está ocorrendo, diminuir em freqüência
e intensidade. Parabéns a você e a sua atual terapeuta.
Abraço. Assinado: Luís César.”.
Como exponho no capítulo oitavo
de meu livro, “A Nova Conversa” – embora ali, eu tenha
usado outras denominações – há três grandes
estratégias de atendimento psicoterápico: a de doutrinação,
a catártica e a reconstrutora.
A primeira objetiva impedir que o paciente tenha certos pensamentos, substituindo-o
por outros, de natureza oposta. Por exemplo, a um paciente com idéias
suicidas tenta-se – usando uma variedade de técnicas, inclusive
a hipnose – fazer que ele pare de pensar em dar cabo da própria
vida, levando a pensar nas vantagens de ficar vivo. Essa estratégia,
embora possa ter cabimento em situações muito especiais,
tem muitos efeitos colaterais indesejáveis, essencialmente porque
os pensamentos 'expulsos' continuam ativos no inconsciente podendo de
lá, produzir uma série de sintomas, inclusive o próprio
suicídio. Esta estratégia também é empregada
por não-profissionais, que nos tentam convencer a não pensar
desta ou daquela maneira, mas sim da maneira que eles consideram 'correta'.
A segunda cria situações especiais durante as quais o paciente
descarrega, com grande intensidade emocional, os pensamentos perturbadores.
O problema, aqui, é que, quando a terapia se limita a essa estratégia,
embora possa oferecer um temporário alívio, deixa o paciente
na eterna dependência de novas sessões de catarse, jamais
recuperando de forma estável seu equilíbrio psicológico.
Também essa estratégia, que por vezes chamo de “dos
Festivais”, ocorre em ambientes não-profissionais, o mais
das vezes grupais, como, por exemplo, disputas esportivas de grande carga
emocional, nos Carnavais ou em encontros de natureza religiosa, como sessões
de umbanda e assembléias chamadas 'carismáticas'.
Há situações de emergência que, mesmo do ponto
de vista profissional, o 'descarrego' catártico é indicado.
A terceira – essa dificilmente empregada pelo leigo – é
a única que permite uma verdadeira reconstrução do
psiquismo perturbado. Embora possa ser implementada mediante uma
imensa variedade de técnicas, essa estratégia consiste essencialmente
em permitir e incentivar o paciente a fazer uma aproximação
'vacinal' dos conteúdos psicológicos perturbadores, de forma
a adquirir gradual imunidade a eles, passando a conscientemente administrá-los.
Essa, ao que tudo indica, é a estratégia que está
sendo empregada, com sucesso, no tratamento a que Fátima está
sendo submetida.
*Nessa transcrição, para facilitar o entendimento,
mas sem alterar o conteúdo, melhorei o estilo e eliminei alguns
erros de pontuação e gramática do original
**A Loganálise é um filhote da Psicanálise:
pretende mostrar como o cidadão comum, em seu dia-a-dia, pode tirar
proveito de conceitos como repressão, fixação, trauma
e outros para promover sua própria saúde psicológica
e a daqueles com quem se relaciona.
Esta coluna se propõe a relatar experiências
sobre o poder da palavra em nossas vidas. Aqui serão relatados
dezenas de fragmentos de diálogo - reais ou fictícios -
segundo os pontos de vista da Loganálise, mostrando onde e como
esses diálogos apresentam elementos favoráveis ou desfavoráveis
ao estabelecimento de uma comunicação sadia.
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