| Eu já era graduado em Psicologia
e, portanto, conhecia bastante a Psicanálise do ponto de vista
teórico – especializei-me nela, terminando por ensiná-la
na faculdade em que me formei (PUC-RJ) – quando fui procurar minha
análise pessoal.
Passei por cinco psicanalistas, todos internacionalmente sacramentados,
antes de encontrar um capaz de ouvir realmente seu paciente. Desses, três
– repito, todos membros regulares de instituições
psicanalíticas internacionalmente reconhecidas, eram totalmente
surdos. Só sabiam repetir como papagaios interpretações
absolutamente estereotipadas.
Como conhecedor da Psicanálise, logo detectei isso e naturalmente
caí fora, com pena dos vários leigos que terão certamente
ficado vários anos com eles, em tratamentos absolutamente estéreis.
Já outro era extremamente capaz: fiquei sete anos em análise
com ele, à razão de cinco sessões por semana. O restante...
bem, esse, se não era um robozinho de interpretações
prêt-à-porter, tampouco sempre escutava. Segue-se
um exemplo dessa má escuta, ocorrida em uma sessão com esse
último psicanalista, após uma pequena introdução
sobre as circunstâncias em que essa sessão transcorreu.
Sempre levei profundamente a sério o processo psicanalítico.
Ora, eu sabia que a tarefa do paciente era descrever, o mais honestamente
possível, tudo que durante a sessão, venha a sua consciência,
sem o quanto possível, proteger-se de seus pensamentos e, particularmente,
SEM PRECISAR DELES PROTEGER O ANALISTA. O diálogo a seguir é
de minha primeira sessão com esse analista em tela, a quem chamarei
de Carlos.
LC (logo ao deitar no divã): — Caramba, você é
feio pra burro!
CARLOS: — A função de analista não é
ser bonito, é saber analisar.
Imagino que os que me acompanharam até aqui são capazes
de avaliar como a resposta de Carlos foi inadequada e como teria sido
muito mais produtivo algo do tipo:
LC (logo ao deitar no divã): — Caramba, você é
feio pra burro!
CARLOS: — Qual a sua relação com a feiúra?
Mas o que pretendo particularmente enfatizar aqui é o que venho
enfatizando em todos os meus escritos, conferências, etc., ou seja,
que essa ABORDAGEM MAIS PRODUTIVA não deve ser RESERVA DE MERCADO
de psicanalistas, mas ao contrário, ser empregada por todos nós
nas relações não formais de nosso cotidiano, o que
nos tornaria a todos regulares promotores de nossa saúde mental
e da daqueles que nos cercam.
Os diálogos a seguir ilustram o emprego em nosso dia-a-dia, dos
ensinamentos mais fundamentais da Psicanálise. Comecemos como os
Diálogos promotores de doença psicológica (recalcantes)
FILHO (de sete anos, falando de forma enfática): — Você
NÃO GOSTA DE MIM!
MÃE: — Gosto sim, meu amor. Você é a coisa mais
linda da mamãe!
Ou:
FILHO (de cinco anos, falando de forma enfática): — Você
NÃO GOSTA DE MIM!
PAI: — Como não gosto de você! Quem é que trabalha
o dia inteiro para você poder ter tudo que você tem: casa,
roupa, comida, brinquedos? Que absurdo! Nunca mais repita isso!
E prossigamos com os:
Diálogos promotores de saúde psicológica psicológica
(DESrecalcantes)
FILHO (de sete anos, falando de forma enfática): — Você
NÃO GOSTA DE MIM!
MÃE: — Ah, é, filho? E por que você acha isso?
FILHO: — Porque blá, blá, blá, blá,
blá, blá...!
MÃE: — Entendi.
FILHO (de sete anos, falando de forma enfática): — Mas você
gosta ou não gosta?!
MÃE: — Bem, se não gosto, não percebo, mas
vou pensar sobre o que você falou. Quem sabe você possa ter
alguma razão?
FILHO: — Acho bom você pensar mesmo.
MÃE: — Combinado.
Ou:
FILHO (de sete anos, falando de forma enfática): — Você
NÃO GOSTA DE MIM!
MÃE: — Puxa, deve ser chato achar que nosso pai não
gosta da gente!
FILHO: — É chato, sim.
MÃE: — Imagino.
Via de regra, após diálogos desse segundo tipo, passa-se
um tempinho, e a criança volta, leve leve, mostrando algum sinal
de carinho em relação ao pai ou à mãe, como
se dissesse: “Desculpe, mas eu estava precisando encenar a situação
em que alguém não gosta de mim, para aprender a lidar com
ela. Obrigado por ter entendido e não ter atrapalhado, O.K.?”
Hoje em dia, contudo, graças a cultura alienada em que vivemos,
é muito pouco provável encontrarmos tanta sabedoria em um
pai ou em uma mãe. Antes que tal ocorra, será necessário
que os ensinamentos da *Loganálise se difundam sobre este surrado
planeta, cujos abundantes recursos estão sendo malbaratados e destruídos
pela incompetência dos que o ocupam.
*Loganálise: filhote da Psicanálise: pretende
mostrar como o cidadão comum, em seu dia-a-dia, pode tirar proveito
de conceitos como repressão, fixação, trauma e outros
para promover sua própria saúde psicológica e a daqueles
com quem se relaciona.
SERVIÇO
Primeira aula gratuita do curso de Formação
de Psicanalistas de Orientação Loganalítica
Reservas por tel: (21) 2523 5315
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