| "Já vi delegadas de polícia,
juízas, empresárias importantes, psiquiatras e psicólogas...
enfim, a lista é grande. Homens e mulheres que não amadurecem
e permanecem fixados na ideia de um amor romântico, que perdura
por toda a vida e permanece tinindo 24 horas por dia, são presas
fáceis do assédio por sedução ou sequestro
sentimental" |
No folhetim global Caminho das Índias
em que uma das tramas envolve um casal de golpistas profissionais.
O homem seduz uma vítima escolhida “a dedo”. Ela
é casada com um alto executivo que trabalha muito e não
tem tempo para ela, e perdeu o romantismo, blá, blá,
blá.” Ele faz o script do homem sensível, romântico
(que ainda manda flores) interessado nela e em seus sentimentos blá,
blá, blá. |
Tudo muito bem calculado para encaixar como um peça
perfeita no script dela, da mulher carente, infantil em termos emocionais
e com a vida vazia, rolando como pedrinhas que os pés chutam de
lá para cá e depois de volta.
Para muitos esse enredo pode parecer cem por cento ficcional mas isso
está longe da verdade ou melhor da realidade. Existem no Brasil
e creio que em todo mundo verdadeiras quadrilhas, além dos free
lancers especializados nesse tipo de golpe. Recentemente, soube por um
amigo que um caso semelhante aconteceu com a mulher de um político
importante, causando alvoroço e movimentando serviços de
segurança privada de alto nível.
Comparo esses crimes ao do sequestro porque a vítima fica “vendada”
(cega para o que está de verdade acontecendo), é colocada
num “cativeiro” e se torna “refém” do seu
sedutor sequestrador ao ter sua intimidade tão íntima nas
mãos do seu “amado”. As chantagens e extorsões
que se seguem têm as mesmas características do sequestro
comum.
Por que isso acontece?
Por que ao contrário do sequestro onde existe uma ameaça
real, constrangimento real, violência real, a vítima do sequestro
emocional se entrega de bandeja ao seu algoz? Em primeiro lugar pelas
mesmas razões que as vítimas de golpes e estelionatos caem
hoje e sempre: desejo de levar vantagem! As mulheres que são vítimas
preferenciais de repente se veem diante de um presente dos deuses: um
homem jovem (pelo menos mais jovem que seu marido), cativante, totalmente
interessado nela, sexualmente ativos e inesgotáveis e com um pedigree
(falso) fantástico: rico, culto, viajado, sensível, etc.
Tudo só para ela, embrulhado para presente pelo próprio
“papai do céu”. De repente ela se acha a rainha da
cocada preta, a última cereja da torta de merengue. Em seu íntimo
ela diz: “Agora chegou a minha vez, vou dar um é na bunda
daquele sapo que se diz meu marido e vou ser feliz integralmente”.
Secretamente ela saboreia a vingança pelas noites vazias, pelas
pequenas ou grandes infidelidades do marido, pela sua chatice, pelo seu
desprezo, pelo sexo sem prazer, pela sua grosseria, enfim, por toda uma
vida que ela considera frustrada. Mas tudo não passa de uma armadilha
muito bem (ou às vezes nem tanto) orquestrada para explorar justamente
essa fraqueza dos relacionamentos conjugais, pelo menos de alguns. O segundo
motivo é a infantilidade emocional e o vácuo existencial
que muitas mulheres casadas com homens ricos caem. Como dizia o meu bisavô:
“Cabeça vazia é oficina do capeta”. Mas não
só de cabecinhas vazias vive o golpe.
Já vi delegadas de polícia, juízas, empresárias
importantes, psiquiatras e psicólogas... enfim, a lista é
grande. Homens e mulheres que não amadurecem e permanecem fixados
na ideia de um amor romântico, que perdura por toda a vida e permanece
tinindo 24 horas por dia, são presas fáceis do assédio
por sedução ou sequestro sentimental. É óbvio
que com os homens isso também acontece, só que a formatação
por causa da cultura “do macho” que tudo pode, é diferente.
O arquétipo do príncipe encantado pode parecer à
primeira vista defasado e démodé em nossa sociedade, onde
as mulheres alcançaram a libertação de seus antigos
jugos sociais. Mas como podemos ver o arquétipo apenas se adaptou
às novas circunstâncias porque a mulher em seu íntimo
ainda é a mesma e se não se torna Pessoa, vira
vítima.
O ego feminino que não se torna adulto permanece infantil e carente,
precisando de alimento, adubo que os sedutores profissionais sabem muito
bem fornecer. Os aprendizes de Don Juan aprenderam pela prática
a tocar nas teclas certas, falar as palavras que elas tanto anseiam ouvir,
que naturalmente os maridos atarantados pela corrida pela sobrevivência
ou pelo poder, não têm mais tempo para dizer. Mas por mais
que a gente saiba que existe sim uma cumplicidade das vítimas nesse
crime, não posso deixar de me comover quando a casa cai e elas
descobrem que o seu príncipe na verdade é um jacaré.
Os olhos arregalados e uma “hemorragia” generalizada na alma,
quando descobrem que seu amado tem extensa ficha criminal, e está
disposto a sapatear sobre ela para obter o que tinha em mente desde o
primeiro olhar “apaixonado”: Dinheiro!
Os dramas que se seguem à revelação da extorsão
e que não raro envolvem o marido e toda a família são
arrasadores. Mas desde O Primo Basílio de Eça de
Queiróz, até a Nanda da novela das oito, as mulheres casadas
e que ainda sonham com o homem ideal, continuarão a ser um prato
cheio para os sequestradores sentimentais. Contra essa armadilha só
o crescimento interior e o amadurecimento do Ego podem proteger, enquanto
isso fiquem com o refrão do samba do imortal Ataulfo Alves:”
Laranja madura na beira da estrada, tá bichada Zé, ou tem
marimbondo no pé”.
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