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Há
perguntas que são recorrentes no contexto psicoterápico. Uma delas
é ilustrada pelo diálogo a seguir, ocorrido na primeira sessão
em que atendi Vicente: | Orientação
psicoterápica deve ser 'microscópica', ou seja, deve escapar de
abstrações vagas e imprecisas | VICENTE:
- Dr., eu sou neurótico? EU: - O que é um neurótico?
VICENTE: - Ah, não sei, mas o senhor deve saber. EU: - Você sabe
o que é um lepidóptero? VICENTE: - Não. EU: - Então,
de que adiantaria eu lhe dizer que você não é - ou é
- um lepidóptero? VICENTE: - É, não adiantaria nada.
Mas... Bem, um neurótico é um cara nervoso. EU: - Você
é um cara nervoso? VICENTE: - É, eu sou um cara nervoso.
EU: - Bem, então, dentro do seu vocabulário, você é
um neurótico. VICENTE: - É, mas ser um neurótico é
mais do que ser um cara nervoso. EU: - Bem, estamos vendo que você tem
uma opinião mais precisa do que seja um neurótico do que inicialmente
pareceu. Então, vamos lá: o que é caracteriza o neurótico,
além de ele ser um "cara nervoso"? VICENTE: - Ah, ele é
um cara inferior. EU: - Como assim? VICENTE: - Ah, ele não consegue
fazer as coisas que os outros conseguem. EU: - Você não consegue
fazer coisas que outros conseguem? VICENTE: - É, não consigo.
EU: - Por exemplo? VICENTE: - Bem, blá, blá, blá, blá,
blá, blá. E,
a partir daí, passamos a aprofundar nossa pesquisa sobre os sintomas que
traziam incômodo para meu novo paciente. Como vêem, toda minha orientação
foi na direção da "microscopia", ou seja, na direção
de escapar de abstrações vagas e imprecisas para o trabalho sobre
elementos concretos da condição de Vicente. Não é
à toa que chamo meu trabalho de *LogANÁLISE, e não de LogosSÍNTESE,
a exemplo de Freud, que chamou o seu de PsicANÁLISE e não de PsicosSÍNTESE.
Além de abstrações vagas e imprecisas não permitirem
nenhum trabalho loganalítico eficaz, diga-se de passagem que um neurótico
não precisa ser "um cara nervoso". Existe inclusive um fenômeno
neurótico, típico da histeria, via de regra elegantemente mencionado
em francês, chamado "belle indiférence" ( = bela indiferença
), em que o paciente apresenta distúrbios de ordem física (paralisias,
distúrbios sensoriais, etc.), enquanto seu humor se mantém perfeitamente
sereno. Qual utilidade terapêutica haveria em ficar eu me preocupando em
que meu paciente tivesse uma definição academicamente adequada de
neurose, em vez de ajudá-lo a iniciar o trabalho que, se bem sucedido,
deixá-lo-á livre de seus sintomas? *Loganálise:
É um filhote da Psicanálise: pretende mostrar como o cidadão
comum, em seu dia-a-dia, pode tirar proveito de conceitos como repressão,
fixação, trauma e outros para promover sua própria saúde
psicológica e a daqueles com quem se relaciona.
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