| Fragmento de
sessão:
FÁBIO: - Você está me achando chato? LC:
- Posso? FÁBIO: - Claro que não!!! LC: - E por quê? FÁBIO:
- Ué, eu me sinto mal. LC: - Eu também, se achar você chato,
vou-me sentir mal. FÁBIO: - Então! LC: - Então, o
quê? FÁBIO: - Eu quero evitar isso. LC: - Fábio, o que
é que nos estamos fazendo aqui? FÁBIO: - *Loganálise,
ué! LC: - A Loganálise é um papo social? FÁBIO:
- Não. LC: - Pois é. Num papo social, nada mais razoável
do que os participantes evitarem ser chatos. Não me parece que seja bem
o nosso objetivo aqui. Qual é nosso objetivo aqui? FÁBIO: - Ué,
eu ficar bom. LC: - Tá, mas que recurso nós estamos usando para
atingir isso? FÁBIO: - Ué, eu falar tudo o que me vem à
cabeça e depois refletirmos juntos sobre o que está acontecendo
ou que aconteceu. LC: - TUDO o que vem à sua cabeça, MENOS o
que faça você parecer chato? FÁBIO: - Não. Você
tem razão. Faz parte do jogo eu ter que enfrentar a possibilidade de você
me achar um chato. LC: - Acho que eu tenho perfeitas condições
de sobreviver à possibilidade de achá-lo um chato. FÁBIO:
- Tá bom, pode me achar chato à vontade. LC: - Obrigado, fico
mais à vontade. Podemos prosseguir? FÁBIO: - Claro! Blá,
blá, blá, blá, blá, blá... Consideremos
duas situações antípodas: por um lado, uma sessão
psicanalítica, em que o fato de o analista estar achando o paciente interessante
ou chato, culpado ou inocente, bonito ou feio, inteligente ou burro, etc. não
deveria em nada prejudicar ao paciente; por outro, uma audiência judicial,
em que faz toda a diferença do mundo o juiz achar que o réu tem
razão ou não. No primeiro caso, não há o menor sentido
em tentar influenciar o pensamento do analista; no segunto, há todo sentido
em tentar influenciar o do juiz.
Acontece que a maior parte das pessoas
está viciada nesse segundo tipo de comportamento e tenta manipular os outros,
introduzindo ou querendo bloquear neles, pensamentos CUJA CONSEQÜÊNCIA
CONCRETA sobre a vida do pretenso manipulador é INSIGNIFICANTE OU NULA.
Conseqüência? Exemplifico: um sujeito está sentado em um restaurante
e pede um vinho mais caro do que o que queria pedir PARA QUE O CASAL DO LADO,
que ele não conhece nem tem a menor relevância para sua vida, NÃO
PENSE QUE ELE É POBRE. Em suma: está sendo controlado por aqueles
que pretende controlar, e com um sério agravante: SEM A MENOR NECESSIDADE
DE FAZÊ-LO! A regras da relação psicanalítica foram
idealizadas para que essa armadilha seja exposta e evitada.
*Loganálise
é um filhote da Psicanálise: pretende mostrar como o cidadão
comum, em seu dia-a-dia, pode tirar proveito de conceitos como repressão,
fixação, trauma e outros para promover sua própria saúde
psicológica e a daqueles com quem se relaciona.
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