| "Uma coisa é
tomar consciência do que deve ser mudado, outra é acertar
a medida. Experimentaria muito, quanto fosse necessário, porque
não haveria ponto de chegada, mas sínteses a exigirem
novas experimentações" |
Enquanto colocava no outro a culpa pelo seu desassossego,
até que sentia certo alívio, embora não saísse
do lugar; mas a partir do instante em que Clarita começara
a se perceber melhor e a responder pelos resultados das próprias
atitudes, passou a duvidar de que pudesse dar conta de tamanha responsabilidade.
Deste momento de passagem não poderia escapar; se quisesse,
de fato, enfrentar um processo de mudança. |
Primeiro, deveria considerar as frustrações
como aprendizado, quando batesse a vontade de refazer caminhos percorridos.
No máximo, poderia tirar uma lição daqui e dali e
ir buscando, aos poucos, maneira mais eficaz de lidar com as novas situações.
Isto implicaria, entre tantos, considerar os próprios limites e
os do outro; identificar e descartar ilusões; não se deixar
melindrar com opiniões a seu respeito, a ponto de deixar escapar
o que pudesse vir como acréscimo; não ter medo de quebrar
as suas e as demais expectativas, e dizer não, quando necessário.
Em segundo lugar, precisaria dar tempo ao tempo. Uma coisa é tomar
consciência do que deve ser mudado, outra é acertar a medida.
Experimentaria muito, quanto fosse necessário, porque não
haveria ponto de chegada, mas sínteses a exigirem novas experimentações.
Nem sempre conseguiria expressar com clareza o que lhe ia por dentro,
mas continuaria tentando.
Deveria, ainda, aceitar suas contradições, a instabilidade
própria de quase todo querer. Ora teria todas as certezas, ora
certeza nenhuma. Procuraria, quanto possível, fazer as escolhas
que pudessem lhe trazer mais prazer, além de terminar o máximo
de coisas que houvesse começado.
Entenderia que, depois de tudo, por melhor que se saísse em cada
etapa, nada de surpreendente estaria à sua espera do outro lado,
mesmo porque nem haveria o outro lado, apenas um continuum. Como em espiral,
teria a impressão de passar pelo mesmo, mas diferente.
O fruto de seu esforço talvez nem trouxesse mais a lembrança
daquilo que motivou Clarita a iniciar sua busca. A mudança poderia
significar apenas amansar a ira, aproximar-se dos próprios desejos,
sentir-se um pouco mais livre do predador interno, esvaziar-se de culpas,
de ressentimentos e, consequentemente, exercer com mais confiança
o carinho que ainda tinha por si e pelo outro. Um bem-estar, um sono tranqüilo.
Não é pouco.
Artigos relacionados - clique no título
Não consigo decidir
nada em minha vida ... E agora?
Reflita sobre sua
forma de viver
Momentos de dor trazem
muitas lições; saiba
Vício é uma
das formas de se falsificar a realidade
|