| Na hora de ajudar um paciente a colocar
em palavras o que se passa dentro de si, um pouco de criatividade é
algo bastante bem-vindo. Vejamos um exemplo:
PACIENTE: — Tô querendo falar uma coisa, mas estou com medo
de ser injusta com você.
LC: — Tá incluído no preço, pode continuar.
PACIENTE: — Bem, eu estou achando que eu fiz blá, blá,
blá, blá, blá, blá..., que me ferrou, porque
me deixei influenciar por seu comentário de que blá, blá,
blá, blá, blá, blá... Acho que, se você
não tivesse falado aquilo, eu não tinha feito a besteira
que fiz, e fico culpando você, embora, na verdade, você tenha
dado apenas um exemplo. Talvez, se você não tivesse dado
aquele exemplo, eu não tivesse agido daquela forma, mas, afinal
das contas, você não me disse para eu FAZER nada, fui eu,
não você, quem tomou a decisão e agiu de uma maneira
que me prejudicou. A culpa, na verdade, é minha, mas eu fico culpando
você.
LC: — Bem, mas você acha provável que, se eu não
tivesse feito aquela intervenção, você não
tivesse feito blá, blá, blá, blá, blá,
blá..., o que lhe prejudicou, certo?.
PACIENTE: — Certo.
LC: — Gostaria de fazer dois comentários a respeito. Posso
fazer agora, ou vou atrapalhar suas associações?
PACIENTE: — Pode fazer agora.
LC: — Obrigado. São os seguintes. Primeiro, temos uma certa
tendência, em nossas relações interpessoais, de, frente
ao fato de que 1+ 6= 7, e sete é algo indesejável, tentar
descobrir que é o responsável pela ocorrência do 7,
o 1 ou o 6. Ocorre que, por mais que 1 seja muito menor do que 6, a verdade,
é que, sem ele, tanto quanto sem o 6, o 7 não teria ocorrido.
Acho que é muito mais produtivo que o 1 e o 6 reconheçam
sua participação no resultado final e, em vez de pedir que
o outro deixe de entrar na equação, se encarregue cada um
de ele próprio não o fazer. Essa é uma boa regra
para nossas relações cotidianas e, por isso, a menciono
aqui. Segundo, nossa relação não é uma relação
cotidiana. A Psicanálise ocorre em um espaço VIRTUAL, não
em um espaço REAL. Nesse espaço, que eu e você optamos
por estabelecer, você tem todo o direito de achar que eu sou culpado
ou inocente – seja eu ou não – seja incompetente ou
competente – seja eu ou não – etc., etc., ao infinito.
Por isso afirmei, algo galhofeiramente, que você me achar culpado
“está incluído no preço”, na verdade,
está incluído em nossa combinação.
PACIENTE: — Bem, isso me fez lembrar que blá, blá,
blá, blá, blá, blá...
Note-se que, além de haver conseguido fazer a paciente –
tratava-se de uma mulher – retomar seu fluxo de comunicação,
eu também transmiti a ela – quando lhe pedi licença
para fazer meus comentários – que, para mim, é importante
que esses comentários não interrompam tal fluxo, se ele
já foi recuperado. Com efeito, freqüentemente, informo ao
paciente de que gostaria de fazer algum reparo, mas que vou esperar o
momento em que ele considere adequado que eu o faça. E note-se
também o valor dado pela técnica *loganalítica (de
loganálise filhote da psicanálise) à dimensão
PEDAGÓGICA da relação: um paciente que entende melhor
a natureza do processo psicoterápico – e meu comentário
sobre a VIRTUALIDADE do espaço em que esse último ocorre
visava a tornar mais preciso esse entendimento – é um paciente
muito mais capaz de colaborar para o sucesso de seu tratamento.
SERVIÇO
Primeira aula gratuita do curso de Formação
de Psicanalistas de Orientação Loganalítica
Reservas por tel: (21) 2523 5315
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