| Antidepressivos,
psiquiatria, psicologia, resiliência, neuroimagem, livros de auto-ajuda,
ambiente saudável e harmônico, tranqüilidade nas ações
e atitudes diárias, dinheiro, sucesso, poder...
Afinal, o que realmente ajuda o ser humano a conqusitar a tão almejada
felicidade?
Saiba aqui o que é real e ilusório em relação
a esse complexo conceito
A todo instante, vemos estudiosos de diversas áreas do conhecimento
humano dando receitas de felicidade. Sem dúvida, felicidade envolve
um conceito complexo, dependente de múltiplas variáveis
- objetivas e subjetivas.
Quando leio ou ouço o termo “felicidade ao alcance de todos”
confesso que fico preocupado. Gostaria muito que já tivéssemos
atingido esse estágio, onde mudanças ambientais e comportamentais
simples fossem capaz de ser suficientes para todas as pessoas. O “marketing”
da promessa de felicidade também deve ser lucrativo (livros de
auto-ajuda, palestras, construções de prédios com
grandes áreas de lazer, escolas ou cursos que ensinam como alcançá-la).
Se houvesse um psicoterapeuta, filósofo, sociólogo ou psiquiatra
com fórmulas mágicas ou comprimidos miraculosos que proporcionasse,
indistintamente, a todos os seres humanos a tal felicidade plena, com
certeza, estaria até ganhando um prêmio nobel. É o
sonho de consumo de todos os seres humanos sem dúvida.
É claro que há fatores que aumentam a chance de felicidade,
mas chegar a dizer que os mesmos geram a tal felicidade tem uma grande
distância.
O mundo atual anda tão frívolo e superficial que surgem
inúmeros profetas, alguns até envolvidos por títulos
acadêmicos, em diversas partes do mundo capitalista e consumista.
Quem duvida que um ambiente saudável e harmônico, que um
bom espaço, que a tranqüilidade nas ações e
atitudes diárias, que a capacidade de autonomia, além da
contemplação da beleza e do tempo não ajudam na felicidade?
É óbvio que sim, isso já é do conhecimento
humano de décadas, nada novo.
O difícil é nós mudarmos o nosso comportamento, atitudes
e mentalidade, dentro de um mundo excessivamente materialista, competitivo,
agressivo e pragmático. Onde os valores de sobrevivência
nos sufocam como um rolo compressor, aniquilando os ideais nobres e saudáveis
das pessoas. É a lei da selva, o individulo sai tranqüilo
e feliz de casa e acaba encontrando no trânsito lentidão
e violência; no emprego, a inveja e a destrutividade das línguas,
além de muitas humilhações. E não se submete
a tudo isso apenas por dinheiro, mas geralmente, pela sobrevivência
de toda a sua família.
Dinheiro ajuda na conquista da felicidade?
No extremo oposto, atendo pessoas muito ricas e extremamente infelizes.
E que até conseguem, em momentos específicos, executarem
alguns dos passos acima, já que a busca de espaço, de ambiente
saudável, de tranquilidade, de autonomia, da possibilidade da contemplação
da beleza e do tempo livre podem ser facilitadas quando você tem
dinheiro e uma ampla rede de suporte. Difícil é reunir tudo
isso quando há carência plena de dinheiro, aqui também
entra o papel e a responsabilidade essencial de nossos políticos
pela ajuda na busca da felicidade da maioria das pessoas, um fenômeno
dependente também de fatores sócioeconômicos abrangentes.
Paradoxalmente, não posso deixar de me lembrar de pessoas muito
pobres e simples que são extremamente felizes. Posso afirmar que
o ambiente em que vivem não é saudável, que o espaço
onde habitam é minúsculo e cheio de insalubridades, que
não têm tempo, nem dinheiro para meditar ou fazer yoga e
muito menos têm poder de decisão ou autonomia em suas ações
ou possuem tempo para relaxar. Como essas pessoas, então, podem
ousar ser felizes de verdade? Não seria um paradoxo ou contra-exemplo
concreto?
