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Do ponto de vista médico, há estruturas cerebrais com morfologia
e funcionalidade diferentes entre o SNC (Sistema Nervoso Central) do homem
e da mulher.
| "Neurocientistas e a sociedade têm
que ter muito cuidado ao fazerem as interpretações de
tais diferenças, sem reducionismos perigosos. Pode haver uma
distorção ao fazer reforços de preconceitos existentes
contra a mulher, justificando certas habilidades diferenciadas como
um sinônimo de inferioridade" |
Em parte, os comportamentos, atitudes, pensamentos,
habilidades e sentimentos femininos podem ser distintos aos dos homens
por tais diferenças anatômicas e funcionais entre os
cérebros deles. Esse é o papel das neurociências
na atualidade, apontar tais diferenças, a fim de que haja intervenções
terapêuticas distintas e até medidas preventivas. |
Por que essa diferença entre o cérebro do homem
e da mulher?
Sabemos que grande parte dessas diferenças decorre da exposição
diferenciada do cérebro feminino ao hormônio estrogênio,
já no intraútero, na gestação. O cérebro
feminino vai se moldando e se desenvolvendo de uma forma distinta ao masculino
já no intraútero.
Imagens da ressonância magnética funcional realizadas por
neurocientistas apontam, entre inúmeras outras diferenças
(poderíamos citar dezenas delas na atualidade):
1. O cérebro das mulheres é aproximadamente
10% menor que o dos homens, porém, possui maior número de
conexões entre as células nervosas. O corpo caloso que faz
a comunicação entre os hemisférios cerebrais direito
e esquerdo costuma ser mais desenvolvido nas mulheres. Isso leva a uma
melhor integração de diferentes estímulos entre os
dois lados do cérebro feminino. Geralmente, as mulheres fazem várias
tarefas simultâneas como cozinhar, ler, cuidar da casa e dos filhos
de forma mais eficiente que os homens.
2. O cérebro esquerdo é bem mais desenvolvido
entre as mulheres;
3. O cérebro direito mais desenvolvido entre os
homens – contrariamente ao que pensa o grande público –
sabe-se ser o hemisfério esquerdo denominado “científico”,
analítico, racional, verbal, temporal, enquanto o hemisfério
direito é dito “artístico”, sintético,
emocional, não verbal e espacial, isso sob a influência direta
dos hormônios sexuais (testosterona, ostrogenes, etc).
4. A mulher está mais sujeita a sentir depressão
do que o homem e, quanto a isso, existe uma relação direta
com a baixa produção da substância química
cerebral, a serotonina, no cérebro feminino. As oscilações
dos níveis de estrogênio em períodos críticos
do ciclo reprodutivo feminino como o pré-menstrual, o pós-parto
e a perimenopausa (periodo que se inicia cerca de 5 anos antes da menopausa
e vai até um ano após) são "gatilhos" para
a depressão feminina mais frequente, cerca de duas vezes.
5. O cérebro masculino é voltado para a
compreensão, enquanto o feminino é programado para a empatia
(cuidado com a interpretação).
6. As imagens mostraram que o lobo parietal inferior,
área envolvida em atividades matemáticas, é maior
no cérebro deles. Portanto, os homens costumam ser melhores em
tarefas matemáticas, enquanto as mulheres se saem melhor em atividades
verbais (cuidado com a interpretação!).
7. As mulheres são mais emotivas e expressam com
mais facilidade seus sentimentos do que os homens, porque o sistema límbico
delas é mais desenvolvido do que o deles (cuidado com a interpretação!).
Interpretação entre diferenças de gênero
deve evitar reducionismo perigoso
Os neurocientistas e a sociedade têm que ter muito cuidado ao fazerem
as interpretações de tais diferenças, sem reducionismos
perigosos. Pode haver uma distorção ao fazer reforços
de preconceitos existentes contra a mulher, justificando certas habilidades
diferenciadas como um sinônimo de inferioridade.
