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No último dia treze, assisti a um espetáculo de dança
contemporânea, chamado “Corpos ímpares”, um projeto
da Pulsar Cia. de dança, que trabalha com arte, dança e
deficiência.
O nome do evento carrega em si um significado interessante, pois nos conduz
a pensar a diferença. O ímpar é único, não
faz par, não está incluído na normalidade. Desde
o nome, o evento movimenta o espectador diante do outro, não somente
um outro corpo, mas um outro diferente, com qualificações
não experimentadas por nós, seja através de sua elaborada
técnica ou do seu limite corporal.
Havia performances com bailarinos cadeirantes, com bailarinos portadores
de paralisia cerebral e com bailarinos com faculdades físicas ‘normais’.
Todos movimentaram-nos em nossa ‘normose’, termo tão
bem apontado por Hermógenes (grande professor de Yoga). A ‘normose’
é a ‘doença de ser normal’, quando todos querem
se encaixar num padrão, e isso nos neurotiza, nos levando a um
lugar que não aceita a diferença.
”Corpos ímpares” levou os espectadores ao incômodo
lugar da verdadeira observação, ao lugar daquele que se
desloca de si mesmo para ver o outro, enquanto alguém que não
sou. E este é o lugar do pensar filosófico, que não
teme não entender, que não teme perguntar, que não
teme não-saber.
Desde o *Tempo Líquido, interpretado por Maria Alice Poppe,
ao **D-Equilíbrio de Marcos Abranches, nossas mentes e
corpos, aparentemente ‘normais’, desintegraram em algum lugar,
na estranheza de olhar e pouco entender, de não saber, de encontrar
o belo onde ele não costuma estar.
O exercício do pensar está na arte, quando ela se produz
enquanto comunicação, como algo que nos tira o fôlego
ou que nos tira as palavras do lugar comum.
Durante o espetáculo, observei alguns espectadores estupefatos,
alguns por gostar, outros por não gostar. Mas isso não importa,
o fundamental é que todos, de sua forma ímpar, ad-miraram,
ou seja, mantiveram o seu mirar (olhar) ad (junto) ao que se apresentava.
E essa experiência de contemplação é o que
falta ao olhar contemporâneo, viciado no olhar pronto da normose
dos corpos sarados das passarelas bioecologicas.
* 'Tempo líquido': "Exercício sobre o uso apropriado
do tempo dilatado, que se justifica no momento em que o movimento habita
o corpo no presente, ora estendendo, ora encurtando, como no tempo cósmico".
Os movimentos de Maria Alice buscavam essa linguagem com movimentos fortes
e repetitivos, sem intenção de 'lugares' comuns da beleza
na dança.
** D-Equilíbrio é uma coreografia interpretada
por Marcos Abranches, bailarino portador de paralisia cerebral, que "através
da dança contemporânea percorre o caminho saudável
da vida que é quebrado pelo descontrole e pela atitude desarmoniosa
que foge dos padrões normais ditos pela sociedade."
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