| "Amigos e familiares
nos estenderam as mãos. Acolheram-nos e acolheram também
a nossa dor, a nossa tristeza. E isso é riqueza. E é
material, pois toca. Enfrentar a dor não foi uma escolha, foi
uma condição" |
De sexta a sexta. Sete dias. 360 graus. Sexta-feira
de Carnaval, sem bloco, sem alegria, sem bebedeira. Levaram tudo.
Carro. Bolsas. Documentos. Projetos. Mas não nos levaram. Deixaram-nos
sós. E sem a matéria, ficou confuso pensar no dia. Na
verdade, a ausência da matéria ainda deixou: a dúvida,
o medo, a burocracia. |
A ordem do dia passou a ser o cancelamento: dos compromissos, dos cartões
de créditos, das linhas telefônicas, dos cheques. Os ladrões
fugiram e nós ficamos trancados em nossos papéis, em nossas
contas, em nossas máscaras. E o dia continuou passando, como um
outro qualquer.
O dia seguinte chegou, nem pior nem melhor, apenas o dia seguinte. As
pessoas comentaram e perguntaram; elas nos fizeram lembrar, talvez para
elaborar o acontecido. Não é bom nem mau, mas cansativo.
Pálpebras se fecharam ativando a cena, o susto, o mal-estar. E
os dias continuaram passando.
Amigos e familiares nos estenderam as mãos. Acolheram-nos e acolheram
também a nossa dor, a nossa tristeza. E isso é riqueza.
E é material, pois toca.
Enfrentar a dor não foi uma escolha, foi uma condição.
O mundo não para nunca. E o Carnaval aconteceu independente da
minha fantasia. Tudo se desconectou. Tudo saiu do lugar.
Então, inventamos propósitos, dando sentido aos fatos. É
o humano contextualizando o mundo, se impondo divinamente sobre o que
não se pode entender e aceitar. E isso nos confortou. Fez-nos seguir
em frente.
E, quando a realidade se assentou, eis que a boa nova foi anunciada no
sétimo dia, em 18, que somam 9, simbolicamente o início
de um novo ciclo. Como diz o velho ditado: “Depois da tempestade,
vem a bonança”. O importante é resistir às
chuvas e ao vento, com fé, que a Quaresma inicia.
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