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tratamento de Fernando foi um dos mais bem sucedidos dentre os que conduzi. Não
apenas por seu resultado ter sido extremamente satisfatório, mas pela gravidade
de seu quadro clínico quando começamos nosso trabalho. Fernando
estava em pleno processo regressivo: começara trancando sua matrícula
no curso de medicina; em seguida, rompeu com os amigos e, pouco depois, com a
namorada; começou a colecionar estátuas de Buda em seu quarto (o
que, naturalmente, só tem o significado mórbido pelo contexto em
que ocorreu) e, morando em frente à praia, passava a maior parte do dia
dentro d'água, fazendo surf. A direção geral do processo
era de afastamento do mundo. Hoje, é um bem sucedido médico em um
país do primeiro mundo. Lá para o fim de sua análise, quase
completamente recomposto - já retornara à faculdade, aos amigos,
saia novamente com garotas e, evidentemente, não passava mais o dia inteiro
dentro d'água (com os Budas, não me lembro o que aconteceu) - saiu-se
com essa: FERNANDO:
- Interessante! Sempre detestei Microbiologia. Quando tranquei a matrícula,
tinha sido reprovado nessa cadeira. Depois que voltei para a faculdade, retardei
o quanto pude reinscrever-me nela. Logo que entrei em análise, pensei:
vou fazer análise, ficar bom, passar a gostar dessa porcaria dessa matéria,
estudar com gosto e passar. Agora, estou chegando a conclusão de que não
há análise no mundo que me faça gostar de Microbiologia e,
ou eu enfio a cara, mesmo detestando isso, passo e pego meu diploma, ou nunca
vou ser médico em minha vida! [Após um bom período de silêncio,
continua:] Será que ter alta é descobrir que o psicanalista não
serve para nada? [Mais um silêncio e completa:] Não, serve sim. É
a única pessoa que consegue ouvir naturalmente que ela não serve
para nada. Esse
monólogo - na verdade, um diálogo consigo mesmo - ilustra um importante
resultado de uma análise bem sucedida: o de transformar uma situação
traumática em uma situação meramente frustrante. A diferença
entre esses dois tipos de situação pode ser abordada de vários
ângulos, mas um dos mais relevantes é o de que a situação
meramente frustrante é insatisfatória, mas não paralisa nem
desorganiza o sujeito e a situação traumática sim. Fica evidente,
no exemplo de Fernando, que a necessidade de estudar Microbiologia para conseguir
o diploma de médico passou, ao longo da análise, de situação
traumática para situação meramente frustrante. E o paciente
"deu a dica" de que instrumento opera esse "milagre": é
a naturalidade da escuta do analista, capaz de ouvir, inclusive, que "não
serve para nada".
As considerações de Fernando apontam
também para o fato de que, freqüentemente, a expectativa do paciente
em relação à análise, NÃO É apenas a
de que o analista transforme trauma em frustração. O mais rotineiro
é um paciente que fica paralisado e desorganizado - leia-se traumatizado
- diante de situações de rejeição, dizer ao analista
que o que deseja conseguir do tratamento é, por exemplo, "parar de
se sentir rejeitado".
É importante explicar a ele que a análise
não tem o condão de lhe fornecer isso, mas, apenas o de que a rejeição
não o traumatize, paralisando-o e desorganizando o seu comportamento. E,
de passagem, que não achar desagradável ser rejeitado não
é exatamente o melhor exemplo do que seja saúde mental.
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