Uma pesquisa
realizada na Grã-Bretanha me chamou atenção.
De acordo com os dados publicados por uma empresa de estudos de
mercado conhecida como Mintel, as mesas de jantar estão em
extinção naquele país. As vendas do produto
caíram 8% nos últimos 5 anos, enquanto os móveis
de escritório tiveram crescimento de 40% e outros móveis
da sala de jantar, 37%. |
Sentar à mesa com a família pode
promover hábitos saudáveis de alimentação
para crianças e adolescentes
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O número de britânicos que não têm
mesa de jantar chega a 25%; apenas 31% a utilizam em ocasiões especiais
como o Natal e Ano Novo. De acordo com o diretor da empresa, David Bird,
atualmente, as mesas onde as famílias se reúnem todos os
dias para comer quase não existem; inúmeros britânicos
não fazem uma pausa para comer e, quando o fazem, geralmente é
para comer com o prato no colo, vendo televisão. A tendência
é o desaparecimento desse móvel, que durante longo tempo
esteve no centro da vida doméstica. Os divórcios e a falta
de tempo e de espaço são algumas das razões para
a queda na procura por mesas de jantar, aponta a pesquisa.
Tomei como exemplo essa notícia para chamar atenção
das pessoas de como a vida moderna tem modificado hábitos que deveriam
ser preservados em nome da saúde e do bem-estar das pessoas. A
mesa de jantar foi por muito tempo um exemplo de união da família.
Era comum em todas as refeições diárias pais, filhos
e até avós estarem juntos se alimentando, trocando idéias
e narrando fatos acontecidos durante o dia. Lá em casa, por exemplo,
às vezes meu pai chegava tarde, às oito da noite, mas minha
mãe sempre nos fazia esperar para comermos em família, não
importava o quanto nos queixássemos. Era um ritual tão agradável
que ninguém queria perder.
Os anos se passaram e a correria do dia-a-dia, a falta de tempo, entre
outros fatores fizeram com que uma atividade importantíssima para
a saúde física e emocional de todos os membros da família
praticamente deixasse de existir. De acordo com algumas pesquisas, no
Brasil, 30% a 40% das famílias não jantam juntas de cinco
a sete noites por semana. A hora do almoço em casa, junto com os
familiares, tem sido trocada por um sanduíche na lanchonete da
esquina ou por uma refeição em frente à TV ou computador.
As vantagens das refeições
em família
Os estudos atuais mostram que as rotinas
e os rituais familiares podem trazer vários benefícios para
as pessoas. Esses rituais não envolvem apenas as refeições
diárias, mas também atos simbólicos e que às
vezes duram gerações na mesma família, como as celebrações
de Natal, Ano Novo, aniversários e o tradicional almoço
de domingo. Essas atividades têm sido relacionadas a uma maior satisfação
conjugal, maior senso de identidade pessoal por adolescentes, maior saúde
de crianças, satisfação com o desempenho acadêmico
e fortalecimentos das relações familiares.
Um dos motivos que ajudam a explicar esses benefícios é
que essas rotinas e rituais ampliam o tempo de convivência entre
os familiares, possibilitando maior conhecimento mútuo e troca
de experiências, formação ampliada de sua identidade
pessoal e maior sensação de retaguarda social, o que daria
a todos mais segurança em seus relacionamentos extra-familiares.
De acordo com um estudo publicado no Journal of Family Psychology (2003),
se uma família faz em conjunto três refeições
por semana, por exemplo, terá passado algo como uma hora (cerca
de 20 minutos por refeição) se comunicando pessoalmente
sem a interferência de "ruídos" como programas
de televisão, por exemplo. Todos os que se sentam à mesa
nestes momentos se beneficiam dessa interação de uma maneira
ou de outra.
Benefícios para os mais jovens
Uma pesquisa publicada em 2003 no Journal
American Dietetic Association, mostrou que sentar-se à mesa
para as refeições com a família parece desempenhar
um papel importante na promoção de hábitos alimentares
saudáveis entre os adolescentes. Os pesquisadores da Universidade
de Minnesota, nos Estados Unidos, descobriram que as crianças entre
os 11 e 18 anos de idade que tomavam as suas refeições em
família, comiam maiores quantidades de frutas, vegetais, leguminosas
e alimentos ricos em nutrientes do que aqueles que comiam separados das
suas famílias. Além disso, os adolescentes que consumiam
pelo menos sete refeições por semana em família consumiam
menos comidas rápidas e snacks do que aqueles que comiam menos
do que este número.
