Saúde Mental
Dicas para a saúde mental
Caso Ryan Gracie
por Joel Rennó Jr.

Em primeiro lugar, quero deixar bem claro que não tenho a menor intenção de fazer um pré-julgamento tanto do médico que prestou assistência, quanto de autoridades policiais e muito menos ainda dos familiares do jovem lutador de jiu-jitsu Ryan Gracie encontrado morto no dia 15, na carceragem do 91º DP (Ceagesp), em São Paulo. Isso caberá às autoridades competentes.

Vou listar algumas observações feitas por mim, após uma ampla análise das notícias apuradas em órgãos respeitáveis da imprensa.

O jovem lutador vinha apresentando surtos psicóticos decorrentes do uso de drogas como álcool e cocaína. Sabemos que quadros de intoxicação e abstinência podem levar a tais surtos psicóticos, além de sérios problemas clínicos.

A cocaína é uma das causas mais conhecidas de infartos, arritmias cardíacas e até acidentes vasculares cerebrais (AVCs) em pessoas jovens usuárias de drogas.

Este conhecimento básico pertence a qualquer médico generalista.

Uma pessoa em tais condições obrigatoriamente deveria ter sido imediatamente removida para tratamento hospitar com monitorização de funções cárdio-respiratórias e neurológicas, entre outras.

Alguns quadros mais graves até necessitam da manutenção temporária do paciente em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva). A manutenção da prisão dele foi um lamentável equívoco.

Medicação utilizada

Entre as medicações utilizadas, segundo relatos do médico que o atendeu constam: 30 mg de diazepam, leponex (medicamento para esquizofrenia), 3 ampolas de haldol e fenergan (para conter agitação), capoten (para controle da pressão arterial) e topamax 100 mg (é um medicamento estabilizador de humor para pacientes bipolares e que ajuda no controle de crises convulsivas).

Honestamente, tais associações medicamentosas não foram adequadas ou prudentes. Jamais o medicamento leponex deveria ter sido utilizado para tal propósito de tratamento agudo de um surto psicótico decorrente do uso de cocaína. O pior é que tais medicamentos, embora até possam não ser responsáveis diretos pela morte do atleta, na realidade, podem ter aumentado a predisposição a uma falência cardíaca. O IML ajudará a esclarecer tais questões. Tenho certeza que a competência e a isenção do CREMESP, que eu respeito muito, elucidarão tais condutas efetuadas pelo psiquiatra dele.

Infelizmente, situações como essas pioram o preconceito contra a doença mental e o próprio tratamento psiquiátrico, já tão estigmatizado. Deixo claro aqui que tal tragédia é uma infeliz exceção. Os tratamentos são seguros quando bem conduzidos. Fiquei também impressionado, com todo o respeito, pela forma mercantilista como a questão financeira foi aparentemente tratada no contato do psiquiatra com a namorada de Gracie, segundo os familiares. Não gostaria que as pessoas com este episódio triste fizessem um mau julgamento dos profissionais médicos. Em recente pesquisa do CREMESP, os médicos estão entre os profissionais de maior credibilidade junto à população.

Na suspeita de qualquer quadro orgânico (alterações hormonais, infecções, distúrbios de água e sais minerais, etc), medicamentoso ou mesmo por uso de álcool e drogas que levem a sintomas psíquicos uma ampla avaliação clínica deve ser prioritária na conduta de todo profissional. Um último detalhe: o pai do jovem declarou que uma semana antes ele já apresentava alterações de juízo e critica - com delírios persecutórios. Talvez, uma internação psiquiátrica em clínica adequada tivesse evitado tal tragédia naquele momento; além também de um acompanhamento psiquiátrico e psicológico regular prévio. Raramente, por uma complexidade de fatores, isso ocorre na área de saúde mental.

Espero sinceramente que a família e as próprias autoridades envolvidas tenham serenidade para fazer justiça e evitar novos e tristes acontecimentos similares deste gênero no nosso país.

Entrevista em vídeo com o colunista Dr. Joel Rennó Jr no "Marília Gabriela Entrevista'

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Joel Rennó Jr.
Doutor em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP. Coordenador do Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher-Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein-SP (HIAE)
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