Lembro-me do discurso infeliz de um antigo reitor da Universidade
de Harvard, nos EUA, destacando que as mulheres não seriam
tão eficientes e brilhantes no campo das Ciências Exatas.
Isso não faz tanto tempo assim, é relativamente recente.
No passado, até foram publicados artigos sobre tais diferenças
em revistas científicas consagradas como Science and Nature,
amplificando e reforçando a suposta inferioridade feminina. Por
coincidência, muitos dos cientistas da época eram homens.
Nunca podemos também deixar de levar em consideração
o ambiente e a cultura em que o homem e a mulher estão inseridos.
Na minha prática clínica, conheço homens sensíveis,
afetuosos, que se saem melhor em atividades verbais do que matemáticas
ou lógicas. Por outro lado, conheço mulheres que são
pesquisadoras brilhantes, exímias matemáticas e com afeto
raso e pouco contato verbal.
Biologia e genética não determinam tudo sobre comportamento
e habilidades humanas
A biologia e a genética, embora relevantes, não são
os únicos determinantes do comportamento e habilidades humanas.
Por isso, pessoalmente, eu detesto piadas ou jocosidades a respeito de
tais diferenças porque, no fundo, há uma expressão
(até inconsciente) de nossos preconceitos e projeções.
Isso, é claro, pode ser oriundo tanto dos homens quanto das mulheres.
Já ouvi mulheres afirmando "acho aquele cara esquisito, sensível
e romântico, pouco decidido e muito delicado".
Ouvi também comentários de homens do tipo "aquela ali
é uma empresária agressiva, racional e mal amada".
Ambos comentários trazem no seu bojo a mensagem que a neurociência
jamais quer que tais diferenças se transformem em julgamentos ou
justificativas estigmatizadoras dos gêneros, sejam masculinos ou
femininos. Até porque alguns cientistas afirmam que cerca de 20%
dos homens têm cérebros “femininos” e até
10% das mulheres têm cérebro “masculinizados”.
No próprio campo da sexualidade humana, observamos mudanças
do comportamento sexual da mulher, mais arrojada, determinada, exigente
e erotizada. Apesar de alguns determinantes biológicos, isso ilustra
o quanto o ambiente e as forças sociais podem interferir. O objetivo
deve ser sempre o de aprimorar as competências tanto dos homens
quanto das mulheres, nunca aprofundar abismos pré-existentes.
Muitos me perguntam por que as mulheres criam discussões em casa,
o que elas têm, com relação ao gênero feminino,
que contribui para os conflitos de casal. Não vejo que os conflitos
entre os casais sejam decorrentes de questões intrínsecas
do gênero como as pessoas costumam apregoar - pelo menos na maior
parte dos contextos. O principal fator realmente costuma ser a expectativa
que se projeta na figura do outro, geralmente, sempre superdimensionada
no início de muitos relacionamentos. A fase de encantamento acaba
terminando e daí vem a frustração.
Alguns indivíduos, independentemente de serem homens ou mulheres,
costumam projetar no outro verdades ou conceitos baseados em seus próprios
valores. A figura idealizada de qualquer pessoa sempre acaba gerando consequências
negativas. Ninguém, por melhor que seja, vai ser capaz de sustentar
aspectos arquetípicos de um grande herói, infalível
em sua essência. Por melhor que sejamos, nossa natureza humana pode
se tornar frágil em algum momento.
Entre as questões que costumam gerar mais conflitos entre homens
e mulheres, incluem-se a traição, o sentimento de rejeição
de um ou de outro, a educação e os valores ensinados aos
filhos, religião ou crença, brigas entre as famílias,
dependência econômica e sexo. Não acredito ser possível
classificar as mais típicas de um gênero ou de outro, tudo
vai depender da dinâmica do casal e da própria família
adotada em sua convivência diária, na capacidade individual
de cada um poder crescer e se transformar.
Na sociedade atual, não vejo questões tão específicas
ou típicas de um sexo em relação ao outro, há
padrões mutáveis e imprevisíveis, devido aos múltiplos
papéis envolvidos.
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