Os autores do estudo também descobriram que os meninos faziam mais
refeições em família que as meninas, tal como as
crianças até o 2º ciclo, comiam mais em família
que as que freqüentavam graus de ensino subsequentes. Adicionalmente,
a pesquisa revelou que as famílias em que as mães não
tinham emprego externo e as famílias com maior poder aquisitivo
tomavam refeições em conjunto com maior frequência
que as outras famílias.
Em 2004, a revista Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine
publicou um estudo com 4.746 crianças de 11 a 18 anos de idade
mostrando que as refeições em família freqüentemente
são associadas a um menor risco do desenvolvimento do hábito
de fumar, beber e usar maconha, entre os jovens. O estudo indicou também
uma menor incidência de sintomas de depressão e pensamentos
suicidas, além de notas mais altas na escola.
Para os especialistas, as refeições familiares são
importantes também para ajudar a aprimorar o vocabulário
de crianças mais jovens. Pesquisadores de Harvard consideraram
em 1996 os tipos de atividades que promoviam o desenvolvimento da linguagem.
Jantares familiares foram mais importantes do que brincar, do que a hora
da história e outros eventos familiares. E aquelas famílias
que entraram em diálogos extensos na mesa de jantar, como a narração
de histórias e explanações, ao invés de comentários
de uma frase, como "coma seus legumes", fizeram com que crianças
adquirissem mais competências lingüísticas.
Exemplos à mesa
Muito do que é dito ou feito numa família serve de exemplo
e efetivamente causa impacto sobre os membros desta. Crianças que
se alimentam sem os pais ficam sem referência, sem exemplos concretos
de uma boa alimentação e, inevitavelmente, vão para
a frente da televisão enquanto comem, vivenciando um sentimento
de solidão e uma tendência à obesidade. A criança
que come assistindo TV não sabe o que come nem tem noção
da quantidade ingerida.
Por isso, a presença dos pais na hora do almoço e/ou jantar
é fundamental para transmitir aos filhos bons exemplos, que serão
seguidos por toda vida. Se uma criança sempre vê seus pais
servirem-se de salada antes do prato principal, ela entenderá que
essa atitude é a mais correta e provavelmente também vai
querer experimentar e seguir o exemplo. Da mesma forma, se a criança
observa seu pai servindo-se de macarrão pela terceira vez, ela
poderá aprender que comer três porções do alimento
não é demais, e também seguirá o exemplo.
É importante enfatizar que freqüentemente os pais demonstram
seus valores aos filhos pelo que fazem, muito mais do que pelo que dizem.
As crianças estão atentas às ações
deles, mesmo quando estão fazendo uma outra atividade ou conversando
com outra pessoa. Os pais são os modelos de referência, e
por isso, é fundamental que tomem alguns cuidados para não
enviar mensagens erradas ou contraditórias do tipo comer com a
boca aberta, comer rápido demais sem mastigar corretamente os alimentos,
exagerar nas quantidades, fazer comentários desfavoráveis
em relação a um alimento, como por exemplo, a mãe
falar que não gosta de beterraba, etc.
Para finalizar, saliento que a hora da refeição deve ser
um momento sem estresse. O ambiente deve ser tranqüilo e acolhedor,
sem brigas, discussões, comentários impróprios, que
causam desconforto e sentimentos que ficam associados ao alimento e à
hora de comer, interferindo em situações futuras, principalmente
entre as crianças. Se o seu filho (a) não quer comer da
forma como você gostaria, não entre em crise, não
perca a paciência e não discuta, apenas informe que o prato
dele(a) estará disponível quando a fome surgir.
Incentive a criança a ter prazer com o que come; aos poucos ela
vai aceitando as novidades, aumentando o seu repertório de alimentos,
desenvolvendo cada vez mais uma relação saudável
com a comida. E não se esqueça de resgatar a mesa em seu
lar, seja ela de jantar ou uma simples mesinha de cozinha. A sua família
reunida em torno dela mais vezes por semana, com certeza será mais
feliz e saudável.
Mais informações: www.jocelemsalgado.com.br
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