É impressionante, mas a resiliência de muitos sofredores
e desfavorecidos é surpreendente e didática. Observo, apesar
das adversidades, que tais pessoas, mesmo dentro do caos de suas vidas,
conseguem criar seus espaços minúsculos de tempo para atividades
simples como ligar para amigos. Suas expectativas são modestas,
não ficam imaginando um mundo ideal extremamente distante da realidade
que as cercam. Não usufruem de áreas de lazer fantásticas
em condomínios residenciais, mas conseguem sentir felicidade em
um simples gesto de solidariedade humana, alguns com extrema espiritualidade.
São pessoas que nunca tiveram condições financeiras
de receber instruções ou ajudas no “mercado da paz”.
Portanto, as questões subjetivas são as principais. Observo
que isso é muito mais significativo na busca da felicidade. Todos
nós precisamos assumir nossos próprios desejos (isso é
extremamente variável de pessoa para pessoa) e nos responsabilizarmos
por eles. Não há uma medida única de tal desejo,
isso é extremamente variável de indivíduo para indivíduo.
Antidepressivo e felicidade
Por fim, perguntam-me o tempo todo, por e-mails e nos atendimentos que
eu realizo, se antidepressivo causa felicidade. É óbvio
que os antidepressivos ajudam a eliminar os sintomas depressivos, entre
eles a tristeza. Porém, prometer a felicidade é uma outra
história, nunca tiveram tal função.
O objetivo de qualquer especialidade médica é melhorar a
qualidade de vida e ajudar, se possível, na prevenção
das doenças. Porém, não podemos nos esquecer que
depressão em alguns pacientes pode ter uma carga genética
importante, sendo seu curso, gravidade e tratamento independente de mudanças
ambientais e comportamentais.
Qualquer psiquiatra gabaritado e consciente sabe que o tratamento envolvendo
medicamento e psicoterapia é o indicado e ideal. Ninguém
é reducionista. A diátese anteriormente existente entre
psiquiatria e psicologia já está muito atenuada. Hoje, temos
uma ampla cooperação. A boa prática psicoterápica
envolve não só a análise dos momentos ruins e dolorosos,
como também o destaque das horas boas, incentivando os pacientes
através de reforços positivos. Surpreendo-me quando alguns
profissionais enfatizam isso como se fosse uma grande novidade, uma descoberta
do século XXI.
Na minha prática clínica, observo há muito tempo
que inúmeros colegas psiquiatras e bons psicólogos sempre
buscaram a abordagem de seus pacientes com essa completude. Ninguém
seria tolo de afirmar que as neurociências, por mais evoluídas
que estejam, possam ser suficientes para todos os pacientes no alívio
de suas angústias e busca da felicidade. Suas descobertas fundamentais
sempre serão completadas por outras práticas humanísticas,
que o mundo materialista, agressivo e competitivo, que só visa
à produtividade em massa, destruiu ou ignorou.
Outra preocupação minha: resultados de pesquisas de neuroimagem,
embora importantes, nem sempre (ou quase nunca) refletem o que realmente
ocorre no dia-a-dia da vida psicológica das pessoas. Há
que se ter muito cuidado para transpor tais conhecimentos nas conclusões
dos fatores geradores da felicidade: um fenômeno amplo, complexo,
individualizado e sem receitas de bolo para todos.
Artigos relacionados - clique no título
Quanto custa ser feliz?
Pare de sabotar sua vida, sua felicidade
e seu sucesso
Por que a psicoterapia e a psiquiatria
devem se integrar
Felicidade: não existe receita
pronta, mas sim um caminho
Lançamento - livro
Mentes Femininas - A saúde mental
ao alcance da mulher
Autor: Psiquiatra Prof. Dr. Joel
Rennó Jr.
Dia: 18 de Novembro, em São Paulo
Horário: 19h00
Local: Fnac
Endereço: Av. Pedroso de Morais,
858 - Pinheiros
Tel: (11) 3579 2000
Descrição: O objetivo deste livro é
auxiliar e ensinar todas as mulheres sobre a saúde feminina. Como
alguns problemas surgem e o que fazer para evitá-los. E, se surgirem,
como curá-los e a quem procurar. O livro trata de assuntos como
TPM, menopausa, ansiedade, depressão entre muitos outros.
Leia mais - clique aqui
|